Convidei dois amigos para escrever sobre o tão comentado Brexit e o que isso implica para o futuro da União Europeia (UE). São opiniões e visões bastante distintas que compõe o todo deste artigo: Um assiste de perto as movimentações no próprio velho mundo e o outro possui o olhar de economista.

Cabe ao leitor concluir o final de toda essa situação.


Markus Wirz

Testemunha ocular do que ocorre na Europa. Residente brasileiro em uma Suíça “overrated”. Visão Liberal.

O Poente Europeu

“Jean Paul não costumava ler tabloides, não por lhe faltar o costume da leitura, mas restringia sua atenção para publicações sérias, mas hoje, pelo esgotamento do Le Monde nas Bancas, lhe sobrara a capa comemorativa do The Sun nas mãos em sua viagem de trem nesta manhã conturbada. Suas qualificações como analista de vendas para a multimarcas alemã de roupas virtual, Zalando, eram necessárias nesta sexta feira em uma reunião que decidiria a estratégia para sobrepor as mudanças que a saída do Reino Unido da União Europeia causaria no modelo de negócios…”

Pasmem leitores, o Império que um dia dominara metade do mundo, virara a cara para o resto do globo que outrora tanto cobiçou. Pasmem novamente pois o motivo apaixonado dos 52% que apoiaram a saída do Reinado do mais próspero bloco econômico da história moderna é nada mais nada menos que o medo que as ondas de refugiados vindos da Síria impõem sobre seus estilos de vida.

Ingleses que tem Chaffeurs indianos em seus Taxis, Chefs franceses em seus restaurantes , vendedores chineses em quase todos comércios que atendem o turismo londrino, e tantos imigrantes vindos do leste europeu atendendo a demanda por serviços urbanos sub-pago…Ingleses que tem seu estilo de vida britânico sustentado pela mão de obra imigrante, virando as costas para o mundo livre que um dia livrou a coroa britânica da Tirania Intolerante… Ingleses que um dia contrataram mercenários sírios para combater Erwin Rommel ,o mais ardiloso general alemão em sua campanha pelo norte da África…Soldados Gurkhas , das antigas colônias britânicas do sul da Ásia, lutando lado a lado com os pouco numerosos Commandos Ingleses no Sul Italiano dominado por tropas fascistas…

Os brits que um dia lutaram como amentes da liberdade contra a intolerância, hoje viram seus rostos. Custou caro sustentar o sonho de um mundo livre onde vizinhos se deslocam livremente pela vizinhança com liberdades iguais, com seus olhares todos altos, seguros de que fazem parte de um sonho maior. Este modelo que tanto adocicou a boca britânica, a ponto de manterem sua forca monetária mas se adequarem aos modos e costumes de bons vizinhos, este modelo não convenceu a classe média, que tanto pagará o preço em impostos para o bem estar de seus vizinhos mais pobres, classe média essa que nunca se deu conta da base sustentadora de seu estilo de vida, muito menos de seus jovens que , acostumados com a ideia de conhecer o mundo através de programas de intercambio estudantil como o Erasmus e frustrados por não conseguiram participar de tais por não quererem abandonar seus excêntricos estilos de vida.

Os 48% que votaram pelo sonho europeu eram em sua maioria de classes beneficiadas pela União Europeia, diga-se o pilar sustentador do estilo de vida britânico, o empresariado que se sustenta no livre comércio europeu e por fim uma pequena parcela da juventude que sonhava em se academizar com o preço pago pela parcela descontente, esse 48% hoje falam em desalento e catástrofe, olhares verdadeiramente vazios frente as câmeras de reportagem, o fim de um sonho.

Perguntamo-nos então, dentre parcelas tão equivalentes, em uma votação tão equilibrada quanto essa de quinta feira 24.06.2016, quem fora o responsável pela decisão do referendo?

Lembram-se dos bravos Brits que um dia desembarcaram em Caen durante a Operação Overlord? Esses tiveram muitos filhos durante a bonança do pós-guerra, criando uma grande classe trabalhadora, essa que forjara a indústria moderna Britânica durante os anos 80 e que reconstruíra a Imagem de potência durante o período turbulento da Guerra Fria, deixara um contexto frágil para as duas últimas Gerações de Ingleses que hoje ocupam cargos baixos da Industria e tem como principal entretenimento o espetáculo do futebol e a bebedeira dos subúrbios ingleses. Foram os jovens adultos marginalizados pelo precário sistema social, fãs da violência gratuita, ameaçados pela mão de obra barata oferecida por imigrantes tão bem qualificados, que decidiram que o futuro da Grã-Bretanha era se fechar para o mundo do qual é tão dependente? Não precisamos apontar o dedo em uma direção quando sabemos que o Modelo Trump é universal, a receita política magica que tanto funcionara na história dos regimes populistas, seus ingredientes são: uma parte que se sente ameaçado por fatores externos, uma parte física para a qual apontar o dedo e culpar e por fim, uma turbulência social que gere uma angustia, uma ansiedade.

Em uma panela, bata a baixa burguesia Britânica, em seguida adicione todos imigrantes que “ameaçam” o modo de vida desses operários, coloque para cozinhar no medo de ataques terroristas vindos do exterior, tempere a gosto com o populismo barato dos subúrbios ingleses como Boris Johnson. Tampe com um referendo repleto de opiniões apaixonadas e falta de informação.

Sirva a porção para sua vizinhança repleta de proto-populistas e voilà o banquete está servido para a jovem, e mais ignorante que de costume, extrema direita europeia que esquecera nas ultimas década o que seus avós faziam nas praias do Norte da franca naquela manhã fria de junho de 1944.

