O Império Contra-Ataca

Fabiana passou por momentos de apuro algum tempo atrás. Em um único dia de descuido, uma constelação de insetos invadiu seu quarto e formou lá o QG de um exército que prometia dominar a cidade, extraindo todo o sangue que encontrasse pela frente. No seu trabalho, houve quem não acreditasse na história, mas o vídeo que gravou relatando tudo, com a dramatização oral de sua filhinha, fez grande sucesso na internet e a transformou numa famosa instantânea.


Felizmente, chuvas resfriaram o tempo e diminuíram a aridez do ar. Levaram embora, também, os insuportáveis pernilongos. O que a população não esperava é que Faraó Contemporâneo, que havia prometido vingança e morrido poucos dias depois (pernilongos vivem no máximo uns 15 dias), deixara no testamento com sua esposa mais jovem um pedido de vingança eterna. Cada um dos ovos postos deveria ser doutrinado na Filosofia Hematofagista, que prega a sucção máxima de sangue das vítimas.

Natalia se preparava para os preparativos de Natal. E como estava fria, aquela manhã de vésperas… Era, pra ela, uma das piores ocasiões do ano: parentes se encontrando e se cumprimentando sorridentes enquanto, nos grupos virtuais da família, enfiavam garfos uns nos outros. Era uma convenção social obrigatória, entretanto, e sua mãe se deprimiria caso ela decidisse se esconder em seu quarto ou sair para compras durante a chegada das visitas.

Passava pela sala quando, de repente, sentiu uma pontada na perna.

— Ai! Que diabo é isso? — exclamou, assustando a tia católica fervorosa que tricotava ao lado.

Abaixou-se flexivelmente(como boa atleta que é) para olhar o que era aquilo. Viu um pernilongo. Atleticano. Escavando sua perna.

— Pernilongo? Num frio desses? — perguntou a tia, que ficou sem resposta pela obviedade da situação.

Antes que pudesse piscar, Natalia lascou nele um tapa fatal e o pequeno sugador foi estraçalhado pelas mãos gigantes, formando uma lama nojenta. Enquanto a corredora ia para o banheiro, torcendo para não ter pegado dengue, zika ou qualquer outra coisa, a tia que estava próxima começou a se agitar procurando uma raquete elétrica. Dezenas de pernilongos rodeavam a nova presa, farta de sangue sadio e incapaz de repulsar tantos inimigos listradinhos.


Na noite anterior, enquanto todos dormiam, o pequeno Faraó Odioso III ordenou a invasão da residência. Mesmo sofrendo perdas por causa da massa que ar frio que chegava, notou com perspicácia que uma mudança de hábitos aumentaria a eficiência da invasão, já que as presas estariam desprotegidas. De madrugada, antes que começassem a extração sanguínea, organizou métodos para esconder todas as armas usadas no extermínio dos Aedes. A raquete elétrica caiu silenciosamente atrás do armário, os refis líquidos desceram pelo ralo e os ventiladores foram emperrados com a colocação de teias de aranha nos motores.

Dessa vez, não contaram com a ajuda de amigos de outras espécies: julgavam ter aprendido com os erros do passado.


A ação, que contou com grande vitória inicial dos pequeninos, logo escorreu para o fracasso. As diversas mãos presentes naquela residência foram capazes de, com palmas, matar muitos dos invasores. Quando percebeu que seu Império corria risco, Odioso III ordenou retirada, zumbindo que ele e seu exército adquiriram mais experiência dessa vez e jurando que seus sucessores certamente não falhariam na tarefa de dominar o mundo.

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