A REVOLUÇÃO NA TEORIA E NA PRÁTICA: PARTE 1

1. ONDE CHEGAMOS

Entre os anos de 1936 e 1939, a Espanha esteve envolvida em um conflito interno entre Republicanos (que se aliaram a comunistas e anarquistas) e Nacionalistas, que eram compostos por conservadores falangistas (de orientação fascista) e carlistas (monarquistas), todos católicos. O grupo dos Nacionalistas era encabeçado por General Francisco Franco Bahamonde, líder do partido Falange Espanhola. Foram eles os vencedores da guerra e a eles coube o poder de toda a Espanha até 1975. São anos e anos de história aí e um tanto de novelas de Hemingway, de pinturas de Picasso, de poemas e peças de Miguel Hernandez e Garcia Lorca, são meio milhão de mortes apenas entre os anos de guerra, é o corpo daquele mesmo Garcia Lorca jogado no fundo de um poço ou numa cova não marcada qualquer, são os meninos roubados pelo franquismo, muitas coisas para se contar, mas não é esse meu intento, nem são esses os episódios verdadeiramente importantes ao problema em mãos. O momento em que penso é um que ocorreu nos interiores do salão de honra da Universidade de Salamanca, onde falangistas, em suas camisas azuis, professores e estudantes se encontravam juntos com a intenção de comemorar o Dia da Raça, à 12 de outubro de 1936, quatro meses após o primeiro ataque militar liderado por Franco à república. Foi nessa festa que Millán Astray, general mutilado na guerra do Riff, encarregado, então, da liderança das tropas coloniais recém desembarcadas na Espanha para derrotarem a Frente Popular, dispôs-se a fazer um discurso inflamado — no qual não faltaram imprecações contra bascos e catalões, pessoas que, segundo ele, porta voz designado do fascismo naquele momento, deveriam ser extirpados sem culpa alguma, como cânceres — que terminou numa declaração oximorônica e potente em sua capacidade de sintetizar toda um ideário: “Viva la muerte!”. Dom Miguel de Unamuno, que havia apoiado o golpe franquista, deve ter se arrependido muito naquela hora ou deve ter finalmente tomado coragem com a esdrúxula aclamação à morte de demonstrar seu descontentamento com os quatro meses de sangue, incêndios e destruição que seguiram o ataque a República, pois levantou-se e repreendeu o general por suas declarações contra bascos e catalões e por seu “brado necrófilo e insensato” (SCHILLING, 1999, p. 117), principalmente por ele ter sido dito onde foi. Estava ele certo em taxar o general de “aleijado destituído da grandeza moral de Cervantes” e de dizer que ele procurava consolo nas mutilações que infligia aos outros (idem, ibid.), mas por fazê-lo estava também condenado a morte. O general com um ódio impotente, sabendo que não poderia mata-lo nem mesmo prendê-lo do momento (Unamuno era uma grande personalidade e a tragédia publicitária da morte de Garcia Lorca ainda pesava nas costas dos fascistas espanhóis), fez o que pode: vociferou mais uma vez, agora explicitando o que já se encontrava tácito no arroubo anterior; “Abajo la inteligencia! Viva la muerte!”, disse ele. O público quis fazer simbolicamente o trabalho sujo para o general por intermédio dos insultos, enquanto alguns oficiais sacaram pistolas, as quais só não atiraram por intervenção de Carmen Polo de Franco, mulher de Francisco de Franco. O Conselho Municipal decretou a expulsão de Unamuno não muito mais tarde naquele dia. Recolhido a prisão domiciliar algum tempo depois, Unamuno morreu naquele mesmo ano, no dia 31 de dezembro.

As palavras de Millán Astray foram, de certa forma, proféticas. A morte pairou como uma espessa neblina sobre a Espanha até 1975 (além das mortes da guerra, meio milhão de prisioneiros foram mandados para campos de concentração apenas entre 1936 e 1947, entre os quais se contavam republicanos, dissidente políticos — comunistas, anarquistas, republicanos –, homossexuais e prisioneiros comuns[1]) e o país tornou-se estéril no campo intelectual (com fuga de intelectuais, desaparecimento das redes acadêmicas, perda da autonomia universitária, assassinatos e exílios forçados para professores considerados “inimigos políticos” etc.).

