“Parei de estudar para reciclar”

Dona Terezinha, 56, é recicladora e com diploma. Foto: Bruna Fernandes

A foto que você está vendo foi tirada quase em frente à minha casa. 
Domingo. Quase meio-dia.
Aquele cheiro de churrasco percorria a rua inteira.
Um calor muito forte que fazia parecer verão, mas é quase inverno.

De dentro de casa avistei aquele carrinho atulhado de muitas coisas.
Sacolas e mais sacolas chegavam a esconder quem organizava tudo aquilo.
Larguei tudo que eu estava fazendo, entrei no quarto, peguei a sacola que estava com roupas de inverno que eu havia separado para doar, meti a mão na minha bolsa e catei o bloquinho e a lapiseira.

Quando saí no portão ela me olhou e sorriu.
Aguardei enquanto ela recebia mais doações de uma vizinha.
Terezinha Correa Ribeiro é a história de hoje.
Recicladora “pra mais de 20 anos”, como ela mesmo explica.
Moradora da Vila Rica em Cachoeirinha, ela tem 56 anos, é casada e tem cinco filhos.

“Eu tive que começar a reciclar quando eu via que naquele dia não ia ter nada pra comer em casa. Então eu saía por aí recolhendo lixo. Comecei a carregar as caixas de papelão nos braços e depois consegui um carrinho de supermercado, mas era pequeno e daí eu coloquei umas madeiras do lado pra poder carregar as sacolas”.

Um de seus filhos, um guri de 24 anos, tem problemas neurológicos e precisa muito da ajuda dela.
O marido, com quem é casada há 36 anos, era fotógrafo.
“Ele parou de fotografar porque não se adaptou com essas máquinas modernas. Ele recicla também, mas tá sempre reclamando da reciclagem”.

Além de sair todos os dias pela manhã pedindo doações e procurando coisas para reciclar, Dona Terezinha também faz faxinas quando o trabalho de reciclagem está fraco.
Ela parou de estudar na 7ª série, mas fez o curso de reciclagem e se orgulha do diploma de recicladora.

“Eu nunca sofri preconceito. As pessoas me tratam bem e eu sei conversar com elas porque aprendi isso no curso de reciclagem”.

Numa conversa rápida entre eu e a Dona Terezinha, mais pessoas iam deixando doações no carrinho.
Ela estava com pressa e queria ir logo para poder almoçar.
Acredito que foi embora bem feliz, afinal no carrinho dela não tinha mais espaço para doações.
Mas percebi que tinha ali espaço para muita força de vontade. 
Naquela rápida entrevista, sem hora marcada, senti que ali tinha esperança. 
E para ela, com certeza, um inverno mais quente.