O dilema

“O livre mercado não resolve tudo, até porque é manipulado. O mercado só vê demanda, não vê necessidades. Os mercados são cegos para as gerações futuras.”

Reportagem sobre José Lutzenberger, produzida para o Projeto Experimental Impresso, que reuniu diversos ícones gaúchos e aspectos inexplorados de suas vidas.


José Antônio Kroeff Lutzenberger era, para alguns, excêntrico, para outros, idealista. Sua defesa entusiasta da natureza tinha como base não apenas uma sólida fundamentação teórica, construída a partir dos anos de experiência como agrônomo e técnico da multinacional Basf, mas também uma visão holística da ecologia. A obra Fim do Futuro? Manifesto Ecológico Brasileiro, publicada por ele em 1976, se tornou a bíblia do movimento ambientalista e mobilizou a sociedade civil à favor de políticas ambientais brasileiras.

Lutzenberger foi um dos primeiros a levantar a bandeira do desenvolvimento sustentável, tema que passou a pautar importantes conferências mundiais. Ao contrário do que poderia se esperar, o movimento ecológico se consolidou e ganhou maior visibilidade justamente nos anos 70, período em que o país estava sob o regime militar. A tolerância relativa possibilitou que o movimento projetasse seus questionamentos na mídia — um espaço de discussão pública então esvaziado pela censura oficial — , e a partir daí ganhasse visibilidade. Para o ambientalista e ex-presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Flávio Lewgoy, a instituição era a única dissidente tolerada pelo regime. “Não estávamos falando contra o regime, falávamos contra todo um modelo”, reflete.

No final da década de 1980, Lilian Dreyer, que viria a ser a biógrafa de Lutzenberger, estudava jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As ideias do ambientalista tinham tanta amplitude que, pelos corredores do prédio da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, circulavam cópias de seus artigos, sobre os mais variados assuntos dentro da temática ecológica. “Eu selecionei os textos, juntei tudo, cortei o que eu, na minha arrogância, considerava excessivo e bati na porta dele com a proposta de publicar um livro”, relembra Lilian. Foi o início da uma parceria pra vida, que teria como resultado a publicação dos livros Gaia — O Planeta Vivo, em 1990; Do Jardim ao Poder, em 1992, e Sinfonia Inacabada, em 2004, biografia concluída após a morte de Lutzenberger.

O percurso do ícone do ambientalismo brasileiro, no entanto, começou bem antes. Lutzenberger ingressou na militância pela causa em 1971, quando já contava com 44 anos. A etapa anterior de sua vida tinha sido marcada justamente pelo problema que Lutzenberger mais denunciava: o uso indiscriminado de agrotóxicos. Os treze anos em que esteve à frente de setores técnicos e comerciais da Basf foram decisivos para o seu conhecimento de causa, mas também representaram um forte constrangimento. “O Lutz, quando largou a indústria química, estava profundamente envergonhado de si mesmo”, conta Lilian, ao explicar que ele não mais conseguia sustentar a contradição de ser alguém que amava a natureza e ao mesmo trabalhava contra ela. Apesar da restrição ao assunto, Lutzenberger expôs toda essa trajetória profissional para sua biógrafa, que transpôs o relato para um capítulo sucinto, porém elucidativo de Sinfonia Inacabada.

O primeiro trabalho de Lutzenberger foi em 1952 na Companhia Riograndense de Adubos, onde permaneceu quase quatro anos viajando pelos pampas gaúchos como representante da empresa. A CRA, fundada por iniciativa de industriais franceses, não lhe garantia grandes retornos financeiros — seu salário mal pagava o aluguel do apartamento próximo ao Colégio Israelita —, mas, em compensação, o ambiente de trabalho dava intensa satisfação a Lutzenberger. A empresa era pioneira no mercado regional pela introdução do uso de fosfatos naturais como fertilizantes e ali ele podia colocar em prática o seu francês, aprendido durante o curso ginasial. “O pai era louco por idiomas. Ele falava perfeitamente português, alemão, inglês, francês, espanhol e manjava um pouco, não muito, do italiano”, conta Lilly, filha de Lutzenberger.