“Passaram-se 2 horas e meia desde que Jean Paul desembarcara em Ashford após cruzar o canal da mancha, quase tropeçara ao descer do trem relendo o tabloide que não soltara desde cedo, agora quase 3 horas depois fora liberado no a alfândega Britânica, procedimento esse que nunca vivera em suas viagens pelo continente… Hoje de noite pensaria se quando fosse a Leipzig semana que vem passaria pelos mesmos procedimentos alfandegários , Jean Paul pensaria nisso hoje de noite ao assistir o Sol Poente Europeu

Matheus Maia

O economista brasileiro; visão libertaria

5 Razões porque o Reino Unido fez a coisa certa ao sair da União Europeia

A saída da União Europeia tem gerado grande controvérsia, no mundo todo e grande parte da argumentação tem sido desfavorável à saída, focando sempre no ponto de que a economia inglesa se prejudicaria em muito devido à perda dos privilégios do comércio livre com a Europa. Mas mesmo assim, os britânicos decidiram deixar a União Europeia. Para equilibrar um pouco essa discussão eu decidi montar cinco argumentos que mostram que a saída pode trazer grandes benefícios para a população Inglesa.

1. O direito de tirar do poder governantes que não satisfaçam mais a vontade da população.

Por milênios a humanidade se viu sujeita aos caprichos de tiranos, com pouquíssimas exceções na Grécia e Roma antiga nossos antepassados se viram presos a arbitrariedade de seus líderes, mas na Inglaterra do século 13 isso começou a mudar, os Barões cansados de se submeter aos impostos e vontades de um Rei, impuseram um limite aos poderes deste, através de um documento que se tornaria a base para a constitucionalidade que viria nos séculos seguintes, este documento era a Carta Magna que em 1215 deixou claro que se o Rei abusasse de seu poder este seria retirado de sua posição. Esta foi a base na qual todos os governos democráticos modernos se constituíram, na liberdade dos cidadãos insatisfeitos com seus líderes trocarem os mesmos quando necessário. No entanto isso não é o que acontece na União Europeia, nesta o parlamento eleito pela população não governa, já que não pode propor nem aprovar leis. As leis agora são criadas por comissões compostas por burocratas que não são eleitos e a população não tem com trocar eles caso estes não satisfaçam a vontade popular. Ontem os Ingleses retomaram este direito, de decidir o que eles acreditam ser o melhor para eles mesmos.

2. A possibilidade de fazer comércio mais livre com o mundo todo.

É verdade que os Ingleses perderão no primeiro momento a liberdade de fazer comércio sem impostos com a União Europeia, mas esta perda é pequena se comparada com as possibilidades de comércio com o resto do mundo. A união europeia vem a anos sistematicamente fechando suas fronteiras para produtos vindos de fora. Com a separação a Inglaterra volta a ser livre para fazer novos acordos comerciais com o resto do planeta que oferece uma gama de serviços e produtos muito maior além de um mercado vasto, para a indústria Inglesa. Mais comércio, significa redução de custos e melhora no padrão de vida população Inglesa.

3. Quem realmente perde com a saída é a União Europeia e não o Reino Unido

Com a saída do Reino Unido, o governo de Bruxelas perde uma de suas maiores fontes de renda. Os impostos da população Inglesa. Sem esta verba, que não é pequena entre 200 e 250 Libras por semana, o custo de manter a burocracia europeia, e também manter a fidelidade de estados menores como Grécia ficará ainda mais pesado para a população Alemã e Francesa que provavelmente terá aumento de impostos que levarão a maio estagnação econômica.

4. Estados menores são mais eficientes em atender as necessidades da população.

Um dos grandes problemas no Brasil atualmente é a sensação de que a população tem de não se sentir representada por seus líderes, nós temos prefeitos, governadores, presidente e senadores e deputados. E sempre temos a impressão de que eles aprovam leis e fazem projetos que não nos satisfazem. Na Inglaterra o sistema é diferente, lá existe um parlamento, e quando o partido no poder não atende mais a vontade da maioria eles podem mudar e consequentemente trocam o primeiro ministro, um modelo muito menos doloroso que o nosso processo de impeachment. Mas como governo Europeu governando 27 países ficou muito mais difícil este processo de mudança, na verdade havia ficado impossível, e independentemente de os burocratas agradarem ou até mesmo serem conhecidos pela população, eles não poderiam ser trocados de forma democrática. Outro grande problema é que o que pode ser considerado bom para um inglês não necessariamente é bom para um Alemão, ou para um espanhol, então qualquer que seja a política adotada sempre haverá muita controvérsia já que as populações dos diversos países do bloco são muito diferentes.

5. A separação pode ajudar a diminuir as tenções sociais que vem crescendo nos últimos anos.

Nós devemos sempre conhecer bem a história para podermos ver nossos erros passador e tentar não cometer eles novamente. Nos anos 20 e 30 o Nazismo ascendeu na Alemanha, justamente durante uma prolongada crise econômica e viu nos Judeus um bode expiatório para os problemas da economia. Todos sabemos no que isso levou. Nos últimos anos, a economia europeia tem mostrado taxas de crescimento muito baixas, e o qualidade de vida da população inglesa tem caído. Em toda Europa, a xenofobia tem ganhado espaço, justamente na classe média que está insatisfeita com a redução no seu padrão de vida, e tem colocado nos refugiados a culpa desta situação. Com a saída da União Europeia, a Inglaterra que já não havia integrado no Euro, foi menos afetada pela estagnação econômica, mas a restrição comercial com outros países, os sistemas de costas nos vários setores da economia e as inúmeras regulamentações, atravancaram a economia Inglesa. Se o novo governo, conseguir reverter este quadro, restritivo e permitir uma retomada de crescimento forte, a economia poderá acomodar tanto a população local e os imigrantes, permitindo uma melhoria no padrão de vida e diminuindo os conflitos.

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