Bom pai

Era aquele que sabia as palavras certas para amaciar um “não”; sabia deter o choro emocionado do filho com a dose certa da razão. Uma certa vez ele contou a mesma história vinte vezes, a pedido do filho, mantendo a narrativa emocionada sem ceder à impaciência. Ele abraçou o filho quando o copo de vidro se quebrou e o menino se encolheu movido pelo medo de apanhar. Ele injetou confiança ao focar os olhos do filho e gritar: vai!

Ele se vestiu de papai noel no ano em que os amigos da escola espalhavam que o bom velhinho não existia. Ele pintou as pegadas do coelho da páscoa no chão, perto de cada ovo de chocolate escondido; fingiu desconhecer os esconderijos e exercitou a busca pelos ovos ao lado do menino.

Ele aliviou a saudade com um abraço forte sempre que chegou em casa depois de um dia de trabalho. Ele segurou a mão da esposa e deu-lhe um beijo no rosto, com todo o orgulho: seu pai ama muito sua mamãe.

Ele existiu até pouco tempo nos sonhos do menino. Se despediam um pouco antes do despertador tocar; do menino vestir a gravata. Agora, o bom pai só existe nos sonhos. O tempo passa apagando todos os defeitos do velho homem, aproximando-o da perfeição e acalentando o coração do menino.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.