Em seguida, transferiu-se para a Sulpampa, companhia do mesmo ramo na qual, apesar do curto período em que permaneceu, Lutzenberger recebeu uma prestigiada oportunidade. Devido tanto aos seus conhecimentos sobre agronomia quanto ao seu domínio de diferentes idiomas, Lutzenberger serviu de intérprete a um diretor da multinacional Basf, que viu no agrônomo potencial para um bom executivo e o convidou a se instalar no país. Na mesma época, a multinacional Geigy, com sede na Suíça, lhe estendia a mesma oferta.

Ali se apresentava, pela primeira vez, o dilema que viria a marcar a carreira de Lutzenberger. Ele ambicionava morar no exterior, praticar o francês e o alemão, aprender o italiano, percorrer a Europa Ocidental e levar uma vida confortável. “Meu pai era um cara que gostava muito de viajar. Ele até mantinha um caderninho onde anotava todos os destinos de viagem”, relata Lilly.

Em 1939, o químico suíço Paul Hermann Müller, que integrava a equipe da Geigy, havia descoberto as propriedades inseticidas do DDT (sigla para o composto diclorodifeniltricloroetano) e sua eficiência no combate de mosquitos vetores de doenças como malária e febre amarela — descoberta essa que lhe garantiu, nove anos depois, o Prêmio Nobel da Medicina. Esse agroquímico passaria então a ser produzido em larga escala pela empresa, o que, se por um lado não era inteiramente desaprovado por Lutzenberger, por outro, também não o agradava. A ideia de trabalhar com um produto que elimina organismos vivos das lavouras contrariava seu instinto naturalista.

O trabalho exclusivo com fertilizantes, fossem eles orgânicos ou minerais, foi o fator decisivo para que Lutzenberger optasse pela Basf, sigla de Badisch Anilin & Soda Fabrik. A empresa nasceu, como seu nome implica, no setor de corantes para tingimento de tecidos, em 1865, na cidade de Ludwigshafen, na Alemanha. O começo do século XX trouxe uma incipiente produção de fertilizantes minerais à base de nitrogênio, obtido a partir da síntese de amônia. No entanto, esses avanços logo foram interrompidos pela Primeira Guerra Mundial, em 1914.

“O crescimento da indústria química alemã está diretamente ligado ao protagonismo do país nas duas guerras mundiais”, explica Sebastião Pinheiro, engenheiro agrônomo e ambientalista, amigo de Lutzenberger. O conflito bélico evidenciou, pela primeira vez, a ambivalência da indústria química: a amônia sintética, até então desenvolvida sob o pretexto de garantir a produção de alimentos para uma população crescente, agora servia como combustível de foguetes e composto explosivo; o cloro e o fosgênio, antes aplicados na fabricação de corantes e medicamentos, passaram a ser utilizados pelo exército como armas químicas.

No próprio site da empresa, a longa história da Basf é minuciosamente descrita, dividida em cinco intervalos de tempo: entre 1865 e 1901, 1902 e 1924, 1925 e 1944, 1945 e 1964, 1965 e 2006. No período compreendido pela terceira e quarta seção, alguns detalhes são oportunamente deixados de lado. No ano de 1925, em meio à crise política e a recuperação da economia alemã no período entreguerras, a Basf e outras cinco empresas, entre elas a Bayer e a Hoechst, se fundiram para formar a Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG, abreviada como IG Farben.

