Milão, città d’acqua


Se Milão nunca foi propriamente uma Veneza, já chegou bem perto. É difícil de imaginar que, antigamente, a capital da Lombardia possuía diversos canais e até mesmo um dos portos mais importantes da Itália. Hoje existem apenas resquícios desta rede de canais, que foram essenciais para o desenvolvimento da cidade.

Desde os tempos antigos, muitas rotas d’água naturais circundavam Milão. Sob o domínio romano, rios das redondezas foram desviados para levar água diretamente à cidade. No entanto, foi apenas em 1177 que os milaneses começaram a construir os primeiros canais artificiais da cidade, que, ao final do século 15, somavam mais de 150km de extensão. Ligados aos lagos de Como, Maggiore e Ticino, tornaram-se inteiramente navegáveis no século 13, assim possibilitando o fornecimento de água, o desenvolvimento da agricultura, o transporte de mercadorias, energia hidroelétrica e a comunicação entre as cidades da região.

Foto: Edgar Strods

A cidade deve seu maior símbolo a essa rede de vias aquáticas. O suntuoso Duomo di Milano foi inteiramente construído com o belíssimo mármore branco rosado de Candoglia, a 82km de Milão. Durante séculos o mármore era de lá extraído e transportado através dos canais diretamente para a construção. Ainda hoje na região de Mergozzo existe a jazida particular da catedral, administrada desde o século 14 até os dias de hoje pela Veneranda Fabbrica del Duomo.

O próprio Leonardo da Vinci, que viveu em Milão entre 1482 e 1499, se dispôs a melhorar o desempenho dos canais. Os desníveis acentuados dos terrenos impossibilitavam a navegabilidade de alguns canais. Para solucionar a questão, da Vinci criou um sistema de barragens inovador para época, a serviço do duque Ludovico il Moro — patrono do artista, também responsável por encomendar uma de suas obras-primas, A Última Ceia.

No século 19, o sistema de transporte por via fluvial entrou em decadência devido à lentidão da viagem, 3km/h, e à concorrência com outras formas de transporte, sobretudo, a ferroviária. Além disso, indústrias começaram a descartar seus lixos em águas milanesas e sanitariedade logo se tornou um problema. Dessa forma, em 1930, a maioria dos canais dentro da cidade foram cobertos.

A Porta de Ticinese, antiga entrada esplendorosa ao sul da cidade, marca o começo do bairro boêmio de Navigli, repleto de sebos, lojas de antiguidades, restaurantes e clubes noturnos. É nessa região que está preservada uma pequena amostra do que era a rede de canais de Milão. O maior deles é o Naviglio Grande, margeado pelas ruas Alzaia Naviglio Grande e Ripa di Porta Ticinese; o mais modesto é o Naviglio Pavese, entre as ruas Alzaia Naviglio Pavese e via Ascanio Sforza. A área de Darsena, que hoje está sendo completamente reestruturada, remonta ao antigo porto de 1603. A região, distante da área turística do centro histórico, é um reduto cultural interessante, que merece uma visita, sobretudo para conhecer esse lado inesperado de Milão.

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