Militância, espaços seguros e lugar de fala — Uma reflexão sobre uma nota pública do PSOL Londrina

Solicitei minha desfiliação do PSOL — Partido Socialismo e Liberdade há pouco mais de um mês, se não me engano. Foi deferida em dois dias, portanto não faço mais parte do partido. Fiz essa escolha em decorrência do que parece ser a posição majoritária do partido a respeito da conjuntura atual, da defesa fraca da candidatura de Lula, e principalmente da irredutível e agressiva recusa dos militantes ativos em Londrina a discutir de forma mais orgânica (para além dos discursos prontos) a urgente questão do golpe, principalmente a sua fase final, o impedimento da candidatura de Lula, e a união das esquerdas contra esse esquema geopolítico que ameaça seriamente a soberania nacional brasileira.

Apesar disso, foi publicada uma nota no dia 4 de março na página oficial do PSOL Londrina, divulgando o meu afastamento do partido por conta de uma denúncia do setorial LGBT me acusando de LGBTfobia em relação a um militante específico do partido. Novamente: eu não faço parte do partido há mais de um mês, e minha desfiliação não tem absolutamente nada a ver com esse assunto. Visto isso, creio que essa nota não faça o menor sentido enquanto divulgação de questão partidária, mas faz certo sentido enquanto ataque político e acusação pública. Não vou responder ao ataque político porque ele é irrelevante e não vou me defender da acusação porque não preciso.

Sempre defendi e divulguei o programa do partido, inclusive seria muito estranho me acusar do contrário sendo que eu fui o candidato a vereador mais votado do PSOL na última eleição municipal, e quem já disputou uma eleição sabe muito bem como é difícil conseguir um voto, ainda mais quando não se tem financiamento de campanha. Nunca desrespeitei nenhum dos meus companheiros de partido, sempre debati com respeito, educação e civilidade, mesmo nos vários momentos em que não recebi o mesmo respeito de volta, como está registrado em alguns exemplos:

Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.

As imagens acima foram registradas por mim mesmo. As imagens abaixo foram usadas como “provas” na representação feita em reunião presencial solicitando meu afastamento.

Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.
Os nomes foram apagados para preservar a privacidade das pessoas. O nome marcado em vermelho é do militante que me acusou.

Infelizmente não tenho todos os registros. Cheguei a solicitar aos militantes que me acusaram o conjunto das provas materiais da denúncia que fizeram, mas fui ignorado.

Antes de qualquer coisa quero deixar bem claro que não tenho nada contra meus antigos companheiros do PSOL Londrina. Apesar de nossas discordâncias, continuo admirando a grande maioria deles pela dedicação e pela seriedade com a qual encaram os inúmeros problemas da militância política, especialmente em Londrina.

Visto isso, quero aproveitar a oportunidade pra fazer uma reflexão a respeito de lugar de fala, espaços seguros e autoritarismo.

A motivação das acusações envolve, como mostram as imagens, o incômodo do militante em questão frente aos meus posicionamentos, argumentos e o que ele identificou como uma insistência em questionar e apontar suas falas. Em nenhum momento se vê qualquer menção à sua sexualidade ou qualquer ataque à militância LGBT em si, mas mesmo assim as minhas atitudes foram interpretadas como LGBTfóbicas pelo fato de eu estar fazendo contrapontos insistentes a uma pessoa que seria um “quadro nacional” na pauta identitária e portanto representaria, enquanto indivíduo, se é que isso é possível, a pauta em si.

Citando Helena Vieira, transfeminista e militante do PSOL do Ceará, usar a própria vivência para enunciar sobre a coletividade é uma forma de colonizar outras identidades. Essa estrutura de discurso de “verdade” a partir da coletivização da própria identidade (“eu falo pelo coletivo porque eu sou ‘isso’”) é apenas uma das muitas formas de discurso autoritário que impedem a construção de uma prática política efetiva. Nenhuma militância política é ontológica, relacionada fundamentalmente ao “ser” de sujeitos marcados por esta ou aquela identidade. As lutas sociais partem de um posicionamento ético e político que pode ser tomado ou rejeitado por qualquer um independentemente de qualquer marcador. E esses posicionamentos podem e devem ser disputados independentemente de qualquer marcador.

