Colaborativo: o trabalho do século XXI

Coworkings deixaram de ser uma experiência comercial e se consolidaram como uma nova forma de trabalho

Constance Laux e Paola Pasquale

Em 2005, o engenheiro de software Brad Neuberg trabalhava numa start-up cujo projeto principal era uma das primeiras iniciativas de leitores RSS de notícias na internet. Após uma curta temporada na Tailândia, onde trabalhara independentemente com programação de código aberto, ele estava de volta a um escritório. Sentia-se frustrado por não conseguir aliar tudo o que ele queria naquele momento: a liberdade de trabalhar para si mesmo e a estrutura e o senso de comunidade que uma empresa proporciona.

Diante das circunstâncias, Brad conversou com uma amiga que trabalhava no Spiral Muse, um coletivo feminista sediado numa espaçosa casa no distrito de Mission, em São Francisco, e conseguiu um espaço para trabalhar duas vezes por semana, ao custo de 300 dólares mensais. Com dificuldades financeiras, ele colocou anúncios na internet para achar alguém que dividisse os custos da casa. Sem encontrar interessados, ele passou a divulgar a sua ideia em cibercafés locais, onde freelancers e profissionais autônomos costumavam desenvolver suas atividades, distante do ambiente domiciliar, muitas vezes distrativo. O primeiro a topar a ideia foi Ray Baxter e juntos eles iniciaram o primeiro coworking — modelo de trabalho baseado no compartilhamento de espaço e recursos de escritório, que pode reunir profissionais de diferentes áreas.

De São Francisco para os cinco continentes. Em menos de uma década, coworkings espalharam-se por capitais e grandes cidades ao redor do mundo, inclusive Porto Alegre. Mais do que apenas um local de trabalho, é a união de pessoas que trabalham por conta própria, mas que partilham de valores comuns, voltados para a colaboração, interatividade e sustentabilidade. É, acima de tudo, uma forma de as pessoas interagirem, trocarem experiências e estabeleceram relacionamentos de negócios, formando um amplo networking. Os princípios básicos do coworking, trabalho coletivo e colaborativo, foram definidos há milhares de anos, na própria formação da sociedade. Mas com a flexibilização e desestruturação das relações de trabalho, esses conceitos serviram de base para uma nova dinâmica de produção, profundamente relacionada com a época em que vivemos.

E quem entra em algum dos coworkings instalados em Porto Alegre, logo vê que esses são os ambientes de trabalho do século XXI. Escritórios modernos, com uma infraestrutura apropriada para trabalhadores independentes e com uma preocupação estética, concretizada através de design arrojado e criativo. Foi entre as paredes de tonalidade verde cítrico do Coletivo 202 que o game Toren nasceu. A ideia para o jogo digital surgiu, então com o nome de Babel, como trabalho de conclusão do curso de especialização em Jogos Digitais, promovida pelas faculdades de Comunicação Social e Informática da PUCRS.

Os alunos Alessandro Martinello, Conrado Testa, Luiz Alvarez e Henry Braun resolveram levar a ideia adiante, mas o game destoava visual e conceitualmente de outros jogos produzidos por estúdios no cenário nacional. Os empreendedores resolveram então abrir a empresa Swordtales, em 2011, e produzir o Toren independentemente. “Sendo um jogo de estilo indie, tivemos que tirar a maior parte do orçamento por conta própria. Na época, tentando não gastar demais, encontramos o coletivo 202, que nos ofereceu um espaço bacana e propostas interessantes”, conta Conrado, responsável pela animação do projeto.

A dinâmica do coletivo e a interação com profissionais de outras áreas permitiu que o grupo de amigos desse um passo importante em direção à viabilização do game, que quase foi cancelado em 2012. “Queríamos inscrever nosso projeto na Lei Rouanet, mas a burocracia era muito grande. Lá dentro conhecemos um captador de recursos, que ficou responsável por toda a parte de contrato e serviço pra gente”, relata Conrado. Um auxílio secundário veio de uma pequena empresa interna do coletivo, que atuava no comércio de eletrônicos e pode contribuir com vários periféricos para computador necessários para a programação do jogo. Aos poucos, o projeto passou a ganhar forma.