É estranho imaginar que, dentro de uma universidade ou de qualquer local, o público possa defender um discurso aclamatório da morte e difamatório da inteligência e atacar um homem que defende a capacidade intelectual humana e o próprio povo. Estranho, mas, como nos prova a Espanha fascista, não impossível. Poderíamos nós no Brasil dizer que estamos aquém disso? Que não chegamos a tanto? Seria negar a realidade. No Rio de Janeiro, o governador diz que levará snipers para as favelas para que eles possam “mirar na cabecinha” e abrir fogo (PENNAFORT, 2018). Temos na presidência um homem que tentou aprovar o projeto de lei do excludente de ilicitude, o qual permitiria que policiais matassem com brutalidade excessiva sem punição caso um juiz decidisse que o ato foi justificado (abater um criminoso em caso de ameaça a vida do policial ou de outrem já é permitido por lei, motivo pelo qual as intenções ulteriores do projeto de lei são questionáveis, para dizer o mínimo); um homem que diz que o policial que abate bandidos deve ser condecorado; um homem que pautou grande parte de sua candidatura (demagogicamente) na perspectiva de armar a população para que essa possa se “defender da bandidagem” (que é, na cabeça de todos que caem nessa demagogia, a juventude negra); um homem que defendeu a tortura abertamente e que cultua um torturador; um homem que quer uma guerra civil com trinta mil mortos; um homem cujo filho e um possível ministro querem entrar em guerra com a Venezuela; um homem que foi incapaz até mesmo de expressar uma hipócrita condolência à família de Moa do Katendê e das outras vítimas de seus comensais. Quando mencionamos essas mortes para os bolsonaristas, eles rapidamente tratam de chamar-nos de vitimistas ou de fingirem que nada foi confirmado — não importa o número de testemunhas que provam o contrário –, seguindo a deixa de seu líder. O culto da morte é reprimido, decerto, justifica-se por intermédio de evasivas, mas está em alta e tende a chamar ainda mais alguns daqueles que se escondiam nos bueiros ideológicos e nos porões do saudosismo ditatorial à superfície, aumentando o clamor popular e legitimando um possível novo Millán Astray (nas Filipinas, eles têm Duterte). Para completar, temos o Escola Sem Partido, o qual não faz mais do que demonizar o professorado e criar desinformação mesmo antes de sua aprovação. Fosse ele instituído, o que é uma possibilidade cada vez mais palpável, teríamos um mecanismo de perseguição mais eficaz do que qualquer um testado à época do nazi-fascismo.

E tudo isso ocorre em meio a aplausos e com apoio popular, pois o Escola Sem Partido acabará com o “marxismo cultural”, com a “doutrinação de Paulo Freire”, com o “politicamente correto”; pois “bandido bom é bandido morto” e “a população está cansada de ser assaltada”; pois “Bolsonaro não pode controlar os atos de todo mundo”; pois “a ditadura só torturava terroristas”. Discursos vazios que dão azo a qualquer interpretação, desde a mais inocente em sua ignorância até a mais autoritária em sua manipulação do conhecimento. O professor, circunscrito à narrativa pretensamente isenta que lhe confiarem os ministros de Bolsonaro, não poderá pensar além daquilo, não poderá criticar ou desenvolver pensamentos próprios, não poderá nem mesmo consultar certos teóricos para embasar-se, uma vez que, caso tenha preferência ideológica subjetiva por um ou outro mais progressista, estará trilhando o caminho ao qual eles dão o nome de doutrinação; o policial e o cidadão de bem armado (que será apenas aquele que tem dinheiro para comprar armas), livres para fazerem o que bem entendem, alguns deles sendo até condecorados por fazerem o que bem entenderem, alguns virando heróis populares (a ovação dos vigilantes nunca termina), atirarão “na cabecinha”, seguindo as diretrizes das instituições (é um insulto à inteligência alheia dizer que a polícia já há muito não faz isso, seja de farda oficial ou miliciana). A própria reação de Bolsonaro frente a qualquer política minimamente progressista é símbolo disso. Talvez seja uma das coisas que ele mais repetiu durante sua campanha: “tem que acabar isso ai, tá ok?”. Acabar com o quê? Não se sabe; o isso tem valor semântico indeterminado, poderia ser qualquer coisa, eu, você.