Também foi apontado um suposto desprezo da minha parte pela pauta LGBT, que acontece de ser o centro da sua militância. Visto que, de fato, eu sempre insisti na discussão sobre a economia, a política, o Estado, e principalmente o golpe, e muitas vezes fiz isso intencionalmente durante a exposição de questões identitárias. Justamente porque as questões identitárias mais urgentes, em minha opinião, passam transversalmente às questões de classe, e os LGBT sofrem particularmente mais com as questões de classe do que as pessoas hetero-normativas. As pessoas LGBT só terão emprego se houver uma organização política para isso, assim como só terão acesso pleno a educação e a segurança através da conquista política de espaços de trabalho e educação. Palavras de ordem, atos performáticos (e isso significa protestos, passeatas, etc.), campanhas no Facebook por si só não irão conquistar nada se não houver uma disputa real e possível pelos espaços públicos. Ações pontuais de inclusão promovidas por ONGs, determinadas empresas do setor privado ou os próprios movimentos sociais são importantes, mas não fazem frente à dimensão de uma política de Estado. Gostemos ou não do Estado e da forma como a ideologia vigente advoga (inclusive no que diz respeito a preconceitos e opressões), ainda hoje é prioritariamente através do Estado que as estruturas funcionam. E é nele que as disputas surtem efeito concreto.

A nota do PSOL Londrina também aponta a necessidade da construção de espaços seguros, assunto que foi botado em pauta na representação, apontando que eu estava oprimindo o militante em um espaço que deveria ser seguro.

Particularmente acho muito perigosa a ideia de “espaços seguros” em militância política, visto que a política em si vai tratar justamente do inseguro, do incerto, do imperfeito, do mundo bárbaro que devemos encarar, compreender e transformar. Sendo assim, a militância não tem como ser um grupo de apoio no qual nos fortalecemos em um discurso lúdico pronto e confortável para que possamos desafiar nossos inimigos com uma suposta “coragem” construída através da certeza de estarmos do lado certo. Da mesma forma, a militância não é um laboratório do “novo mundo”. Partidos e movimentos sociais não possuem uma fórmula pronta de como a sociedade deve ser, são instâncias políticas da sociedade como ela é, portanto consistem em disputas internas. Claro que todos devem ser tratados com respeito e dignidade dentro dessas disputas, e justamente por isso devemos nos lembrar sempre que discurso é uma coisa e sujeito é outra. Logo, discordar e ofender são duas coisas absolutamente distintas. É perfeitamente possível respeitar um sujeito enquanto se despreza seu discurso. E francamente, se uma pessoa não consegue suportar o fato de ser contrariada, mesmo que sumariamente e insistentemente contrariada, essa pessoa precisa de fato de um espaço seguro. Mas esse espaço seguro se encontra em uma terapia, um divã ou um grupo de apoio, e não em uma organização política. Até mesmo porque, se eu não consigo suportar uma disputa argumentativa, como eu espero afetar a estrutura que nos oprime? Veja, estou falando de afetar: conquistar espaços públicos, gerar mudanças concretas, e não simplesmente usar de bravatas, palavras de ordem ou notas de repúdio.

Sei que problemas envolvendo tais questões não são exclusivos do PSOL e nem mesmo das esquerdas, por isso acho importante que pensemos a respeito deles enquanto sujeitos sociais, tanto em prol de uma atuação política mais significativa quanto de relações mais honestas e funcionais. Relacionar-se com o outro implica em saber que nenhuma das partes detém a verdade, nem mesmo a verdade sobre si mesmo. Estamos descobrindo a todo o momento, e estar no mundo enquanto sujeito consiste, antes de qualquer coisa, em suportar isso.