LAMaPAmoRIraNA

Caminhava pelo quinto dia consecutivo e não avistara nem uma vivalma desde que se recordava possuir vida. Não sabia seu nome, onde estava, quando era e nem de onde tinha vindo e como foi parar ali. Mas acreditava que, de alguma forma, poderia descobrir tudo isso se encontrasse alguém com quem conversar — se esse alguém falar a mesma língua, pequeno detalhe. O problema é que tudo estava muito confuso.

Desde que acordou pela primeira vez, estava no mesmo ambiente familiar, terrestre, com campos quase a perder de vista, repletos de gramíneas. Por mais que andasse, parecia nunca chegar a lugar algum, nem encontrava animais maiores que uma águia, mas todos que via sempre voavam, rastejavam ou corriam num mesmo sentido, que logo tratou de seguir.

Possuía, quando acordou, além da roupa do corpo, apenas um cantil, que sempre preenchia com água de laguinhos, poças d’água maiores que o habitual, onde houvesse animais se banhando. O céu estava sempre nublado e não permitia que se distinguisse de qual lado o Sol nascia e se punha, razão pela qual a direção dos animais foi a única que lhe veio à cabeça. Não havia onde se esconder e, felizmente, ainda não havia chovido, apesar do tempo aparentar, constantemente, estar na iminência de uma tempestade. Dormia sobre a grama, nos baixos e largos montes, de uns 5 metros de altura, talvez, que apareciam em seu caminho vez ou outra. Se ocorresse algum alagamento enquanto dormia, ao menos teria feito o possível para não se afogar ao escolher um lugar alto. Estranhamente, sempre acordava no pé das pequenas colinas, com vida e cabelo bagunçado.

No terceiro dia de caminhada, quando já escurecia, após ter comido um punhado dos grãos secos que brotavam das gramíneas e alimentavam os pássaros e bebido um cantil de água, avistou bem longe à sua frente uma gigantesca coluna de fumaça, como um cilindro cinza rumo ao céu, mesclando-se às nuvens. Subiu o montinho mais próximo e notou que, quilômetros adiante, os vastos campos perdiam espaço para uma floresta que crescia no horizonte, a perder de vista, como delimitando o terreno percorrido durante os últimos dias. Dormiu ali onde estava, com vista privilegiada daquele novo bioma e, mais uma vez, acordou no pé do monte, por pouco não afogando em 10 centímetros de água. Sentia a pele ressecada sob a iluminação do dia.

Seguiu adiante pensando que, para onde os animais vão, deve haver algo por que valha a pena arriscar. Algum tempo depois, chegou diante da floresta densa. Suava com a umidade. Não ocorria uma mudança gradual de bioma, como imaginou ao ver de longe pela primeira vez, com aparecimento de árvores cada vez mais grossas e agrupadas. O que via era como uma quebra de ambiente: um milímetro antes havia campo e um milímetro depois uma fechada mata, com sons farfalhantes. Animais pequenos, como aranhas e formigas, entravam em qualquer lugar da margem. As aves de diversos portes, mas sempre menores que gaviões, iam por cima.

Coelhos e gatinhos, entretanto, seguiam por umas poucas e estreitas trilhas pisoteadas, possivelmente feitas por algum desbravador coelho ou gato que as abriu antes. Notou que chinchilas e agutis não se misturavam em uma mesma trilha, nem siameses e persas. Mas entre as espécies diferentes não havia problema algum, como se não se enxergassem. Pelas trilhas seguiu, engatinhando e dividindo espaço com siameses e chinchilas. Quando surgia alguma clareira lateral, descansava. Por muita sorte, ao fim do dia chegou em uma clareira ampla, com uma pedra negra e lisa, sobre a qual descansou até o dia seguinte. Não havia visto qualquer fonte de água desde que entrou na floresta.

No primeiro dia de caminhada, quando começava a clarear, seguiu caminho. Seu cabelo estava mais bagunçado que nunca, mas nem se importava. Queria mesmo é entender. Tinha sede, mas felizmente os caminhos se alargaram e surgiram pequenos córregos límpidos, onde os animais bebiam, atravessados por pontes de tábua. Quem as teria construído? Surgiu uma maior variedade de frutas, algumas amarelas e bem esféricas, e outras verdes, de cheiro azedo, mas gosto delicioso, pelas quais os gatos até mesmo brigavam. Após atravessar a terceira ou quarta ponte, notou que o céu estava abrindo aos poucos quando um confortável raio de Sol aqueceu sua bochecha em certo ângulo que permitiu estimar ainda faltar meia hora para o anoitecer. Quando olhou melhor para o céu, notou que o que iluminava o ambiente não era uma estrela, como habituou-se a ver onde quer que vivesse antes, mas um refletor dentro de uma cobertura de vidro, uma lamparina.

A trilha começou a congestionar com a grande quantidade de animais. Alguns metros à frente, com a barriga gelando, notou que havia uma grande clareira. Torceu para não ter percorrido um gigantesco círculo pela floresta, saindo na mesma direção que entrou antes. E não se decepcionou.

Não era uma simples clareira, mas um belo jardim circular, muito bem cuidado. E no meio dele havia uma casa alta de madeira com uma chaminé de onde saía apenas um tênue e enrolado fio de fumaça. Na varanda da casa, uma lamparina deixava o ambiente excessivamente claro, mesmo já iniciado o anoitecer. Os animais pararam todos nos arredores do jardim, como se esperassem por algo ou se a luz os hipnotizasse. Apesar de temer seguir em frente, decidiu aproximar-se da casa fazendo barulho, porque não queria assustar o que quer que estivesse vivendo ali dentro. Conforme avançava pelo jardim, notou as dezenas de arbustos com frutos vermelhinhos de uma beleza inexplicável e cheiro doce. Tinha fome, decidiu provar uma e, claro, avisaria isso a quem estivesse ali dentro da casa, para não causar conflitos.

O sabor trouxe uma mistura de sensações ainda desconhecida, mas muito prazerosa, que passou rápido e fez pegar mais duas frutinhas impulsivamente, e depois mais três. Na boca, elas pareciam caber em quantidade infinita. Chegou aos pés da elegante escadinha e o cansaço não permitiu ter forças para subir os dois degraus que separavam o ponto onde estava da campainha elétrica que piscava em vermelho, pedindo pra ser apertada. Deitou-se e, arrastando, atravessou a varanda e bateu com a cabeça na porta algumas vezes, chamando por possíveis moradores. A porta se abriu com a terceira pancada e viu-se sobre uma cama, deslizando ao longo de um comprido corredor, com milhares de sóis no teto e sirenes tocando o tempo todo. Tudo girou. Chegando à cozinha notou olhando para o teto que, onde deveria haver talheres nas gavetas, havia botões vermelhos e mais sóis. Das torneiras, escorria luz líquida, e o chão era de terra batida. Achou a situação absurdamente estranha e levantou-se da cama, tentando chamar por ajuda, mas sua boca estava repleta de amoras. Cuspia insistentemente mas elas nunca acabavam, por mais que insistisse em livrar-se delas.

Caiu.

Tudo que via era escuridão, exceto por uma amora e uma luz intensa

E sentia que era ela, era a amora

E caminhava rumo à fonte de luz sem fim

LAMPARINA

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