“Sou de rua, mas quero dar um bom lar pra eles”

Dois carrinhos de supermercados cheios de muitas coisas.
Casaco da marca Lacoste, boné do UFC. Chinelos nos pés sujos.
Sete filhotes e a cadela Pérola.
Barba grande, meio grisalha meio amarelada.

Seu Valdemar não quis conversar comigo na primeira vez quando me apresentei. Muita gente na volta devido tanta beleza e fofura em um lugar só: sete filhotes de sua companheira, a cadela Pérola, ganhavam atenção de quem passava em frente à Prefeitura de Porto Alegre.

“Eu moro na rua pra não ser preso. Outro dia a gente conversa,” foi assim a minha primeira conversa rápida, mas muito amigável, que tive com Seu Valdemar.

No dia seguinte, encontrei ele e sua família na Praça da Alfândega aproveitando o sol de fim de tarde. Ele lembrou de mim e nossa conversa recomeçou. Me sentei ao seu lado e ele me contou como tinha virado morador de rua.

Valdemar de Lima é natural de Tenente Portela, tem 42 anos e há 15 mora em Porto Alegre. Disse que saiu de casa pois sua família é um risco. “Desisti de morar com eles. Minha família é um risco. Morava eu, 11 irmãos, minha mãe e meu padrasto. Todos traficantes”, lembra Seu Valdemar que vive há cinco anos nas ruas.

Ficou preso por 11 anos, maior parte do tempo na PEJ de Charqueadas, por alguns crimes que não quis comentar. Quando foi preso, a sua família vendeu tudo que ele tinha e fez sua casa um lugar de tráfico. Até hoje ele tenta recuperar a casa que fica na Cavalhada.

Enquanto ficou preso em regime fechado e também semiaberto, Valdemar estudou, aprendeu artesanato, aprendeu a plantar e também ficou viciado em crack. Hoje se diz recuperado e não usa mais nenhuma droga.

Quando saiu da prisão, Seu Valdemar passou alguns dias dormindo em pensão, mas um dia encontrou o cachorro Bob. Na pensão o Bob não podia entrar, então ele decidiu ir morar na rua com seu amigo.

- Ele era meu anjo de quatro patas. Me ajudou a não me meter em confusão.

Quando pergunto se ele teve filhos, respondeu risonho: “Tenho oito!”. Três moram em Sapiranga, cinco em Porto Alegre. Todos sabem quem ele é e onde vive. O mais velho trabalha em Porto Alegre e Seu Valdemar sempre passa para espiar o filho. Ainda paga duas pensões com o dinheiro que consegue fazendo reciclagem.

Hoje, a atração é Pérola e os sete filhotes que estão apenas com 22 dias. Todos já estão doados. Quando desmamarem, Seu Valdemar vai entregá-los. Menos uma. A única cadelinha da cor cinza foi batizada de Esmeralda e vai ficar junto com a mãe e Seu Valdemar.

Os sete filhotes e a mãe deles, Pérola, viraram atração no Centro de Porto Alegre. Foto: Bruna Fernandes

Rações são doações, a cerca que fica montada em volta dos filhotes e a coberta também foram doações. Antes eles ficavam o dia todo perto do Banco da Caixa, agora só podem ficar à noite. Durante o dia passeiam pelo Centro, fazem as pessoas pararem para dar carinho ou ficam dormindo pela Avenida Borges de Medeiros.

Agora que o processo que havia contra Seu Valdemar terminou, ele está limpo e livre. O sonho agora é seguir juntando dinheiro, cuidar dos seus anjos-de-quatro-patas e quem sabe ter um sítio para poder plantar e viver sossegado.