Você contrata líderes ou salvadores?

A situação é conhecida. Um novo funcionário é contratado para dar conta do que ficou descoberto por outro ou pela simples expansão da estrutura. Movimento corriqueiro e cotidiano das empresas. Nos dias atuais — considerando o cenário econômico — podemos dizer que este movimento é ainda mais decisivo, já que menos empresas contratam e mais demitem.

Algumas dessas aquisições intelectuais não estão relacionadas a funcionários da operação, mas a líderes. Isso significa que, em tese, terão uma equipe ou um processo para gerir. Interessante notar que em algumas empresas esse profissional é recebido com uma expectativa desajustada à sua capacidade imediata de entrega, gerando dois sintomas perigosos para a empresa. Um no curto e outro no médio/ longo prazo.

1 — Afoga ou nada?

Como um professor de natação displicente, alguns gestores acreditam que as pessoas aprendem sozinhas e “na raça”. Ou pior, que seus currículos garantem uma entrega primorosa e conectada com as expectativas e cultura do novo local de trabalho. A esse fenômeno, estabelecem-se dois caminhos: se o líder aprender, ele nada; caso contrário, ele se afoga. Quando o profissional consegue nadar, segue caminho na organização. Quando ele se afoga, é demitido em um contexto rancoroso e, claro, tido como incompetente.

É importante saber que nas duas situações quem perde é a empresa, o cliente e os resultados.

Quando se aprende a nadar, perde-se tempo de qualidade, cria-se rupturas na cultura já comprometida, desprende-se esforço e energia vitais que poderiam ser canalizadas de forma mais inteligente é sistêmica.

Quando não se aprende, além de tudo isso, se reforça o mal comportamento de acreditar que as pessoas estão prontas e que a responsabilidade de aprender é 100% do funcionário, sem parcela alguma de participação da empresa e liderança.

Integração, transição ou incorporação de empregados é assunto sério. Aprender é uma ciência complexa e profunda. Exige, portanto, dedicação e disciplina. Todo barco sai do prumo quando um novo integrante entra e isso precisa ser previsto pelos outros com destreza e paciência. Além disso, a falta de atenção a estas questões tem a capacidade de, pouco a pouco, criar uma cultura individualista, egoísta e competitiva. Comportamentos completamente nocivos para conquistas sustentáveis e de longo prazo.

Todo barco sai do prumo quando um novo integrante entra e isso precisa ser previsto pelos outros com destreza e paciência.

2 — O salvador da pátria

Gosto dessa metáfora, pois ilustra muito bem o resultado da contratação de líderes em estruturas que valorizam a competição e o territorialismo. Tais companhias, recebem os novos líderes como Jerusalém recebeu Jesus, ou seja, no auge de sua popularidade, com pompa e muita admiração.

Como sabemos, tal cenário dura pouco e — diferente do que acontece na Bíblia — tais mimos criam em alguns dos novos profissionais uma imensa energia de poder, expectativas autocentradas e estritamente mercantis. Ao mesmo tempo, nas equipes, geram conformismo e vitimismo, a típica espera pela salvação.

Vejo, diariamente, novos contratados descerem da glória diretamente para o Calvário, crucificados pela mesma multidão que os celebrou e endeusou. Período de grande tristeza, perda de foco, rancor e, em alguns casos, fim de parceria.

Salvadores não existem no mundo das empresas. A cultura do gênio isolado e dotado de uma capacidade transcendental é nociva e mentirosa. Talentos notáveis são possíveis, mas não devem assumir a responsabilidade da companhia de produzir os resultados que precisam ser produzidos coletivamente. E isso se dá ao fato de que as empresas precisam se enxergar como organismos coletivos, ou seja, que aprendem e agem em equipe.

Como dito no início do texto, é imprescindível ajustar a expectativa em relação a entrada de um novo profissional na equipe. Pessoas aprendem de maneiras diferentes e seu papel não pode ser confundido com um milagre que, paradoxalmente, retira dos outros a oportunidade e dever de entregar. Em geral, esta expectativa é criada justamente pela ausência de resultados e de uma cultura colaborativa. Um verdadeiro contrassenso, perigoso e insustentável.

Sendo assim, cuidado. Concentre-se em transformar sua empresa em um organismo vivo, conectado e que aprende coletivamente. As pessoas de dentro, as novas e, principalmente, os líderes de todos os níveis, devem ser vistos como parte desse conjunto. Qualquer coisa fora disso mais atrapalha do que contribui.

Anderson Siqueira

Idealizador e educador na Consense Educação para as relações

Originally published at www.consense.com.br on June 20, 2017.