Para onde vai a Educação Corporativa?

Este ano, a ATD, maior conferência para profissionais de T&D do mundo, teve um foco claro: o treinamento, para ser efetivo, tem que que sair da sala de aula.

Você pode se perguntar: “Jura? É isso mesmo? Estamos falando há tanto tempo de blended learning…”

Mas, é exatamente aí que está a diferença.

Desde os anos 90, o caminho natural de todo treinamento que saía da sala de aula era ir direto para o computador. Nos anos 2000, com a internet mais disponível, fomos para o E-Learning. Parecia perfeito, reduzir custo com logística e deixar o aluno fazer o programa na sua mesa de trabalho. E foi perfeito para muita gente, por muito tempo.

Minha impressão, após participar da ATD 2016, é que o conceito tradicional de blended learning –mistura simples de sala de aula + cursos on-line — já não funciona mais. Pelo menos não do jeito que ele foi inicialmente concebido. A pergunta, portanto, passa a ser outra: o treinamento está saindo da sala de aula e indo para onde??!?

A resposta não é óbvia, mas é simples: ele está indo para todo lugar. Para os smartphones, para a nuvem, para as conversas, para o trabalho, para os projetos e por aí vai. E, sempre que faz sentido, continua sendo potencializado em programas on-line e consolidado em momentos presenciais.

O caminho que o treinamento está fazendo é simples: ele está indo para onde o aprendizado realmente ocorre. Isso parece ser bem aceito e compreendido por todos. Mas, surgem duas inquietações, a partir dessa nova visão.

Se o processo de aprendizado efetivamente sair da sala de aula (presencial ou on-line) nós, profissionais de educação corporativa, não podemos mais direcionar e controlar os passos do aluno como fazíamos antes. Afinal, fora das salas não tem lista de presença, relatório de realização de módulos on-line. Não tem avaliação de reação. Nós não definimos qual o exercício, vídeo ou autor que os “participantes” utilizarão no processo.

(Claro que ter LMS com bons analytics do treinamento é fundamental e nos ajuda a tomar melhores decisões. Com big data e inteligência artificial, estamos só no começo. Mas obter informações do processo de aprendizado é meio, e não fim.)

Mas tudo isso faz a gente refletir: qual o nosso papel, então?

A resposta que as pesquisas e o mercado trazem (e que eu também acredito muito) é a seguinte: o novo papel dos profissionais de T&D está relacionado à promoção de uma cultura de aprendizagem nas empresas. Temos que atuar como curadores de conteúdo, experiências e tecnologias, incentivando todos a criar um meio ambiente que estimule e facilite o processo de aprendizagem.

E aí vem o segundo motivo de preocupação: como é que eu faço isso?

Essa ansiedade é ainda maior porque todo mundo da área concorda com a maravilha que seria ter uma cultura de aprendizagem amplamente disseminada. Está claro que o que acontece fora do processo formal é mais importante do que as ações estruturadas. Porém, 90% do nossos recursos (tempo, time, budget) estão dirigidos a elas.

Eu também não tenho resposta. Tenho minhas visões (esse artigo mostra um pouco delas — http://tinyurl.com/z6fep5g). Mas, se pudesse dar um conselho, seria o de olhar para fora do contexto de T&D, para que a gente aprenda com o macroambiente de negócios, com as transformações dos outros setores no Brasil e no mundo.

Precisamos primeiro aceitar a incerteza. Não vai surgir um novo modelo óbvio, de implantação imediata e que nos permitirá aplicar de maneira única, estruturada e rápida. A tal vida em beta chegou mesmo. E vamos ter que nos habituar com mudanças o tempo todo.

A boa notícia é que o momento tecnológico e corporativo atual tem incentivado o aprendizado. Bom conteúdo aberto, soluções em nuvem, aumento da capacidade da banda, mais smartphones, etc. Essas facilidades de um mundo cada vez mais digital fizeram com que as pessoas se habituassem a aprender fora do contexto formal. Quem não usou (essa semana!) Google, Facebook ou YouTube para ajudar em algo que não sabia fazer? Seja para fazer uma tabela dinâmica no Excel ou uma receita de brigadeiro de caneca.

Como responsáveis por promover o aprendizado dentro das empresas, temos que experimentar e arriscar mais. Talvez o processo tradicional de criação de um programa possa ser mais enxuto. Mais ágil. Em síntese: mais corajoso.

Não estou falando de ser inconsequente. Mas de não precisar fazer o piloto do piloto de cada programa. Vamos aprender fazendo. Todo o processo pode e deve ser mais simples e ágil. Não somos uma instituição fechada que o Ministério da Educação diz o que devemos ou não fazer.

Vamos aceitar que o conteúdo possa evoluir ao longo de um programa. E que tudo bem se as turmas não tiverem E-XA-TA-MEN-TE a mesma experiência de aprendizagem.

Talvez, essa seja uma boa oportunidade de influenciar a cultura de aprendizagem e de mostrar que nós também aprendemos e evoluímos. E não tem problema mudar. Aliás, o problema é exatamente não mudar.

Devemos criar uma nova concepção sobre o real significado de organizar iniciativas de treinamento e do nosso papel nesse processo. Atuar como curador, identificando parceiros que possam oferecer conteúdo de maneira estruturada é uma parte importante desse processo. Especialmente se o conteúdo for novo, moderno e relacionado às dores e necessidades das empresas e participantes.

Também é importante rever uma série de outras questões, como nossas métricas, relacionamento com áreas-clientes e até mesmo nossas estruturas internas, propiciando mais tempo para pensar em incentivar aprendizado e desenvolvimento fora da sala de aula.

Enfim, como tenho dito, fico feliz e empolgado de viver esse momento de mudança. E tenho certeza de que se juntarmos todas as novas oportunidades do nosso tempo com a experiência gigantesca que temos em treinamento (mesmo o tradicional), conseguiremos criar experiências de aprendizagem incríveis para melhorar a vida das pessoas e o resultado das empresas.

Afinal, é para isso que existimos, não é mesmo?