O tráfico é feminino


O tráfico de drogas não se restringe ao universo masculino; pelo contrário, cada vez mais representa a realidade de mulheres. O perfil da presidiária explicita sua condição à margem da sociedade: ela é jovem, mãe, pobre, negra e de baixa escolaridade. A maioria estava desempregada ou subempregada na época do crime. A esses excludentes sociais, soma-se a questão de gênero.

Hoje, existem 33.289 mulheres no sistema penitenciário brasileiro, o que representa apenas 6,63% do total de presos. No entanto, entre 1997 a 2012, o índice do aprisionamento feminino cresceu 640%, número significativamente maior em comparação ao aumento, no mesmo período, de 171% da população carcerária masculina, segundo dados da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). No Rio Grande do Sul, 78% das mulheres são presas por tráfico de drogas.

O expressivo encarceramento da mulher devido ao tráfico está associado a sua posição subalterna na hierarquia do crime organizado. As principais funções são a de “vapor”, encarregadas do preparo e da embalagem, e de “mula”, responsáveis pelo transporte da droga. Além disso, muitas são presas simplesmente por estarem presentes na cena em que há apreensão da droga.

Foi assim que Valéria, detenta da Penitenciária Feminina Madre Pelletier, foi presa pela primeira vez em 2009. Apesar de nunca ter se envolvido no tráfico, ela foi enquadrada como cúmplice do pai de seu filho. Liberada no ano seguinte, a reincidência não tardou. Em 2011, foi condenada a seis anos por tráfico no sistema — tentar entrar em um presídio com drogas.

Não raro o contato inicial com o crime se dá através de uma figura masculina já envolvida no tráfico. Ainda segundo a Susepe, cerca de 40% das presidiárias do Madre Pelletier foram presas devido ao repasse de atividades criminosas por cônjuges, namorados ou irmãos.

Como o papel de cuidadora é assumido quase sempre pela mulher, sua prisão altera a estrutura familiar, diferentemente da situação do homem preso. Andrea, também condenada por tráfico de drogas no Madre Pelletier, teve seu filho quando estava na cadeia. Permaneceram juntos por um ano, período máximo para a permanência de bebês na unidade prisional. A sua saída coincidiu com o início do regime semiaberto de Andrea, que não hesitou em fugir. Depois de acompanhar o crescimento do filho por três anos, ela voluntariamente se apresentou no presídio para cumprir o resto da sua pena.

As organizações criminosas reproduzem os marcadores de gênero da sociedade: a mulher atua como coadjuvante, enquanto o protagonista na criminalidade é o homem. A participação feminina no tráfico decorre tanto da convivência com seus companheiros quanto pelo fato de o tráfico surgir como alternativa de sobrevivência, sustentando a sua função social como responsável pela estrutura familiar.

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