Sobre a Nike, Colin Kaepernick e a Desigualdade Social

Consuelo Maia
Sep 5, 2018 · 4 min read

Eu adoro os EUA. Acho um país maravilhoso. Isso, porém, não significa que lá não existam problemas. O fato: existe uma forte desigualdade social entre brancos, negros e hispânicos. De acordo com um profundo estudo realizado pelo Equality Opportunity Project, se você nasce negro nos EUA, suas chances de ascensão social e seu salário são mais baixos em comparação à população branca. Leia mais sobre o tema aqui. E tem mais, 21% dos homens de baixa renda serão presos ao menos uma vez na vida. Chocante, não?

Primeiro ato: surge Colin Kaepernick. Eu não o conhecia, não acompanho a NFL. E o que ele fez? Aproveitou sua visibilidade para levantar uma bandeira importantíssima. Em 2016, antes dos jogos, durante o hino nacional, ele se recusava a participar deste momento (seja ouvindo o hino ajoelhado ou ficando na lateral do campo). Ele declaradamente fez com a intenção conforme abaixo:

“I am not going to stand up to show pride in a flag for a country that oppresses black people and people of colour. To me, this is bigger than football and it would be selfish on my part to look the other way. There are bodies in the street and people getting paid leave and getting away with murder.”

“Eu não vou ficar de pé para mostrar orgulho por uma bandeira num país que oprime pessoas negras e pessoas de cor. Para mim, isto é maior que o futebol e seria egoísmo da minha parte fingir que não estou vendo. Tem corpos nas ruas e os responsáveis recebem licença e ficam impunes por assassinatos.”

Segundo ato, chega ele: Donald Trump. Segundo o presidente, a atitude é um desrespeito ao país, à bandeira e aos militares. Começa um movimento de “nós e eles”, enquanto deveriam estar todos caminhando na mesma direção. Afinal, como não se envergonhar e tomar consciência de tudo que o jogador falou e está tentando representar? Ele está falando sobre desigualdade racial. Ele está falando sobre violência contra negros. Ele está falando de oportunidades de emprego para todos e qualidade de vida independente de sua cor. Esta é a causa escolhida. Resultado: Colin acaba a temporada sem time, afastado do seu esporte e da sua profissão.

E dou um doce para quem adivinhar a cor da pele das pessoas que estão concordando com o Trump…

Terceiro ato: a Nike resolve patrocinar o jogador. Colin tuíta o seguinte: “Believe in something. Even if it means sacrificing everything #justdoit” (“Acredite em algo. Mesmo que isso signifique sacrificar tudo #justdoit”). Poderoso. Verdadeiro. Inspirador.

Vem uma horda de pessoas sugerindo boicote à Nike (mais uma vez, adivinha de que cor…). As hashtags #nikeboycott e #justburnit viram trending topics. A Nike não recua e lança um filme reforçando a posição.

Mais uma vez, poderoso. Verdadeiro. Inspirador.

Eu particularmente gosto muito da Nike. Dos seus produtos, campanhas, lojas, conceitos, enfim, todo o seu universo. Uso o aplicativo para correr, li a biografia do Phil Knight (e recomendo muito, inclusive). Foi uma das pioneiras ao entender que a marca pode ser muito mais do que uma roupa ou acessório. Uma marca pode ser uma forma das pessoas se expressarem, de ocuparem seu lugar no mundo.

Por outro lado, também li Sem Logo, da Naomi Klein (que também recomendo a leitura). A globalização das marcas, fortemente representada pela Nike, levaram a uma terceirização sem precedentes. Muitas pessoas foram brutalmente exploradas nas décadas de 80/90 em países pobres para produzir os tênis Nike no menor preço possível em condições precárias. E o objetivo? Garantir o maior lucro possível para Phil Knight. Sim, a marca tem seu passado e vem lutando para desfazer o estrago.

Ao longo do dia, li várias opiniões contrárias à posição da marca. Que Marketing não é para ser controverso. Que campanhas devem escolher o caminho da complacência, e que olha só, a Nike vai perder clientes. Eu discordo veementemente destas posições. O Marketing é parte da formação da cultura e não apenas um simples reflexo. As marcas através do branding e da publicidade são produções culturais e, assim, possuem um papel fundamental na construção da sociedade que queremos viver. O Marketing ajuda a criar e a desconstruir estereótipos. Ajuda a levantar bandeiras. É uma das formas mais fortes de expressão da nossa época. Empresas hoje são maiores que muitos governos.

Com certeza, a Nike tem um belo plano de mídia por trás, com um bom investimento. Esta campanha ainda tem muito chão pela frente. Algumas pessoas vão abandonar a marca? Talvez, sim. Muitas outras vão passar a consumir? Desejo muito que sim. Mas um fato é inegável: desigualdade social está na pauta. O que está sendo discutido hoje é a visibilidade para toda a injustiça que o próprio Colin apontou. É um plano ambicioso. A Nike não vai erradicar a desigualdade, mas está fazendo a sua parte. Já pensou o peso que seria se Adidas, Under Armour, Puma, Mizuno e todas as outras se juntassem neste coro?

Ainda bem que marcas são mais do que meros objetos ou roupas. Ainda bem que estas organizações estão se posicionando na sociedade com uma intenção além do lucro. O objetivo da Nike ainda é ganhar dinheiro? Sim! Mas desta vez, eles podem ganhar dinheiro enquanto lutam pela igualdade racial. Lindo, não? Vida longa às marcas que levantam bandeiras, que dão voz para minorias e que ajudam a transformar a sociedade.

Consuelo Maia

Written by

Acredito fielmente que marcas podem ser agentes de transformação da nossa sociedade. Publicitária de formação, devoradora de livros e cheia de ideias.

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