“Abaixo a inteligência, viva a morte!”, sabemos ser o que Bolsonaro diz sem dizer. Mas tão importante quanto reconhecer um embevecido “brado necrófilo”, é saber como ele é, direta e indiretamente, legitimado pelas instituições e seus dispositivos e na sociedade civil, como ele se torna apetecível, o motivo pelo qual ele foi possibilitado como manifestação exterior da linguagem antes reprimida (se Unamuno tivesse pensado nisso antes, talvez nunca tivesse apoiado aos franquistas); tão importante quanto ver o inimigo é desenvolver formas de combate.

2. PARA ONDE IR? COMO CHEGAR LÁ?

Não há na vitória ou na derrota qualquer sentido metafísico. O que há é uma vitória material ou uma derrota material. Portanto, qualquer um que tenha uma concepção histórica das relações sociais tem de, necessariamente, pensar em meios materiais de combate. O materialismo aqui é entendido como o é por Marx em suas Teses sobre Feuerbach (1987): como toda atividade humana sensível (portanto numa perspectiva imanentista). Para que haja combate tem de existir e ser fomentada a “militância social, anticapitalista e anti-imperialista” (PCB, 2011, p. 1), e essa tem de ser capaz de superar tanto o populismo vazio de ação e/ou de plano de ação quanto o academicismo que muito teoriza, mas nada faz. O pensamento revolucionário não pode ser apenas pensamento, ou murcha e morre de inanição. A ação violenta contra as instituições não pode ser apenas reativa, ou descamba para o crime comum. Temos de conceber uma sociedade nova enquanto agimos para a construir — e essa é a questão fulcral da revolução.

Quando o camarada Lenin escreveu Que fazer (em 1902), uma das preocupações centrais dele era com a mídia. Lenin escrevia para o jornal Iskra, que era à época um órgão do Partido Operário Social-Democrata Russo (passou depois para as mãos dos mencheviques, o que fez com que os bolcheviques se virassem contra ele). O jornal operava, claro, na ilegalidade e grande parte do livro trata de formas de distribuição de jornais tais como esse (e da crítica de jornais pretensamente marxistas que caiam já naquela época no economicismo). O próprio Marx, que escreveu o enorme Capital, escreveu também o Manifesto do Partido Comunista a pedido de Engels para que trabalhadores pudessem ter mais fácil acesso ao que ele com tanto afinco produzia como forma de libertar esses mesmos trabalhadores. Um dos grandes erros da esquerda (e principalmente da esquerda pós-moderna) foi relegar o trabalhador e manter suas discussões conscritas a um círculo acadêmico puramente masturbatório tanto em divulgação quanto em escolhas de tópicos.

A mídia (os jornais, a TV, a rádio) é uma produção material sensível humana, mesmo que se relacione de forma superestrutural com o consumidor de seus produtos, dotando ele de uma concepção de mundo. Aliás, é exatamente por ter essa capacidade de criar e manter concepções de mundo que ela é tão importante. A disputa com o monopólio ideológico midiático, porém, deve ocorrer no campo material. Assim como Lênin no Iskra ou Marx antes dele com seu Manifesto, é preciso que haja, de nossa parte, não apenas uma tentativa de refletir e refutar (palavra que se torna cada dia mais odiosa para quem está presente na internet de hoje) argumentos do opressor e de seus porta-vozes conscientes ou inconscientes, mas um combate positivo contra a própria capacidade de produção de mentiras apaziguadoras (entorpecentes) dos mesmos. Ao mesmo tempo, devemos procurar meios (legais ou ilegais, caso cheguemos a tanto) de difundir nossa própria palavra, que deve sim ter um padrão de qualidade ditado pelo respeito ao materialismo-histórico e portanto pontuar-se na luta de classes, nos mais diversos meios (na internet ou fora dela, na universidade ou na fábrica). Aos camaradas com capacidade de síntese e produção textual (seja escrita, oral, mimética, musical etc.), divulgar material revolucionário pautando-se nas necessidades do povo e nas contradições internas do capitalismo é mais do que uma opção, é um dever.

