204

Sentou-se no parapeito da janela do apartamento 204 com o cigarro entre os dedos. E tinha nessa ação o poder de uma rebeldia só sua –não a do tabaco, mas aquela de utilizar a única saída não-convencional possível. Até ali, onde não era varanda nem porta, não sabia da necessidade de fugir. Sendo assim, acendeu o cigarro e soprou sua primeira fuligem do pulmão no alto daquele prédio de número –não lembrava o número- naquela rua do centro que também tinha um número -mas sempre foi um homem de palavras. Avistava em cada janela acesa uma possibilidade e pensava nas histórias que estavam sendo escritas ali naquele momento. E nas histórias que esperavam para serem lidas a luz do dia.Tragou novamente. Assinava sua sentença ele também ali. Nada tinha de diferente das putas que ocupavam a entrada neon da rua do centro -onde não se precisava de muito pra chamar atenção. Escrevia uma história com todas as incertezas de uma luz acesa. “Você que sabe tanto da história, conhece a de quem viveu aqui antes de você?”. O outro não sabia, não tinha como saber. Tragou novamente do cigarro. E se tiver morrido alguém aqui e houver um espírito aprisionado cheio de assuntos mal resolvidos querendo se meter no nosso sexo? Tem tanta gente que morre mal resolvida no sexo. Podia ter ali debaixo de tinta sobre tinta sobre tinta as marcas das vivências anteriores, os arranhões de prazer e de dor nas paredes do apartamento de número 204 naquela rua que já não fazia questão de lembrar no centro da cidade. “Não, não quero parar de fumar, estou bem com meu tabagismo”. Nos tacos também, podia apostar, era fácil de encontrar: o suor, as lágrimas, o bolor de gozo e sangue de tudo que já haviam vivido ali naquele apartamento e achava no rejunte o lugar perfeito pra sobreviver ao tempo. Ele nunca foi muito de pensar no passado, nessa coisa de alma, mas história lhe interessava muito sim, obrigado, queria beber alguma coisa. Afinal, estava ali escrevendo sua história; tal qual as putas lá embaixo escreviam seus futuros livros sobre os clientes algozes cafetões: tudo na vida viraria um dia inspiração, então história. Teria ali mesmo alguém morrido de amores –ou quem sabe morte matada por amor- ou pairava ali uma maldição nos amantes que não deixaria passar. Chegou a metade do cigarro. Pensou em quantas almas ali foram lavadas, jogadas pelo corredor, escorrido pelo poço do elevador escorraçadas pois já não cumpriam mais o papel de proprietárias do apartamento 204, no prédio de número desconhecido, na rua do centro da cidade que já nem interessava mais. Sim, ele deixaria de pensar e de fumar em um instante, mas precisava aproveitar aquele momento de rebeldia. Pendia de um lado ao outro brincando de equilibrista, desafiando a gravidade pelo prazer de estar na saída não-convencional mais óbvia daquele lugar. Logo estaria junto do outro, logo seria um, pra depois ser dois novamente porque corpo só desafia a física quando quer ser um, mas o instante não dura. Já tinha decorado o caminho da coxa ao pescoço do outro, assim como das ruas que desviara para chegar ali; das putas, dos mendigos, dos pedintes e das igrejas. Nada que exigisse um batismo cruzaria seu caminho. Ele correria de novo nos pêlos que já conhecia tão bem, na barba de homem que havia decorado desde o crescimento até as pontas e se perguntou quem antes também havia percorrido aqueles caminhos, quem teria suado ao lado daqueles poros e escorrido pelo ralo do apartamento; como tantos que ali tinha vivido. Que diferença faria na história, nos livros, nos filmes se não estivesse estado ali? Podiam sim, ver um filme, deitar e adormecer. Apagar a luz e deixar que o alvorecer decidisse os rumos daquela história. Decidiu que queria contar suas próprias histórias. Saltou da janela e apagou o cigarro, sem saber que aquela seria sua última noite no apartamento 204.

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