NEM ÁBACO OU AMPULHETA

Que a cigarra canta lá fora e, por ora, tenho a dizer: a vida tem das suas. Aqueles funis do tempo, quando você precisa caber num dedal. Nada mal: carretel e agulha para tecer porvir aos bordados da lua. Não sou boa de crônicas, a poesia sempre engole os meus textos e atribuo esta aptidão a uma gagueira que tive aos sete anos, ao ter que repetir em público a palavra madrepérola. Nunca mais fui a mesma .

É curioso o alimento do ânimo. Viramos a curva do ano e criamos estímulos. Enfeitamos o tempo com barbatanas e guelras. Precisamos nadar contra o medo, respirar o oceano para ter dom de enseada. Nem ábaco ou ampulheta. Nada pode saciar a sede de quem ama calendários. Não que eu os tenha por todas as paredes, porque o furacão levou até os muros. Dos absurdos que sobraram, guardei somente os sonhos, pois sonhar é meu bem inquebrantável.

É inegável que estendi as palmas das mãos para cima. Procurei alguma borboleta que me acarinhasse ou algum arco-íris que pousasse ali feito pássaro. Coloquei um riacho entre os dedos e lavei as lágrimas que nem mesmo existiam. O choro não era meu. Também não era possível possuir algo tão fugaz quanto o instante. Ele permanecia eterno somente aqui na lembrança e cabia perfeitamente na inutilidade de minha literatura.