“A ditadura midiática dos monopólios de (des)informação” (PCB, 2011, p. 1) está sempre na casa do proletário (assim como os carros Ford, a TV foi um bem de consumo difundido e vendido a preços baixíssimos para que todos a pudessem ter nos EUA, inclusive os proletários negros) e por isso ela é mais facilmente acessível que a revolução, que a imprensa revolucionária — há, de fato, uma relação de proporcionalidade inversa entre essa facilidade de acesso e a defesa das necessidades do povo; quanto menos se pensa no povo (levando para esse o ideal burguês, que advoga pela exploração tão irrestrita quanto contingentemente possível), mais o canal ganha subsídios do governo (vemos um exemplo disso na ameaça de corte de verbas para a TV Globo, que muito mal fez um aceno contra o que até mesmo ela teve de reconhecer como barbárie, e na promessa de aumento de audiência para Record feita por Jair Bolsonaro).

Étienne de La Boétie, no século XVI, escreveu o Discurso da servidão voluntária, no qual ele questionava a capacidade de um tirano de manter sob seu jugo todo um povo e um grande espaço de terra. Sua proposta é que por hábito, ignorância e fraqueza moral, os homens voluntariamente se submetem a tirania. Alguns se aproximam do tirano, obtendo dele a confiança, compartilhando seus desmandos e obtendo seus favores; esses possuem seus próprios súditos, que compartilham seus desmandos e obtém seus favores; e esses súditos possuem subordinados, com os quais ocorre o mesmo; e esses subordinados possuem, por sua vez, outros subordinados etc.

As relações de obediência, favorecimento e punição se dão, então, segundo o autor, em múltiplos níveis, consistindo na força militar, na enganação política e nos discursos religiosos e supersticiosos o verdadeiro poder do tirano, seu manto, sendo que os próprios súditos se subjugam entre si e a si próprios em favor do seu superior na escala de posições sociais[2], trazendo das pontas para o topo o Poder soberano, que, contudo, parte, enquanto ato valorativo que será reproduzido, do topo; ou seja, o tirano se mantém tirano porque os súditos se mantém servis e os súditos se mantém servis porque aceitam os valores que provém do tirano e se tornam incapazes de criar seus próprios valores ou quando os criam são punidos — e aqui podemos perceber já a interação dialógica entre de La Boétie e conceitos como a alienação marxiana e o Estado vigilante de Foucault.

No sentido de trazer essa discussão para o mundo moderno, globalizado, pósabsolutismo, pós-imperialismo colonizador (no modelo europeu) e permeado pelo imperialismo cultural ocidental-estadunidense, podemos falar do conceito de manufatura de consenso, primeiramente citado por Walter Lippmann (1922) e depois expandido e contextualizado por Noam Chomsky e Edward S. Herman no livro Manufacturing consent: The political economy of the mass media (1988). O conceito se comunica com a ideia de propaganda, comumente ligada a governos totalitários, e.g. propaganda fascista ou nazista, que, porém, nasceu como uma forma de lidar com os perigos de uma democracia real, de manusear a opinião pública, o “senso comum”, o doxa, como meio de garantir a naturalização de aspectos sociais arbitrários através da construção de um aparato (super)estrutural ideológico que, por sua vez, permite uma manutenção (relativamente) imperturbada das infraestruturas sociais (meios de produção, relações de trabalho, matéria prima) — relacionando-se a superestrutura com a infraestrutura de forma simbiótica.

A sutileza com que os jogos políticos têm de ser empreendidos no mundo atual (conectado através da dispersão cultural por várias vias) é maior do que a que seria necessária a um tirano do século XVI. Em países, como o nosso, onde a mídia é privada e a censura não existe de uma forma institucionalizada e governamental, onde a liberdade de expressão é argumento mesmo para os mais viciosos ataques a indivíduos não-pertencentes (não prestigiados socialmente por uma divergência com o que essa mesma sociedade considera correto), não é possível se falar de uma propaganda nos moldes dos governos totalitários. A mídia é vista comumente como uma linha de intersecção entre diversas camadas da sociedade, como uma divulgadora dos interesses da comunidade. Porém, o modelo propagandista midiático tende a filtrar o que pode ou não ser divulgado, a esconder e marginalizar as dissidências, permitindo o domínio de interesses privados em detrimento dos interesses comunitários, sendo essa “censura”, através do conjunto legitimação/deslegitimação, feita com tanta (ou maior, uma vez que devido a naturalização e reconhecimento de autoridade, não há motivo para que ninguém fuja a legalidade para divulgar sua opinião — o que não garante que essa opinião será ouvida, apenas que ela pode existir e que pode, portanto, ser desqualificada caso fira os desejos oligárquicos) eficácia quanto nos Estados burocráticos.

