Histórias curtas - 01

Crédito: Cartier Bresson

Compilação de algumas pequenas histórias, cenas, momentos que escrevi ao longo do tempo. Fez-se.

Evasões

Às sete horas da manhã de uma terça feira compreensível, Eduardo notou um odor que se espalhava pelo apartamento. Era estranho, pois tinha poucos cômodos, poucos aparelhos, poucas roupas. Em menos de um minuto já havia rondado todos os móveis à espreita de algum bicho morto, talvez. O lixo fora levado para a cesta no dia anterior. Lembrou-se do ato, devido à figura de sua vizinha que nunca lhe saia da cabeça. Havia a encontrado no corredor, ela usava um short pequeno, azul escuro, as coxas morenas saltando, o tamanco de madeira, empinando as nádegas. E ele com o saco de lixo na mão, os restos de miojo e de papel higiênico. Tentou esconder a sacola colocando-a atrás do corpo e cumprimentando a moça com um sorriso sincero. Ela balançou a cabeça, o lábio coberto por uma casca de batom rosado, quase se apagando, enjoando a sedução. Mesmo assim esboçou um sorriso amarelo, se extinguindo aos poucos. Agora eram duas coisas em sua cabeça. Resolveu abrir as janelas, espraiar os ares, pensou. Ao permitir a entrada de vento, percebeu o verdadeiro motivo do mau cheiro. No meio da rua, o corpo de um cachorro atropelado. O sangue espalhado no cimento, seu corpo desfigurado, isso ninguém ainda havia limpado.

Perdidos entre as paredes

“Eu vou contigo para onde tu quiser”, ela me diz meio bêbada, entre algumas latas de cerveja, que depois são espalhadas por nós rapidamente pelo assoalho de madeira. A música de mau gosto ainda passeia pelo ar. Assim como os nossos beijos que se misturam sem ordem, sem nexo, confundindo as peles, e contornando a boca, exalando liberdade. “Para onde eu quiser?”, respondo minguadamente, explorando uma futura possibilidade de acabar bem a noite. E ela confirma com a cabeça, em um movimento positivo meio torto, mas ao mesmo tempo tão singelo. Como se fosse verdade, como se ela estivesse apaixonada por mim desde o primeiro segundo que me viu. E nós nos conhecemos há apenas alguns minutos. Dou uma risada sem graça, pego o copo plástico branco, cheirando àquela cerveja barata e largo em sua mão. Nós rimos como duas crianças que não sabem exatamente o que estão fazendo. Lá fora a madrugada cada vez mais vai chamando a manhã e nós permanecemos definitivamente a sós, perdidos entre os tempos e as vontades.

Das manhãs

Foi por entre o forte cheiro de café, no meio das cascas de pão que preenchiam a mesa e ao redor do som das notícias espalhadas pelo rádio que eu percebi. O dia lentamente acordava, quando Aline chegou-se para sentar à mesa, ao meu lado. Trazia com ela a cara de sono, as leves olheiras brotando por baixo dos olhos castanhos claros, e o seu corpo vestia uma das minhas camisetas — que nela tornava-se larga o suficiente, confortável o suficiente. Toda descabelada, as pernas finas agora se ajustavam à cadeira. Sorrindo como se fosse para sempre, ela pegou a faca e lentamente a passou no pote de margarina , em seguida a atravessou em um pedaço de bolo de laranja. A mesa do café até que estava farta. Eu só observava. As cascas de pão doce e as notícias sobre roubo de carros sumiam, quando ela me encarava em tom doce-jocoso, ou brincava com o meu cabelo recém lavado do banho. Assim desse jeito descabelada, com olhar cansado e sincero, assim com o sorriso de quem só quer estar ali, puxando minha mão toda hora, eu sequer pensava nas oito horas de trabalho, nos colegas chatos, nos dois ônibus que teria que tomar. Eu simplesmente não queria sair daquele momento. Talvez tenha sido apenas o efeito da sua mordida no bolo de laranja, mas meu joelho arrastou-se para o chão, e lá pelas oito e pouco da manhã de uma segunda-feira, por entre o cheiro de café, por entre as cascas de pão, por entre as notícias ruins do noticiário, por entre o piso frio da cozinha, eu pedi a mão de Aline — ou os olhos cansados, o sorriso sincero, o jeito de passar a margarina no bolo — em casamento.