A corporação, que concentrava o monopólio da indústria química, contribuiu diretamente para a consolidação do nazismo no poder. Nos meses antecedentes às eleições federais de 1933 — a última antes da dissolução do Reichstag, o parlamento alemão — , a IG Farben doou 400 mil reichsmarks (a moeda oficial da Alemanha entre 1924 e 1948) para a campanha do Partido Nazista. A IG Farben detinha a patente do Ziklon B, pesticida à base de cianureto utilizado nas câmaras de gás dos campos de concentração, e possuía 42,5% do capital social da Degesch, sigla para Deutsche Gesellschaft für Schädlingsbekämpfung (Corporação Alemã para o Controle de Pragas, em português), a empresa química que produzia esse gás letal e o vendia para os nazistas.

O conglomerado alemão chegou a construir uma fábrica, chamada Buna Werke, em Monowitz, um dos campos de Auschwitz, de modo a utilizar a força de trabalho dos prisioneiros no complexo industrial. As instalações da antiga Basf em Ludwigshafen, na época voltadas principalmente para a produção de polímeros, foram continuamente atacadas pelos aliados, que arremessaram mais de 4 mil bombas ao longo de 65 ataques aéreos. No dia 24 de agosto de 1947, um tribunal militar americano iniciou, no Palácio da Justiça de Nuremberg, o julgamento do sexto processo, de um total de doze, dos principais crimes de guerra ocorridos durante o conflito mundial. Entre os 24 diretores da IG Farben e da Degesch acusados, 13 foram considerados culpados e tiveram sentenças decretadas.

Como as empresas haviam transferido seus ativos e renunciado aos seus registros comerciais para realizar a fusão, esses acontecimentos foram omitidos da memória de companhias como a Basf, a Bayer e a Hoechst (hoje Aventis). Fundações como o Wollheim Memorial, nomeado em homenagem a Norbert Wollheim, um dos trabalhadores forçados de Monowitz, ajudam a manter viva essa parte da história que muitos desejam ver esquecida. A instituição, instalada no próprio prédio executivo da IG Farben, em Frankfurt, tem em seu espaço expositivo informações e documentação relativa à corporação alemã e sua ligação com o regime nazista, além de entrevistas em vídeo dos sobreviventes do campo de concentração.

Sobre a correlação entre as indústrias químicas e bélicas, Lutzenberger escreveu: “Como surgiu e proliferou a agroquímica? Interessante é notar que ela não foi desencadeada por pressão da agricultura. A grande indústria agroquímica que impõe seu paradigma à agricultura moderna é resultado do esforço bélico das duas grandes guerras mundiais”. Esse trecho, presente no texto A Problemática dos Agrotóxicos, de maio de 1985, é a parte inicial de uma ampla reflexão. “O negócio dos pesticidas transformou-se num dos melhores e mais fáceis. Quanto mais se vendia, mais crescia a demanda. A situação atual se assemelha a uma conspiração muito bem bolada. Os mesmos grandes complexos industriais que induziram o agricultor a que desequilibrasse ou destruísse a microvida do solo com os sais solúveis concentrados, que são os adubos minerais sintéticos, oferecem, então, os ‘remédios’ [pesticidas] para curar os sintomas dos desequilíbrios causados. Estes remédios causam novos estragos e desequilíbrios, novos ‘remédios’ são oferecidos e assim por diante”, estabelece o autor.

Após o desmantelamento da IG Farben, seguida de prolongadas negociações e uma temporária intervenção francesa, a Basf foi refundada, voltando a atuar independentemente em 1952. A administração da empresa precisava ser reestabelecida, a produção modernizada, os negócios reconstruídos e ampliados. Surgia a necessidade de novos mercados. “A indústria química precisava transferir as suas atividades, e o lucro consequente, do conflito bélico para setores da sociedade civil”, associa Pinheiro, em referência à expansão dos insumos agrícolas na linha de produção da Basf.

É nesse cenário que Lutzenberger ingressou na Basf como técnico, no ano de 1957. Objetivando aumentar suas exportações para outros países, a Basf, impulsionada pelas condições favoráveis do milagre econômico alemão, iniciou a ampliação de sua produção internacional. Associada a companhias locais, a Basf inaugurou, entre 1955 e 1960, unidades produtivas em países como Estados Unidos, França, Argentina e até mesmo Brasil, com o parque industrial de Guaratinguetá, em São Paulo — hoje o maior complexo químico da América do Sul.