Para perceber tais caminhos enviesados é necessário um olhar amplo e ao mesmo tempo segmentado do que ocorre nos grandes canais de comunicação; é necessário analisar o conjunto e as particularidades do que se é noticiado, das respostas dadas e das perguntas sendo feitas em um determinado momento e em geral. O fato de existir uma mídia autônoma ao governo, que permite a crítica a esse mesmo governo, é indicativo não de uma verdadeira liberdade de expressão, mas, nos moldes capitalistas (que são os moldes do lobby ou da corrupção, o que dá, afinal, no mesmo), de uma liberdade de expressão da verdade dominante — que se sustenta também na política, mas independe de um ou outro político na maioria das vezes, tendo muito mais que ver com a classe bancária e proprietária–, dado que adentrar as portas de um jornal ou de um programa de entrevistas só é possível para quem foi “convidado”, ou seja, quem, após grande filtração e decisões que nada tem que ver com o público enquanto conjunto de seres dignos e capazes de formular uma opinião autônoma, mas sim com as necessidades dos acionistas, presidentes, CEO’s, anunciantes etc. e com seus desejos para o público, foi liberado da categoria de subversivo perigoso e marginal ou foi posto nessa categoria sistematicamente para ser descreditado publicamente mesmo antes de fazer sua aparição[3] (podendo também ser descreditado quando já foi convidado através de uma linha de perguntas que contém respostas preconcebidas dentro do âmbito conservador sobre as quais tal pessoa discordaria, por exemplo, ou por outros mecanismos4). A liberdade de imprensa, então, é mais uma liberdade vigiada, coercitiva.

A mídia, portanto, superestrutural em sua relação com os telespectadores, funciona em função do mercado, da infraestrutura, ou seja, dos dominantes, dos ideais de alguns detentores de meios de produção e de meios de divulgação, do capital econômico e simbólico (do valor monetário dos anúncios e da “alta cultura”, da cultura socialmente prestigiada), permitindo que a legitimação, o prestígio, continue unilateral e cíclico, produzindo espetáculo e objetos de desejo para as massas a partir do sistema de oposições que permite, por definição, que exista qualquer coisa “distinta” (e a “distinção” é sempre apetecível). A propagandização tornou-se parte indelével da costura do manto que recobre (por motivos naturalizados e reconhecidos pelos dominados) de poder os oligarcas modernos. Entre o oferecer conativo e dissimulado de produtos para indivíduos de todas as idades, a divulgação de banalidades e de detalhes íntimos da vida de pessoas pertencentes a uma certa posição na hierarquia social — a divulgação, portanto, de um certo estilo de vida a ser ou não levado –, as escolhas dicotomizantes de assuntos a serem tratados, o volume e qualidade das histórias, as formas de linguagem utilizadas no discurso (o texto, a postura, o tom, o contexto, a plenitude do tratamento), as críticas vazias de conteúdo ou feitas à partir de um conteúdo manipulado e as manipulações semióticas que criam no indivíduo certas disposições quanto a um ou outro aspecto da realidade, vivemos imersos numa problemática representação de nossa sociedade, numa assimilação ubíqua passiva e acrítica de recortes de fatos e ficções que se materializam após a assimilação dos mesmos numa ou noutra forma de ver o mundo, direcionada pelos mesmos mecanismos de manutenção, neles perpetuadas. Enquanto nós nos esforçamos para demonstrar para um indivíduo que ele está sendo explorado, a grande mídia tem poderio o suficiente para entrar em todas ou quase todas as casas com sua pretensa denúncia de uma crise (existente) que na verdade é uma tentativa de normalizar a retirada de direitos por intermédio da instauração de práticas neoliberais (ou empregos ou direitos não é um discurso exclusivo de Bolsonaro); enquanto tentamos explicar que o desemprego é devido a uma desestabilização da relação oferta/demanda de trabalhadores num mercado que flutua irracionalmente e só prejudica de fato a quem já nasceu prejudicado, a grande mídia divulga o ideal empreendedor que diz que os empresários geram empregos, que “só é pobre quem quer” e que o pobre é pobre porque “vende seu tempo ao invés de usá-lo para desenvolvimento próprio” (como se ele tivesse essa opção); enquanto o número de moradores de rua aumenta, a grande mídia te mostra um caso entre milhões no qual um morador de rua conseguiu entrar numa universidade; enquanto mulheres são assassinadas aos borbotões diariamente, a grande mídia te mostra uma “empoderada” nos moldes liberais que eles tanto gostam (de olhos azuis, magra, abstratamente indignada, mas nunca efetivamente violenta); enquanto a repressão policial aumenta, enquanto a polícia é usada para retirar cidadãos de suas casas em favor das grandes empreiteiras, a grande mídia te entope com feitos “heroicos” de um quasi-vigilante. A morte vem depois do futebol; após a corrupção, humor; suprimem por completo a tragédia diária de uns para que a revolta contra as precárias condições materiais de uma maioria da população permaneça silenciosa e difusa e mostram a de outros para justificar a violência de Estado; o ensejo é sempre o mesmo: tornar o povo numa massa amorfa passiva que sente repulsa da mentalidade revolucionária e se autoflagela[4] ou torna-se (reativamente) carrasco do Outro quando necessário. A TV é a assistente de palco do Poder mítico do Estado.