Na Game Developers Conference de 2013, o evento mais importante para a indústria de jogos eletrônicos, uma demonstração do jogo chamou a atenção de profissionais dos estúdios da Sony, o que resultou na participação da Swordtales no programa de incubação da empresa. O Toren foi o primeiro jogo digital a ser contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura e hoje recebe apoio financeiro de outras empresas, que podem deduzir parte do valor investido no imposto de renda. A obra será lançada no começo de 2015 para PS4, PC e Mac OS.

Outra iniciativa que surgiu em Porto Alegre foi o primeiro co-woodwork do Brasil, um espaço colaborativo para a a fabricação de peças em madeira. O Fabrique Lab reuniu, num galpão na Rua Buarque de Macedo, no bairro São Geraldo, quatro empresas: Bodoque Produteria, Guif Design, Mono e Juá Plywood Furniture. Os amigos Fernando Flores, Vinicius Raupp, André Lacerda, Diego Jucá, Gabriel Lages e João Aguiar, todos vindos da faculdade de Design de Produto, procuravam um espaço para botar em prática suas especialidades, que vão da fabricação digital à marcenaria tradicional. “Queríamos um lugar grande para compartilhar ideias e ferramentas”, relata André.

No dia-a-dia cada empresa funciona de forma independente e se utiliza de técnicas variadas. O trabalho da marcenaria tradicional resgata o uso dos malhetes, encaixes perfeitos que permitem a montagem do móvel sem cola ou pregos, além das clássicas ferramentas como o formão e a plaina. Ainda assim, ganha um toque contemporâneo, com design escandinavo e o uso de madeiras claras como o pinos de reflorestamento, material que há quatro anos nem se via em Porto Alegre. Na marcenaria digital, o trabalho é aperfeiçoado por uma máquina de corte controlada por computador. Por fim, a impressão 3D representa a mais alta tecnologia, conhecida por fazer prototipagem rápida, a impressora fabrica modelos tridimensionais.

Apesar de diferentes, as práticas de trabalho são complementares, como comprova uma das mascotes do Fabrique, um cavalo “manco”. Inicialmente esculpido em madeira, a peça perdeu uma das pernas e ganhou uma prótese impressa em 3D. O ambiente descontraído ainda conta com uma depedência onde os profissionais organizam sessões de cinema com foco no trabalho que realizam. O Fablab, como é conhecido, também oferece cursos e workshops que acontecem a cada quinzena e estão abertos para quem quer colocar a mão na massa. Aqueles que têm ideias, mas não têm as ferramentas, podem entrar em contato, visitar o woodworking, apresentar seus projetos e botá-los em prática. “Nós temos bastante procura e topamos parcerias com empresas, universidades e profissionais de outras áreas que queiram desenvolver diferentes propostas. O importante é fazer”, conta André.

Já o Acervo Independente, centro cultural na Rua General Auto 219, no Centro Histórico, reúne artistas e outros profissionais da área criativa, como escritores e publicitários. O projeto já nasceu colaborativo: o casarão no qual os escritórios, ateliês e espaço de exibição estão instalados, foi reformado a partir da verba arrecadada por seis alunos do Instituto de Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Cacau Weimer, Cadu Peixoto, Joana Burd, Priscila Kisiolar, Manoela Furtado e Zeh Poeta -, através do financiamento coletivo na plataforma Catarse.

O Acervo Independente, em funcionamento desde dezembro de 2013, já recebeu nove exposições coletivas de artistas emergentes, que não possuíam abertura no cenário artístico tradicional. Além da estrutura básica de um coworking, um espaço seguro de localização privilegiada, com computadores, wi-fi de alta velocidade, cozinha e materiais de trabalho, a casa ainda oferece um núcleo de documentação e pesquisa e o serviço de divulgação de portfólio e currículos. “O artista que aluga o espaço para trabalhar, automaticamente vira residente do Acervo e suas obras participam das mostras organizadas”, explica Cacau Weimer, cofundadora do centro.

Confira a seguir um mapa dos espaços de trabalho colaborativo atuantes em Porto Alegre:

Like what you read? Give Constance Laux a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.