A ideia de identidade de gênero e como ela prejudica as mulheres- Uma abordagem simples do pós-modernismo aos olhos do feminismo radical.

Para conseguirmos entender a relação antagônica entre a identidade de gênero e o feminismo radical, é necessário destrincharmos o conceito de gênero e sexo, descrevendo suas diferenciações, além do pós-modernismo.

Desde o momento em que nascemos podemos perceber as diferenças biológicas entre os sexos masculino e feminino, e ao longo do tempo essas diferenças tornam-se mais visíveis, como o crescimento dos seios. Pois bem, são as características físicas que determinam o sexo ao qual você pertence, a vagina é característica do sexo feminino e o pênis do sexo masculino, e os órgãos genitais são as diferenças mais notáveis entre os sexos. Além deles, há também as diferenças celulares, determinadas pelo genótipo dos indivíduos. Ou seja, nos indivíduos do sexo feminino há a presença da cromatina sexual denominada Corpúsculo de Barr. Essa cromatina é encontrada somente no sexo feminino, por possuir o genótipo XX, no qual um deles fica inativo, logo, no sexo masculino não há a presença do corpúsculo de Barr por possuir apenas um cromossomo X e outro Y. Vale ressaltar que essa cromatina é inerente ao órgão genital, uma vez que o indivíduo do sexo feminino, por exemplo, faz a readequação ao sexo masculino e a presença do pênis, o corpúsculo de Barr sempre existirá e determinará esse individuo como pertencente ao sexo feminino, independente das suas características físicas.

Contudo, o sexo passa a ser mais do que características físicas e biológicas quando o gênero é colocado em pauta. Gênero é uma construção social determinado a partir do sexo ao qual você pertence que se dá por meio do processo de socialização. Entenda que por ser uma socialização, o gênero é ensinado aos indivíduos a partir do momento em que este passa a compreender o discurso- no caso das mulheres, ele é mais que ensinado, é imposto- mas vamos abordar isso mais adiante. O processo de aprendizado é constituído por coisas como o tipo de roupa que um gênero deve ou não usar, as cores ao qual ele deve ou não gostar, como ele deve se portar frente ao gênero oposto, enfim, gênero é basicamente expressado pelos estereótipos construídos pela sociedade ao longo do tempo.

Até esse momento as imposições do gênero são conhecidas como uma hierarquia patriarcal, nesse sentido, o feminismo radical não o enxerga como um elemento libertador e abolicionista, mas como um sistema de opressão, estando os homens acima das mulheres, oprimindo-as. Mas com as pautas pós-modernistas, o gênero passa a enxergado por algumas pessoas como líquido e mutável, o que contradiz a ideia de que o gênero é determinado pelo sexo uma vez que o sexo masculino e feminino não pode ser líquido, e sim fixo. Ou seja, com o avanço das teorias pós-modernistas, o gênero deixa de ser visto como uma hierarquia para ser visto como um espectro, cujo qual um indivíduo insatisfeito com gênero ao qual a sociedade o coloca pode escolher transitar entre o espectro (?). A partir daí surge a identidade de gênero, como sendo algo que os seres humanos se identificam, já que supostamente, eles podem descontruir o gênero ao qual foram impostos e se adequarem ao outro gênero. (Perceba que em minuto nenhum o pós-modernismo fala sobre a abolição do gênero, e sim de uma adequação ao gênero que o ser se identifica).

O que as feministas radicais discutem é a ideia de que se adequar e se identificar com o gênero prejudica as mulheres, afinal, como poderia o gênero ser algo socialmente construído, feito para manter o gênero correspondente ao sexo feminino em um sistema de hierarquia ao qual as fêmeas não possuem nenhum tipo de liberdade sobre o seu corpo ou suas atitudes, estando sempre abaixo do macho, e ainda sim existirem pessoas que se identificam com esse gênero? Quando o pós-modernismo afirma que existem pessoas que não se identificam com o seu gênero e que essas pessoas podem escolher muda-lo para se adequar àquilo que elas realmente são, ele consequentemente afirma que também existem pessoas que se adequam ao seu gênero e não sentem a necessidade de transitar entre o espectro. Como pode uma fêmea ao nascer ter a sua socialização com base na submissão ao macho, na maternidade compulsória, na sexualização do seu corpo como objeto de prazer feito para os homens e ainda sim se identificar como mulher? Como pode também um macho ter sua socialização completamente contrária a das fêmeas, mas se identificar com toda a socialização das mesmas? Podemos então nos perguntar como a identidade de gênero beneficia as mulheres uma vez que essa identidade afirma que existem fêmeas que são presas nas caixinhas “mulher” e que carregam todos os estereótipos que essas caixinhas impõem, mas que ainda assim essas fêmeas de identificam com isso (?). Como eu posso me identificar com algo que não escolhi? E pior, como posso mudar o gênero que foi imposto a mim se esse mesmo gênero é determinado pela minha biologia, uma vez que esta não pode ser mudada? O fato é que essa ideologia de gênero como uma identidade, como um sentimento ao qual você, e apenas você, se identifica é completamente individualista e subjetiva, tornando-se impossível uma vez que vivemos em uma sociedade na qual os outros, independente de uma mulher se identificar como homem, sempre enxergará essa fêmea como uma mulher, já que a sociedade baseia o gênero na biologia e não no sentimento do indivíduo.

Em suma, a identidade de gênero é um conceito antifeminista ao olhos da vertente radical por afirmar que existem mulheres que se identificam com o próprio gênero, e se identificar com o gênero “mulher” é aceitar o fato de que essas mulheres são oprimidas e estupradas, mas que mesmo assim existem mulheres que estão ok com isso, afinal, elas são mulheres. O feminismo radical não acredita que transitar entre o espectro do gênero seja a solução para que as mulheres deixem de ser prejudicadas em diversos âmbitos, muito menos que essa mulher se adeque ao gênero imposto a ela e se identifique com isso, pois ninguém se identifica com a opressão e violência. A partir do momento em que um macho socializado como homem não está de acordo com o seu gênero e decide mudá-lo, ele afirma que existem pessoas que estão de acordo. Para abolir os seus estereótipos de gênero você não precisa empurrar os outros para esse estereótipo só para dizer que existem pessoas que estão de acordo, mas que você não, dessa forma você só contribui para que esses estereótipos continuem existindo e prejudicando majoritariamente as mulheres ao passo que você se exclui dessa hierarquia e se coloca em outro patamar. Isso é individualista e uma solução para a abolição de gênero um tanto contraditória.

Enquanto crítico da identidade de gênero, o feminismo radical surgiu para enxergar as mulheres da forma que elas são vistas socialmente, como um corpo biologicamente feminino. A opressão que as mulheres sofrem não é causada pela forma como elas se sentem ou por se identificarem com seu gênero, até mesmo porque é impossível uma mulher se identificar 100% com seu gênero, ela é causada pelo fato das mulheres possuírem um corpo feminino, uma biologia feminina, biologia esta que não pode ser mudada só com um sentimento. Portanto, ser mulher não é um sentimento, uma identidade, uma caixinha na qual você se identifica. Ser mulher é uma vivência, uma socialização baseada na opressão, é uma realidade material e visível aos olhos da sociedade. Ser mulher é ser a casta oprimida pelo simples fato de possuir uma biologia feminina.