A vida doméstica e social, então, de fato, torna-se, como a quis Macbeth definir em sua loucura, em “uma história contada por um idiota, cheia de barulho e agitações emocionais, mas vazia de sentido” (SHAKESPEARE, 2015, ato V, cena V) para o indivíduo, e, portanto, em mais uma ferramenta útil e de fácil manuseio para o mercado e para os poderes político-ideológicos a quem interessam esse indivíduo informado de acordo com o doxa, com o senso comum, que consente sem necessidade de ações coercitivas que causam grande estardalhaço na comunidade ou mesmo que consente à essas ações coercitivas quando elas são conduzidas contra indivíduos caracterizados (levando-se em conta a dicotomia romanceada) como “vilões” (mantendo-se essa oposição “vilão/mocinho” num reconhecimento de si mesmo como “mocinho”, mesmo que em algumas áreas e em alguns meios o indivíduo fosse ser socialmente considerado “vilão”); ou seja, o indivíduo representado, mas não presente em sua sociedade, informado pela representação, que só reconhece (mas nunca compreende) a representação mesmo em face à realidade.

A internet, um desenvolvimento relativamente recente e não ainda universalizado, não mudou e de fato estreitou as relações entre a grande mídia e o indivíduo que procura notícias sobre o mundo, seja esse para ele a realidade regional, nacional ou global, uma vez que os pequenos jornais independentes perdem sua capacidade de manutenção quando há uma grande diminuição na compra dos mesmos (consequência da digitalização) e perdem ou não ganham novo público por não serem capazes de manter uma grande presença nos mecanismos de pesquisa (que privilegiam, como se é de esperar, os anunciantes). A relação marketing-indivíduo também se estreita por meio de uma aparente gratuidade dos recursos virtuais que se baseia no modelo propagandista tanto mais (por maior facilidade de estocagem de dados) que a televisão aberta. O modelo de filtração e, portanto, de manuseio, se mantém, porém se esconde, criando uma espécie de ponto invisível na costura do manto de poder, através da aparente “doação” de uma voz ao indivíduo que tanto a deseja, não tanto por ter algo novo a dizer, mas por ser incomodo o silêncio numa época em que existem esses meios de difusão aparentemente tão democráticos. Nascem os “formadores de opinião”, que são, por sua vez, mormente, formados por uma opinião a eles alheia ou pessoas a quem essa opinião interessa; nascem os anúncios sob medida que fomentam o consumismo sustentado pela alienação dos trabalhadores.

O imperialismo ocidental-estadunidense, baseado num modelo de liberalismo corporativo, numa democracia de lobby que dessangra todas as instituições, mantémse na mídia através da grande divulgação de vidas estilizadas e de problemas popularizados, através mesmo da direção da indignação, que é quiescente em todo dominado, a um certo alvo (o inimigo público nº1), calando ou abaixando ao máximo o volume do que considera dissidente ou subversivo por demais, fora de lugar numa imprensa que pretende e consegue manter indivíduos alinhados a um certo pensar que varia pouco o suficiente para que não existam grandes reflexos na realidade, como revoltas de grande porte (contra o poder vigente) ou discursos divergentes, que fujam ao sistema de oposições no qual se fundam os conceitos mais básicos da sociedade como a encaramos hoje (“bem” e “mal”, “bom” e “mau”, “feliz” e “infeliz”, “sucesso” e “fracasso”, “bandido” e “mocinho”). A “liberdade de expressão”, então, tornase a liberdade de repetição, ausência de escolha senão dentro dos valores impostos[5].