Como se estivesse alçando voo

Lá estava Elaine ao lado de Eriberto, deitados na cama, cama arrumada com os lençóis completamente limpos. A luz fraquinha, de lâmpada de 20 watts pendia no abajur na cômoda perto do guarda roupa. Parecia um mini pôr do sol alaranjado, que também se deitava no escuro, escorregando a pouca energia elétrica.

Mesmo deitada há tanto tempo seus olhos insistiam em se manter abertos, encarando a noite, pregando peça de que estavam fechados. Ao contrário de Eriberto que dormia ao seu lado, como uma criança. Nenhuma parte do corpo magro de Elaine tocava em seu companheiro. Seus grandes braços estavam juntos embaixo do travesseiro como se escondesse algo nas mãos. Ali, deitada de lado, quase que encolhida, conseguia ver a porta, graças a luzinha. Deus, como ela gostaria de dormir. Deus, como ela gostaria de sair da cama, caminhar até a cozinha e pegar um copo de água. E ela nem estava com tanta sede assim. Ela também gostaria de depois de pegar o copo, abrir a outra porta, a da rua. E caminhar livre. Solta. Encontrar a janela no corredor do prédio e abrir.

Assim, com todas as portas escancaradas e com os olhos abertos durante a escuridão do quarto, ela conseguiria manter a calma. Já poderia sentir o vento da janela, o pequeno pulo para o inconsciente. As nuvens misturadas com a sede, a luz laranja queimando seus pensamentos, tudo apagando. Tudo desmoronando, a sensação de cair e depois pairar, justamente como se estivesse alçando voo.

À Natureza Danosa

Hera que tanto gostava de flores não estava ali no momento. Dormia encostada no sofá da sala. Serena. Enquanto isso Renoá balançava a cabeça, a pazinha, a enxada, na famosa posição de quatro, tentando de alguma forma fazer buraco no jardim, arrancar as ervas daninhas no gramado do casal que se mudara há pouco tempo para a cidadezinha. Infestavam o novo pátio, novo tudo, trabalho novo, nova vida que o pessoal da empresa havia prometido. Só esqueceram de falar da quantidade de plantas e de pragas que o esperavam. E Hera gostava de flores, tanto que convenceu seu marido a trazer várias mudas da antiga casa. E a plantá-las. Enquanto ela ficava só dormindo na sala.

Hera tinha também hábitos estranhos, como o de tomar banho de sol pelo menos três horas durante o dia. Apesar disso, permanecia branca como uma folha de papel em que não há nada escrito. Depois tiraria o seu cochilo, pois tomar sol a deixava, de certa forma, cansada. Já acostumado, Renoá não reclamava mais, até desfrutava pois, assim, podia tirar esse tempo livre sem a esposa para fazer as suas coisas, manter seu pequeno hobby de colecionar insetos, empacotando-os em pequenos saquinhos. Já tinha uma coleção. Seria uma herança, bolava plano para que os filhos pudessem estudar biologia, catalogando os insetos. Era assim que ele pensava.

Não era bem assim que ela pensava, mas tudo bem.

Renoá em sua epopéia no jardim conseguiu segurar com sua ardilosa mão uma grande raiz de uma maldita erva daninha. Estranhou de início, porque ela era realmente enorme, e pesada. Mas, mesmo assim, começou a puxar, puxar, puxar tão forte que sua mulher acordou e começou a ser arrastada por alguma força incrível na sala.

E quanto mais ele puxava, mais ela era arrastada. Mais ele puxava, puxava, até conseguir arrancar. Saiu do transe, ouvindo os gritos de desespero da mulher — e sem entender absolutamente nada — entrou correndo dentro a casa para ver o que estava acontecendo. Hera ainda estava atirada ao chão ofegante com os membros deslocados, a pele rasgada como se rasga uma folha, a pele também seca como uma folha que cai no outono sem vida. Já sem vida.