O dia em que insetos formaram um governo

A tarde era quente. Fabiana mal imaginava que, ao sair para o trabalho, havia deixado aberta parte da janela do quarto em seu apartamento, mesmo com o ar-condicionado funcionando para resfriar o forno onde morava. A pequena abertura não tinha grades suficientes para evitar a entrada de seres desconhecidos, mas a porta do cômodo estava fechada e o sistema de vigilância entraria em ação tocando o alarme caso invasores do porte de humanos adentrassem a moradia.

Era fim de mês, tempo de trabalho intenso, horas-extras e serviço ‘pós-expediente’. Conforme o Sol se preparava para as próximas 12 horas de iluminação da outra metade do mundo, uma tropa de minúsculos artrópodes que voava pelos arredores daquele edifício notou uma fresta pela qual poderia invadir dezenas de apartamentos em busca do ouro rubro que os grandiosos humanos carregam consigo onde quer que vão. Culex, Aedes, Anopheles e muitos outros gêneros disputavam a dianteira na entrada. O líder do grupo Aedes, Faraó Contemporâneo, orquestrou a invasão pedindo a todos cuidado com as possíveis armadilhas elétricas e luzes de tom violeta extremamente agradáveis, das quais se deveria fugir a todo custo.

A manobra de entrada mostrou-se um sucesso total, sem perda de homens. Aedes Faraó vangloriou-se do feito, o que irritou os outros Generais, menos experientes. O ambiente interno, agora sob análise, era frio e inóspito à vida de seres que não produzem seu próprio calor, notaram alguns magos e cientistas alados, o que acharam muito curioso, já que a cidade lá fora fervia em febre e seca. Entretanto, quando encontraram a fonte de tamanho sentimento de repulsa — o condicionador de ar — , logo organizaram uma força-tarefa para desligar o flagelo, com sucesso, apesar da morte de três soldados devido ao impacto com o botão OFF.


O teclado era pressionado sem pausas. Café, em forma de goles, rolava garganta abaixo enquanto a antiga proprietária do quarto já invadido buscava finalizar rapidamente suas tarefas. Quando uma pilha de papéis foi colocada em sua mesa antes mesmo que a anterior se esgotasse, Fabiana perdeu a esperança de chegar em casa naquele dia. Os poucos ventiladores no escritório só estavam disponíveis para os altos representantes da firma; os funcionários em geral contentavam-se com a água gelada dos bebedouros. Não havia refrigeradores de ar ali: “tempos de crise energética exigem austeridade”, diziam os Chefes. Fabiana, porém, apenas tinha olhos(e paladar) para seus cafés: expresso, cappuccino, latte macchiato e o tradicional ao leite, um copo de cada a cada hora, para se manter ágil nas tarefas as quais era encarregada de concluir.


Ao notar a completa solidão no ambiente e a impossibilidade de avanço pelo território devido a uma pesada porta, a população que havia se estabelecido no quarto revolveu encerrar a plurianarquia-ditatorial por meio de uma Assembleia. Todos, em geral, posicionaram-se nas paredes e, no centro do espaço, sobre uma pilha de dois travesseiros e um cobertor, a Comissão Artropodista tratou de realizar eleições. Culex Zombeteiro, Aedes Faraó, Anópheles Gigante e uma novata, a Besoura Rola-Bosta, candidataram-se. Apesar da imbatível força(física) da última, o número de aliados era pequeno, o que apenas lhe garantiu o último lugar. Em primeiro ficou Aedes Faraó, tendo recebido votos de vários Culex e Anopheles sp. admirados com a destreza da entrada. Zumbindo, prometeu garantir longa vida a todos, desde que o serviço militar e o alistamento se mantivessem organizados. Milhares de asas responderam satisfeitas em uníssono com um “Zuénn”, ouvido mesmo por moradores abaixo e acima, que pensaram tratar-se de um som maquinal.


A torre de papéis finalmente se esgotava; milhares de números, das mais variadas importâncias, passaram por aqueles olhos durante o longo dia que agora terminava. A Lua cheia já completava o primeiro quarto de sua caminhada noturna quando Fabiana saiu do escritório e entrou em seu carro. A família estava a passeio; ela ficara na cidade porque seu chefe não lhe concedeu descanso. O caminho de volta foi rápido, logo entrava na garagem e subia pelo elevador, ambos sufocavelmente abafados. Entra na sala de seu apartamento, despeja a bolsa e corre para a cozinha, onde bebe água, o licor da vida. Vai para o banho planejando, em seguida, despejar-se na cama que não lhe pertencia mais.


A economia ia bem — investimentos já traziam resultados: as expedições em prédios vizinhos obtinham sucesso; formou-se um Quartel-General na sede do Império em construção e Lei, moeda, hino e etiqueta eram formulados pelos Sábios, defensores do Dipterismo, corrente que prega a superioridade dos seres possuidores de dois pares de asas. Estrategistas, experientes em infiltrações e insensíveis às atrativas luzes violeta, os mosquitos-palha estimavam um grande crescimento territorial nos próximos dias: as invasões se dariam pelo exterior, com Sol a pino. Grupos de Phlebotomus entrariam por janelas e portas vizinhas e procriariam nas bacias de água umedecedoras dos quartos. Isso é: a menos que o ataque começasse pelos inimigos homens, a Tomada seria iniciada de fato apenas quando a população fosse grande, com a seguinte queda dos humanos e a posse definitiva do edifício de 7 andares.


O banho a semi-seco havia terminado e Fabiana seguiu em direção ao quarto. Achou engraçado aquele pequeno zumbido que ouvia, mas logo lembrou-se do ar-condicionado que deixara ligado. Aliás, o quarto deveria estar um frio de congelar água, e a conta de energia certamente viria estourando os orçamentos. Apressou-se. Os novos moradores sentiam algo de bom no ar: um perfume quente de vida e hemoglobina se aproximava, bastante útil para a nutrição dos ovos que seriam postos em breve. A porta foi aberta e imediatamente o Esquema Tático Primário foi posto em forma. Na frente iam os listradinhos da Antiga Civilização, Aedes aegypti, buscando desorientar e aterrorizar o alvo com a ameaça dos flavirírus da dengue. O ataque principal era dos besouros com suas ‘cepadas’ na testa da agora invasora e, por fim, os mosquitos-palha aproveitavam-se da distração com os insetos maiores para se alimentar do ouro rubro que nascia volumosamente das canelas recém micro-perfuradas da vítima.

Fabiana, assustada com a movimentação e os ataques, fechou a porta e buscou o inseticida: era hora de conter os invasores e mostrar a eles quem mandava por ali. Os insetos, breves em sua vida, pensaram ter vencido a guerra por alguns instantes e já retomavam o trabalho expansionista, quando de repente jatos de piretrina os atingiram. A chacina deixou marcas que não se apagariam tão fácil da memória dos sobreviventes: milhares de mortos, dentre os quais se incluíam até mesmo os grandes besouros. Apesar da garganta seca(em razão dos remédios no ar), Fabiana fechou a janela e dormiu bem. Limpou o ambiente na manhã seguinte com uma história curiosa na mente para contar a seus colegas de trabalho.

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