O poder real, partindo do cetro doutrinário da elite, portanto dos bancos, do mercado, da ideologia e da política que o mantém, do Estado vigilante-punitivo que o defende, subscrito pela família que o aceita, pela escola que o ensina, advoga por essa mídia, pois necessita dela, e.g. a defesa na imprensa, a transmissão das batalhas e a afirmação da “coragem” dos soldados que eram mandados jovens para o Vietnam causou, junto aos demais poderes que também suportavam a guerra, a morte de muitos desses mesmos soldados e de milhões de vietnamitas civis e militares, além de amputações, queimaduras, problemas psicológicos etc. em soldados estadunidenses e soldados e civis vietnamitas, prisões e perseguições de subversivos estadunidenses e mesmo defeitos congênitos nas gerações subsequentes de vietnamitas atingidos pelo Agent Orange; porém, ainda assim, houveram grandes manifestações de apoio quanto aos ataques estadunidenses no país uma vez que os “vietcongues” eram caracterizados como comunistas indesejáveis (maus) e não-merecedores da escolha que fizeram de viver de uma forma diferente daquela que estava alinhada, num contexto de guerra fria, com os poderes ocidentais; isso assim se deu por desejos corporativos (vejamos, por exemplo, a relação entre o crescimento da Dow Chemical e a guerra do Vietnam). Nós temos, assim, uma situação comunicacional obscurecida em que o emissor é, de fato, o detentor do poder, o conservador da doutrina, a mensagem é a doutrina em si, a ideologia dos dominantes, as formas de organizar o trabalho em favor desses dominantes etc., o código é a dispersão de ideais moralizantes e normativas em “pilulas” de oposições (mormente “bem” e “mal” etc.) facilmente engolidas, o meio é a mídia (e, portanto, os jornais, os canais de comunicação, os jornalistas, os formadores de opinião, os youtubers etc.), o receptor é o indivíduo em sua casa e o feedback é dado explicita ou implicitamente, ou seja, em opiniões expressas (pelas redes sociais, nas mesas de bar, nas festas de família) ou em determinadas atitudes frente a uma situação do mundo material, de forma a concorrer para conservação. Há, assim, o reconhecimento de verdades coercitivas pelos dados (estatísticos) escolhidos ou mesmo manipulados, apresentados em assuntos também escolhidos, e pela informação filtrada; porém, não há formação de conhecimento, não há compreensão das relações sociais, mas sim assimilação do doxa, reconhecimento da autoridade imposta como autoridade natural (ou seja, desconhecimento das formas pelas quais se deu a legitimação da mesma).

Isso, mesmo quando parcialmente explicitado por indivíduos com uma agudeza de visão não tão bem desenvolvida, não é denunciado de forma revolucionária, pois há, além da mídia, a escola, e um dos deveres da escola seria, de acordo com esse mesmo doxa, formar indivíduos capazes de “pensamento crítico”. Porém, isso se dá de fato ou é apenas mais uma forma de pavonear o discurso replicante da mensagem

(realmente) doutrinária? O tal “pensamento crítico” advogado aos quatro ventos por alguns professores na escola é, na maioria das vezes, um conceito vazio ou esvaziado. Vazio quando o professor simplesmente o repete por obrigação pretensamente moral, quando incorre na má fé proto-filosófica que permeia o liberalismo difuso hegemônico na mentalidade técnica; esvaziado quando é proposto de forma espontaneísta (seja por vontade ou por falta de opções por parte do professor, inserido num sistema que engole toda crítica e a vomita deturpada e inofensiva — ou, como última opção, a esmaga).

