O armário profissional

Como foi seu fim de semana? Como vai a família? Essas e outras perguntas são cotidianas entre profissionais, e dificilmente causariam problemas, certo? Pelo contrário. Inúmeros LGBTs são diariamente levados a ocultar suas vivências no ambiente de trabalho, por medo de sofrerem ou já terem sofrido os mais diversos tipos de preconceito e discriminação.

Até mesmo a discussão em torno das peculiaridades do trabalho ainda é pouco abordada de forma séria. Muito se fala sobre representatividade, mas logo conclui-se que existem pouquíssimas figuras corporativas abertamente assumidas como LGBTs, além de poucas pesquisas e trabalhos de conscientização sobre o tema.

Dados da empresa de consultoria Santo Caos mostram que mais de 40% dos profissionais LGBT entrevistados já sofreram algum tipo de preconceito no ambiente de trabalho. Do total, 54% acreditam que exista preconceito no mercado, mesmo que de forma velada. A mesma pesquisa, intitulada “Demitindo Preconceitos”, mostra que 17.9 milhões de pessoas se identificam como LGBT no Brasil.

Outra pesquisa de uma empresa de recrutamento, Elancers, revela que quase 20% das empresas nacionais deixariam de contratar candidatos identificados como LGBT, e 11% só os contratariam para cargos sem visibilidade. Entre executivos, apenas 3 a cada 10 profissionais se assumem entre colegas de trabalho. Esse problema também não é exclusivamente brasileiro. Entre as 500 maiores empresas dos EUA, apenas Tim Cook, presidente da Apple, é assumidamente homossexual.

Essas pressões sofridas por profissionais LGBT impactam na produtividade, nas relações de trabalho, podem reduzir o tempo de permanência na empresa, impactam na vida pessoal. São violências diretas e indiretas sofridas diariamente por milhões de pessoas no mundo, e esse panorama só poderá mudar com o apoio das próprias empresas.

Abrindo portas

Diversas empresas multinacionais têm tomado a frente da discussão, como o Burger King e seu “hambúrguer do orgulho”, os milhares de funcionários da Apple que acompanharam a Parada LGBT de São Francisco em 2014, ou a American Airlines, que lança logos comemorativas no mês do Orgulho LGBT e após a aprovação do casamento LGBT nos Estados Unidos.

As mensagens de empresas internacionalmente reconhecidas são importantes para trazer o debate à tona. Estabelecer uma média geral para outras empresas seguirem é o primeiro passo a ser dado. Empresas de tecnologia, como IBM e Google, criaram grupos específicos para funcionários LGBTs, para que eles troquem experiências e discutam medidas de empoderamento dentro da empresa.

“É comum que empresas estabeleçam metas e acompanhem resultados. Por que não assumir metas anti-discriminação e acompanhar seus resultados?”

Ainda assim, 35% dos entrevistados na pesquisa “Demitindo Preconceitos” trabalham em micro ou pequenas empresas brasileiras. Nesses ambientes, a própria empresa deve estabelecer uma cultura de respeito, desde a liderança até o recrutamento. É comum que empresas estabeleçam metas e acompanhem resultados. Por que não assumir metas anti-discriminação e acompanhar seus resultados?

É importante que o trabalhador LGBT tenha plataformas para se afirmar, e apesar dessas ferramentas também serem essenciais, a responsabilidade sobre a aceitação não é do discriminado. Ou seja, cabe às empresas oferecer um ambiente seguro de trabalho, seja qual for a atividade ou idendidade do trabalhador. Os canais de reclamações internas, por exemplo, devem proteger a identidade do reclamante, e levar a sério as queixas dadas.

Em Minas Gerais, não existe uma delegacia para crimes de LGBTfobia, mas denúncias podem ser feitas pelo Disque 100 (Departamento de Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos), ou pelo Núcleo de Atendimento e Cidadania á População LGBT, telefone (31) 3291–3552. A segurança do indivíduo LGBT no trabalho não é uma pauta, é lei.

  • Lei Estadual 14.170, de 2002, penaliza empresas por atos discriminatórios em virtude da orientação sexual.
  • Lei Estadual 13.088, de 1999, proíbe “a exigência, em concurso ou processo de seleção de pessoal, de requisito relacionado com aparência, origem, raça, etnia, sexo, cor, credo religioso, convicção política, orientação sexual ou qualquer outra forma de discriminação”.

A HRC (Human Rights Campaing), ONG global de direitos LGBT, recomenda que trabalhadores observem o clima antes de se assumirem, como observar as políticas internas da empresa, caso incluam diretrizes contra discriminação, conversar com outros profissionais assumidos na mesma empresa, e que não se intimidem para denunciar qualquer tipo de LGBTfobia.

É comprovado que ambientes mais diversos proporcionam práticas mais inovadoras. Acabar com o armário corporativo é lucrativo para as empresas. A organização OUTstanding mostra que 85% dos trabalhadores entrevistados sente que gasta tempo e energia omitindo sua própria identidade, e destes, 61% revelaram que não conseguem se dedicar ao máximo para suas empresas.

Nas palavras da ONG Stonewal do Reino Unido, “as pessoas têm desempenhos melhores quando podem ser elas mesmas”.


Colaboração de Nathalia Pereira

Jornalista que acredita na palavra como meio para a mudança. Pesquisadora de causas, se aventura pela pesquisa em sustentabilidade, e (des)enquadra perspectivas entre a ciência e o fazer político.


Ilustração por Dandara Cha

Designer, apaixonada por literatura e teatro. Experimentadora de colagens e profunda conhecedora de música brasileira.

Açaí, Guimarães e Tropicália!

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