Algumas pessoas dizem ser felizes sozinhas e que se satisfazem somente consigo. Eu as entendo, pois faço parte delas. Em partes. Pode parecer controverso, e de fato é. Mas não estamos completamente sozinhos, estamos rodeados de pessoas o tempo todo. Não precisamos nos ligar a elas sempre, mas só de existirem, fazem diferença.
O discurso crítico mais comum no mundo pós-moderno é o extremo oposto, de afastamento e rompimento das relações interpessoais que termina em um vazio irreparável que nem um estádio de futebol lotado consegue curar. Também o entendo, pois também faço parte das pessoas que sofrem dessa solidão.
A questão é que estamos tão preocupados em nos definir que a complexidade do nosso ser cai no esquecimento e as nossas contradições se tornam invisíveis, porém, dessa forma, torna-se quase impossível o processo de autoconhecimento. É por meio do mais controverso que há dentro de nós que buscamos nossa verdadeira essência e o que somos. Essa que está muito bem escondida, tão bem protegida que nem nós mesmos conseguimos alcançá-la muitas vezes. É uma trajetória extensa, vai além da vida, mas não me refiro à religiosidade. Vejo essa busca por si, ou pela felicidade, como interminável, ela não terá um fim. Nunca. Nem que morramos com 100, 300, 1000 anos. Nunca nos descobriremos por completo e essa é a graça de se viver, mas também pode ser a angústia. Tudo depende de como levamos e de como a vida nos leva. Não temos controle sobre tudo, na verdade, pouco temos controle. Somos subordinados nessa trajetória, fazemos o que podemos e nem sempre o que podemos é o que necessitamos.
Quanto a solidão, ela dói, mas o isolamento é necessário pelo menos em alguma parte da vida para todo mundo. Alguns precisarão com mais frequência, outros nem tanto, mas isso não vem ao caso. Sofrimentos virão de qualquer forma para ambos. Os que se configuram na falta de alguém costumam doer mais quando há especificidade em relação a quem, porém são mais angustiantes quando se não sabe o porquê de e de onde vem esse vazio. O que deveria completá-lo? Um romance ou um gato? Talvez nenhum dos dois. Talvez nada venha a preencher esse vazio. Nada que você faça seja o suficiente. Idealizações podem surgir à partir disso. Expectativas também que, na realidade, não são tão esperadas assim. É como se desejo e pessimismo estivessem em conflito e você não sabe por quem torcer. O desejo parece o mais agradável a princípio, mas você já viveu o bastante para perceber o quão perigoso é desejar demais, pois nos decepcionados e a frequência de nossas decepções aumenta quanto mais ele se sobressai no seu conflito interno. Porém o pessimismo não requer nem explicação. Ele mata por dentro todas as esperanças e assim, desfalecemos. Nossa alma, ela perde o sentido. Essa que é pouco explorada pelas pessoas, poucos refletem sobre a alma ou sobre si na prática. No cotidiano, estamos todos correndo preocupados com o tempo e com o medo de falhar. Entretanto, muitos já falharam profundamente e nem mais se importam. Às vezes, chegamos ao ponto em que mais nada há dentro de nós e vivemos apenas para cumprir tabela, pois é assim que deve ser. Pelo menos, é o que dizem.