Foucault disse em seu livro A ordem do discurso (1996) que o discurso não é apenas o reflexo das relações de força, mas é, na verdade, exatamente aquilo pelo que lutamos. A ambição de quem pretende lutar contra os meios de comunicação do Poder instituído, portanto, deve ser produzir o seu próprio discurso e ser ouvido, sabendo-se que um discurso próprio não pode nunca partir de alguém que se informa acriticamente por intermédio daqueles que defendem a manutenção da Ordem capitalista. Quando a grande mídia denuncia problemas ela denuncia consequências e não causas, pois as causas sempre desestabilizam o Poder se reveladas. Quando se fala em crise, nunca se fala em quem se beneficia com a crise. Quando se direciona a raiva, ela nunca é direcionada contra os verdadeiros culpados. É nossa primeira tarefa como revolucionários desvelar o pavor sistematicamente denegado na manutenção da Ordem, trazendo a superfície as relações sociais baseadas na exploração e na opressão subjacentes ao capitalismo. Os conflitos entre burgueses e proletários não devem ser objeto de conciliação, não devemos simplesmente colocar um emoliente sobre a rigidez das hierarquias, mas subverte-las completamente e ativamente. O capitalismo falhou e falhará ciclicamente (CARVALHO, 2018), mas sua capacidade camaleônica não deve ser desprezada. A revolução é um meio de vida que deve ser cultivado e somos nós que devemos a cultivar em nós e nos demais, onde ela ainda está em estado de gérmen.

Voltando a Guerra Civil espanhola, conta-se que Pablo Picasso foi certa vez visitado por um oficial alemão que se chocou com a Guernica e o perguntou se era ele, Picasso, que havia feito aquilo. Picasso respondeu: “Não, foram vocês”. Žižek conta essa anedota em seu livro Violência (2007) e completa dizendo que esse oficial alemão muito se parece com os liberais modernos, que quando veem uma revolta, logo culpam os esquerdistas. É a falácia de que a revolta parte de uma decisão individual (o que sabem os liberais além do individualismo?). É o que temos que superar para nos unir. Demonstrar a materialidade das relações sociais não seria causa de desordem se a Ordem não fosse tal qual o é. A revolta não existiria se não existisse o horror.

Notas:

[1] Além disso, aproximadamente 10 mil espanhóis foram parar em campos de concentração nazistas sem que Franco levantasse um dedo para ajuda-los.

[2] Vemos um exemplo — extremamente realista em sua premissa fantástica — disso no conto Coisas do livro Objecto quase de José Saramago (1998), que era, antes de tudo, um marxista.

[3] Quem viu alguma live do candidato Guilherme Boulos (PSOL) percebeu que antes mesmo dele começar a falar sobre qualquer assunto importante os bolsonaristas já o atacavam, já reagiam de forma a demonstrar um ódio cego, pautado nas falácias, nas mentiras, sublimado no ad hominem. 4 Como vimos no Roda Viva com Manuela D’Ávila.

[4] “O animal arranca o chicote das mãos do dono e chicoteia a si mesmo, sem saber que isso é apenas uma fantasia produzida por um novo nó na correia” (KAFKA, 2012, p. 34).

[5] Podemos lembrar aqui das jornadas de 2013, quando a TV Globo chegou ao extremo de dividir os manifestantes entre aqueles que mereciam a repressão policial e aqueles que não a mereciam (por outras palavras, bem entendido).

REFERÊNCIAS

CARVALHO, João. Sobre ser comunista, 2018. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=Qh4lMTSmZPs>. Acesso em: 28 nov. 2018;

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola,

1996;

HERMAN, Edward Samuel; CHOMSKY, Noam. Manufacturing Consent: The

Political Economy of the Mass Media. Nova Iorque: Pantheon Books, 2002;

KAFKA, Franz. Aforismos reunidos. São Paulo: Instituto Moreira Salles,

2012;

LENIN, Vladimir Ilitch. Que fazer? A organização como sujeito político. São

Paulo: Martins Fontes, 2006;

MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. Rio de Janeiro: Zahar, 1987;

PCB. Guia de perguntas introdutórias para a discussão, o estudo e o debate, 2011. Disponível em: <https://pcb.org.br/portal/docs1/texto1.pdf>. Acesso em:

26 nov. 2018;

PENNAFORT, Roberta. A polícia vai mirar na cabecinha e… fogo’, afirma Wilson Witzel, 2018. Disponível em: <http://atarde.uol.com.br/politica/noticias/2007865-a-policia-vai-mirar-na-cabecinha-e-fogo-afirma-wilson-witzel>. Acesso em: 20 nov. 2018;

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