Lutzenberger, nos dois anos iniciais como profissional da empresa, recebeu um treinamento na matriz, em Ludwigshaven, para qualificar-se na área comercial, com ênfase em exportação. Nesse período, ele pôde aprofundar seus conhecimentos de comércio exterior e entender melhor o funcionamento interno da Basf. Para Lilian, tanto o desenvolvimento da visão estratégica comercial quanto os conhecimentos técnicos em química e agronomia foram fundamentais para a sua futura militância. “Ele conhecia toda a engrenagem por dentro, sabia como o mundo corporativo se movia. Por isso, não se permitia enganar pelo discurso da indústria química”, acredita.

O caminho para a função de diretor se trilhava, mas o formalismo e a burocracia do setor incomodavam Lutzenberger. Em 1959, pediu para ser alocado no departamento técnico, o que o retirava da condição de candidato ao cargo superior. A escolha o levou à Venezuela, onde se tornou responsável pela coordenação de todas as operações da empresa na região, incluindo Colômbia, Peru, Equador, as três Guianas e as ilhas do Caribe. Era, oficialmente, assessor técnico; na prática, vendedor de adubos. “Nessa época, ele trabalhava com adubos inorgânicos, substâncias bem menos nocivas do que os agrotóxicos que viriam depois, mas igualmente prejudiciais”, explica Lilly Lutzenberger. O processo de formulação desses fertilizantes envolve a extração de componentes minerais das rochas ou do petróleo — recursos naturais não renováveis — , e a posterior transformação desses pela indústria química. São basicamente compostos de sais inorgânicos vitais para o solo, que os absorve rapidamente. Porém, a quantidade e a frequência da adubação podem alterar o equilíbrio químico da terra.

Em A Problemática dos Agrotóxicos, ele explica a questão: “O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com os sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como consequência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, por sua vez, levados ao solo pela chuva, contribuem para uma destruição ainda maior da microvida. Os organismos maiores do solo, como a minhoca, talvez o melhor aliado que o agricultor possa ter, desaparecem por completo de nossas lavouras, hortas e pomares modernos. Agindo diretamente sobre a planta, os pesticidas, venenos que são, contribuem ainda para desequilibrar o metabolismo da planta. Tudo isto aumenta ainda mais a suscetibilidade às pragas e doenças. Portanto, uso ainda mais intensivo dos venenos, sempre produzidos pelo mesmo complexo de indústrias. Para combater, então, as doenças causadas pelo envenenamento generalizado do ambiente e dos alimentos, as mesmas grandes fábricas oferecem os fármacos modernos”.

Em 1966, Lutzenberger retornou à Alemanha por um breve período, antes de ser enviado para Casablanca, no Marrocos, onde ficou responsável por toda a África do Norte, Costa do Marfim, Argélia, Tunísia, Saara Espanhol, Mauritânia e Ilhas Canárias. Nessa época, se consolidavam as mudanças no perfil de produção da Basf e, fundamentalmente, na filosofia de venda da empresa. Em determinada ocasião, Lutzenberger questionou a matriz quanto à oferta de adubo calcário a uma região cujo solo já era rico em cálcio. A resposta foi direta: não interessava do que a terra era composta, mas sim a cota de vendas a ser cumprida. “Quando começou esse ciclo mais pró-venda do que pró-solucionar os problemas existentes, ele começou a ficar desconfortável”, conta Lilly.

Depois de três anos suportando consecutivos episódios de descaso com a natureza, Lutzenberger e sua família fizeram as malas e voltaram para o Brasil, em 1970. Anos mais tarde, para um repórter da revista alemã Natur que o entrevistava, ele confessou: “Quando me vi forçado a admitir que estava me prostituindo, saí da Basf”.

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