Cara ou coroa?

Andava apressado pelo corredor quando uma porta adiante foi aberta, iluminando o ambiente. Agachou atrás de um vaso alto antes que o vissem. O vulto que apareceu disse:

— Senhor Geraldo? É você aí? Parece que alguém desligou os disjuntores da Prefeitura. Já estamos averiguando, não precisa se preocupar.

E não obteve resposta. Só quando o vulto fechou a porta e foi embora é que José Geraldo se levantou e entrou no Gabinete à sua frente. Foi por pouco, hora de ir. Havia apenas uma pessoa ali na sala, a única pessoa com quem se comunicara até então: Geraldo José, seu Eu desse universo paralelo, última pessoa que veria nessas terras.

Contar toda a situação desde o início prolonga muito e não esclarece tanto, mas há de ser feito. O fato é que Geraldo José, vulgo Ladinho, estava sozinho e se olhava no espelho que fica atrás da porta do Gabinete quando sua imagem começou a se mover e esticar para fora da superfície do vidro. Acordado, minutos depois, tinha outro de si ao seu lado. Igual em tamanho e forma, o outro Ladinho era canhoto, tinha nome trocado — José Geraldo — e não gostava de falar frases no tempo futuro.

Após se cumprimentarem, estabeleceram como poderiam se discernir. O destro seria Ladinho Direito e, o canhoto, Ladinho Esquerdo. Juntos, trabalhariam duas vezes mais e duplicariam lucros. Mas o Esquerdo devia tomar o cuidado de não escrever ou assinar coisa alguma à vista de outras pessoas, para que não fosse descoberto. Apesar de não entender muito bem essa ideia de não fazer algo no futuro, concordou.

Os trabalhos iam bem, a estadia de Ladinho Esquerdo por essa terra já chegava a semanas. Passava a maior parte do dia no Gabinete e seus corredores adjacentes, temendo confundir palavras e gerar estranhamento se saísse ao mundo. Entretanto, uma pedra se encaixou dentro da meia, por entre os dedinhos dos pés de Esquerdo, quando o vereador Coringa resolveu denunciar por improbidade administrativa José Geraldo Pereira, vulgo Ladinho.

Ambos os lados (esquerdo e direito) se trancaram para decifrar quem poderia ter vazado a informação da presença intergaláctica ali. Não chegaram a conclusões. Ladinho Esquerdo ficou totalmente perplexo porque seus esforços de nada adiantaram — ele poderia ter aproveitado melhor a boêmia da cidade, mas recusou-se e agora não tinha mais chance alguma de sair às ruas sem ser alvo de olhares suspeitos.

— Sentirei sua falta, a minha falta.

— Eu já sinto minha falta aqui, Direito. Mas vou-me embora. É hora.

E tocou o espelho, criando num show de ondas reflexivas, como uma pedrinha que cai num lago calmo. Foi um momento difícil, mas com final feliz: o que nenhum dos dois imaginaria é o desfecho da história.

Sem José Geraldo algum por aqui, toda a ação foi invalidada e o processo de retirada do(ou dos) representante(s) máximo(s) retornou à arrastada de lesma convencional. E assim segue.

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