Sobre os refugiados e a esperança da segunda chance

Na última edição da Pitti Uomo em Florença aconteceu um projeto de moda ética em parceria com a Fondazione Pitti Discovery e a associação de Bologna Lai Momo, onde cinco refugiados africanos provenientes de Mali e Gâmbia, selecionados a partir de um casting no centro de acolhimento, participaram dos desfiles e ensaios fotográficos ao lado de modelos profissionais. No dia da estréia na passarela do evento eles estavam visivelmente emocionados e tiveram o apoio dos colegas que os encorajaram e deram alguns conselhos para os novatos. Para eles, que pediram asilo político à Itália e chegaram no país após arriscarem suas vidas em perigosas travessias em busca de uma existência digna, participar de um evento deste porte com uma profissão até então jamais imaginada, é um grande passo e a esperança de recomeço.

Pitti Immagine Uomo

Em Trento onde eu moro, no nordeste italiano, desde 2012 acontece uma iniciativa que une na mesma casa refugiados políticos e portadores de transtornos mentais graves. Uma modalidade de cohousing que conecta realidades tão distintas e, segundo o idealizador do projeto o psiquiatra Renzo De Stefani, está se revelando muito mais terapêutica doque os tradicionais métodos de cura. Ambas as partes estão à margem da sociedade e com o projeto os pacientes reencontraram qualidade de vida e de relação, já para os refugiados além do emprego é uma forma de inserção social. Uma nova chance, um duplo renascimento.

A 600 km daqui, em Viena, existe um hotel especial onde todos os funcionários são refugiados de guerra provenientes de diversos países. Já na entrada do Magdas Hotel uma série de retratos pendurados na parede contam a história de vida dos imigrantes que ali trabalham. Atualmente são 16 nacionalidades e 23 idiomas e dialetos falados no local. O obetivo deste negócio social que foi inaugurado em fevereiro de 2015, é criar oportunidades para estas pessoas e oferecer um ambiente em que os turistas possam conhecer de perto as narrativas de vidas dos atores sociais deste difícil e atual momento histórico.

Photo Stefan Joham

No Brasil a plataforma Estou Refugiado dá visibilidade aos solicitantes de asilo político no país e tem como objetivo a recolocação dessas pessoas no mercado de trabalho . Para divulgar o projeto e demonstrar a diferença entre ser estrangeiro e refugiado, eles fizeram um teste social em parceria com o Tinder , aplicativo de encontros. O protagonista foi o congolês Alphonse Nyembo de 29 anos, formado em letras, técnico em mecatrônica, fluente em inglês e francês , apreciador de soul music e solteiro. Um perfil verdadeiro e com todos os requisitos para atrair possíveis pretendentes e assim foi: na primeira semana ele obteve 30 matchs. Na segunda semana do experimento, quando a palavra “refugiado” foi acrescentada ao perfil, tudo mudou.

Existem muitos ‘pré conceitos’ em relação aos estrangeiros em todos os cantos do mundo, eu mesma já presenciei a falta de empatia das pessoas em diversos contextos, porém foi uma determinada minoria de imigrantes que trabalham como vendedores ambulantes em uma praia no sul da Itália que me motivou a iniciar um projeto etnográfico chamado Mercado Negro e Pardo — em italiano o nome do projeto é Mercato Nero di Sabbia: Il caleidoscopio dell’universo dei venditori ambulanti in una spiaggia pugliese. O projeto nasceu em 2013 em Margherita di Savoia - Puglia, uma cidade com quase nenhuma fiscalização em relação aos camelôs da praia, que na sua grande maioria são imigrantes ilegais no páis e muitos deles, na qual eu tive a oportunidade de entrevistar e conhecer um pouco das biografias, chegaram na Itália através de embarcações no inicio do boom imigratório europeu. São provenientes do Paquistão, Afeganistão, Índia e vários países da África e encontraram naquele meio “duro” de ganhar a vida uma segunda chance. A maioria do material coletado nos últimos 3 verões - onde inclui pesquisa qualitativa, fotos e vídeos, voltei a reorganizar somente agora em 2016. Precisei de alguns meses para metabolizar a informação e coragem para compilar fortes depoimentos.

Photo Joice Preira

Zygmunt Bauman no seu último livro intitulado Cegueira Moral dedica um capítulo para citar o estranhamento causado pelo estrangeiro, o medo do “estranho” que se torna uma mercadoria política e abre caminho para uma onda de xenofobia e a velocidade do fênomeno migratório que encontrou a maioria dos cidadãos e políticos desavisados em tantos aspectos, onde inclui o material e o espiritual.

Cadê nossa humanidade? Ela também merece uma segunda chance…

https://vimeo.com/152875065

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