Janela para ressignificar

Lieke van der Vorst: https://www.instagram.com/liekevandervorst/

Minha amiga é paulistana, nascida e criada em São Paulo. Isso, para quem não é daqui, pode parecer artigo raro. Acho que conheci muito mais pessoas de outros lugares do Brasil do que daqui de São Paulo. Mas, passado um tempo casei com um paulistano, nascido e criado na capital também, e acabei ganhando vários amigos paulistanos de fato. Essa minha amiga é o conceito de cidadã do mundo: inteligente, adora cinema e arte, está sempre trabalhando, envolvida com mil coisas e é prática, não tem muito tempo para bobagens. Além disso tudo ela é muito leal. Enfim, tudo isso para dizer que minha amada amiga paulistana estava na minha casa esses dias e conversa-vai-conversa-vem, estávamos falando sobre mudanças, nem lembro muito bem em que contexto, mas ela acabou me relatando o tempo em que viveu no Rio de Janeiro.

Uma paulistana acorda e todos os dias se depara com a praia e a natureza carioca. Não é pouca coisa. A presença e a sensação do sol na pele, o corpo que se descobre e se movimenta de forma orgânica, sem ter que marcar na agenda para que isso aconteça. O tempo transcorre em outro ritmo e você acaba sentindo tudo de outra maneira. Ela relatava o seu dia a dia com uma leveza maior, um transitar nas pequenas coisas e com um preenchimento de gestos diferentes dos que ela encontra em SP. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. Os sabores também eram outros. A água de coco diária, as frutas e o gelado eram presenças constantes. Em determinado momento ela falava: “por que os hábitos que tinha no Rio não me acompanharam? Eles eram ‘melhores’ para mim.” Uau, uma questão imensa, principalmente para quem, como eu, está tentando fazer os balanços dos ganhos e perdas de ter ido embora e agora ter voltado.

Fiquei então pensando que o cotidiano é recriado quando você se muda. Muita coisa nova ganha espaço e várias coisas que antes eram feitas no automático começam a não fazer o menor sentido. Sim, mudança geográfica é uma grande oportunidade para se reinventar, pois você vai precisar aprender caminhos novos, sentir sensações térmicas diferentes, outra maneira de se movimentar, de se comunicar e de se alimentar também. No fim, a nossa vida é feita com os vários cotidianos que criamos ao longo dela. Mas, penso que nem sempre é uma mudança geográfica que nos empurra para essa folha em branco. Alguns momentos de transição tem na essência esse potencial de mudança, seja na hora que você decide casar, ter filhos, mudar de carreira, de casa ou depois de uma viagem onde o horizonte se amplia. Todas essas situações tem na essência o potencial de transformação, que estou chamando de janela para ressignificar.

Quando pensamos na nossa condição de onívoros, não temos conhecimentos instintivo para saber quais alimentos são seguros para nós. Sendo assim, se faz necessário usar os sentidos nessa descoberta e o comer se torna um aprendizado, um conjunto de hábitos diários. E, como mudar esses hábitos se não mudamos nossos estímulos e nossa narrativa a respeito deles? Os hábitos alimentares estão ai como uma das coisas mais difíceis de enfrentar. Muitas vezes não sabemos muito sobre o nosso padrão alimentar, o porquê comemos daquela forma, como foi a nossa introdução, a razão de preferir um sabor a outro e por que raramente pensamos no comer como um ato onde corpo e mente se unem e constroem uma narrativa. Essas são questões capazes de recriar o nosso comer, e não se trata de uma dieta nova, de colecionar informações nutricionais ou medidas corporais, mas sim da narrativa que você constrói para viver.

A história de cada um sobre os caminhos que te levam para a mesa, as escolhas do que você compra e prepara, o papel dos sentidos despertos e os efeitos corporais e emocionais depois de se alimentar. No fim, o que fica como lembrança é o cotidiano experimentado no corpo seja no Rio de Janeiro, São Paulo ou em qualquer lugar em que você ouse recriar gestos, movimentos e sentimentos.