Civilização ou Barbárie

Dermeval Saviani

Dermeval Saviani

Depois do pleito eleitoral do primeiro turno/2018, vale refletir sobre a atual realidade do nosso país. Até os institutos de pesquisa eleitoral foram surpreendidos pela onda que varreu o país e se traduziu no resultado das urnas, favorável à ultradireita conservadora.

De fato, era difícil detectar esse fenômeno que em muito se beneficiou da estratégia planejada com a assessoria do marqueteiro de Trump, Steve Bannon. Este senhor, após ter sido diretor executivo da campanha de Donald Trump e ter atuado como estrategista-chefe do governo Trump participando do Comitê de Diretores do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, passou a dedicar-se a influir diretamente nas campanhas eleitorais de diferentes países com o uso massivo de fake news. Pondo em prática essa estratégia a campanha de Bolsonaro espalhou largamente notícias mentirosas (fake news) pelos diferentes dispositivos das assim denominadas redes sociais, entre os quais se destacou o WhatsApp. Ora, esse dispositivo tem a particularidade de ficar restrito a cada um individualmente diante de seus celulares. Assim, escapa inteiramente a qualquer controle. Com efeito, se muitas postagens no facebook permaneceram disponíveis às consultas e, por isso, várias delas puderam ser excluídas por determinação do Tribunal Superior Eleitoral, não é possível saber quantas pessoas, e por quanto tempo, foram bombardeadas pelas falsas notícias. Daí um resultado eleitoral que não pôde ser captado pelos institutos de pesquisa.

Mas por que essas falsas notícias tiveram tanto êxito? Na verdade, elas caíram em terreno fértil regado incessantemente pelos meios de comunicação que todo dia falavam à exaustão contra o PT e contra a esquerda, contra Lula e Dilma, contra a igualdade social, contra as cotas, contra os negros, os sem-terra e os sem-teto; criou-se um clima propício à aceitação quando um turbilhão de mensagens falsas inventou toda sorte de ações criminosas atribuídas ao candidato e aos apoiadores do PT. Reportagem da Folha de S.Paulo do dia 18 de outubro constatou que grande número de empresas está comprando pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT e de apoio a Bolsonaro (PSL) no WhatsApp, sendo que cada contrato pode chegar a 12 milhões de reais. Esse crime eleitoral distorceu fortemente o resultado do primeiro turno e a reportagem detectou que uma nova investida estaria sendo programada para ser disparada na semana que antecede o segundo turno.

No referido clima de exacerbação do antipetismo grande parte dos eleitores foi levada a pensar que a solução de todos os males do país estaria na vitória de Bolsonaro e dos candidatos a ele ligados. E mesmo aqueles que mantinham certas reservas não acreditando em Bolsonaro como salvador da pátria, acabaram concluindo que votar nele seria dos males o menor. Muitos acreditaram que Bolsonaro representaria o novo, aquele que vinha para se contrapor a tudo o que está aí e, especificamente, para remover de cena os políticos tradicionais. No entanto, essa é uma mensagem obviamente falsa, pois se trata de um político que vem fazendo parte do jogo há 30 anos (dois anos como vereador e 28 como deputado federal), usufruindo de todos os privilégios e encaminhando os membros de sua família igualmente para a carreira política.

Armou-se, assim, uma situação em que vamos, agora, para o segundo turno correndo um alto risco de destruição de nossa jovem e frágil democracia. O que está em causa não é a vitória deste ou daquele partido. O que está em causa é a própria existência do Brasil como uma nação democrática. Ao votar devemos optar entre, de um lado, a aposta em uma pauta democrática que implica o fortalecimento das instituições da república; o resgate das classes desfavorecidas construindo um mundo justo, mais igualitário; a garantia do acesso à saúde e a uma escola pública de qualidade para toda a população; o respeito à vida em sociedade sem discriminar as diferenças de gênero, de sexo, cor, crenças religiosas; a garantia da soberania do país preservando e desenvolvendo nossas riquezas em benefício dos brasileiros. E, de outro lado, as forças reacionárias, o preconceito contra os diferentes; a via aberta pelo caminho da violência contra pobres, negros, indígenas, mulheres, agravada pelo armamento da população; o combate aos direitos civis, sociais e trabalhistas; a submissão do país a interesses externos com a entrega de nossas riquezas na bacia das almas, sem qualquer contrapartida. Enfim, o que está em causa é a opção entre a civilização e a barbárie.

A opção pela civilização contra a barbárie se impõe de forma cristalina como, aliás, já começam a reconhecer mesmo aqueles que há anos vêm travando um combate sem tréguas contra o PT, o que se evidencia num artigo publicado no domingo, dia 14 de outubro, no Jornal “O Globo” por Miriam Leitão, jornalista atuante nas Organizações Globo. Ela reconhece que o PT, “de fato fortaleceu a Polícia Federal, escolheu o primeiro da lista para o Ministério Público, nomeou ministros do Supremo que em sua maioria tiveram e têm posições de independência. Aprovou a Lei da Delação, da Ficha Limpa e do Acesso à Informação”. Quanto a Jair Bolsonaro, diz ela que “fez, de forma sistemática, na sua carreira política, a apologia do regime ditatorial, exaltando inclusive os seus piores crimes como a tortura e a morte de adversários políticos. Isso é incontestável. Há palavras demais dele confirmando essa visão. Durante esta campanha, vinculou sua candidatura às Forças Armadas e elas nada fizeram para desfazer essa vinculação e deixar claro que, como instituição, não têm candidato”. Em suma, afirma Miriam Leitão com todas as letras: “os riscos à democracia não são equivalentes nos dois cenários eleitorais. São maiores com Bolsonaro”.

É hora, pois, dos eleitores se libertarem das falsas notícias e se posicionarem resolutamente votando pela civilização contra a barbárie; pela democracia contra o autoritarismo; pela soberania do Brasil contra a subserviência a interesses externos; em Haddad contra Bolsonaro. O destino do país está na ponta dos dedos dos cidadãos brasileiros e será decidido nas urnas no domingo, 28 de outubro de 2018.

Graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1966) e doutorado em Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1971). Atualmente é pesquisador e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas, sendo Professor Emérito da UNICAMP, Pesquisador Emérito do CNPq e Coordenador Geral do Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil” (HISTEDBR).Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Filosofia e História da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação brasileira, legislação do ensino e política educacional, história da educação, história da educação brasileira, historiografia e educação, história da escola pública, pedagogia e teorias da educação.

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