Fazia tempo que eu não me apaixonava por um desconhecido. Quase acreditei que meu havia sido coração curado dessas tolices e estava trancado em uma caixinha de metal a sete chaves, nem sinal de telefone chegaria ali. Mas não, longe disso, o acontecimento de hoje me provou o contrário, porém nada que me fizesse obcecar ou sofrer por aquilo, só uma situação leve e cômica, característica de uma comédia romântica padrão.

Hoje eu me apaixonei por um desconhecido. Ele era alto, tinha cabelos bem cortados e arrumados para esquerda, seu rosto era diferente, seus traços eram leves e um pouco femininos, seus olhos e boca me pareciam pequenos para seu formato de rosto, mas tudo em conjunto o tornava tão bonito para o meu pobre coração – ou para meus hormônios, porque a atração talvez seja mais fisiológica do que qualquer outra coisa – de qualquer forma, eu não resisti a tal beleza e me deixei levar por aquela breve paixonite.

Fiz meu pedido à ele no Spoleto, onde ele trabalhava e onde o havia conhecido e visto uma única vez. Talvez o dia lhe tenha trazido estranheza por eu estar ali, uma jovem que muito provavelmente deveria estar nas filas enormes das redes de fast food daquele shopping que estavam numa feroz e estúpida corrida capitalista para conseguir clientes em meio a black friday. Apesar da aparente estranheza, ele foi atencioso ao ouvir o que eu pedia, mas ainda parecia desconfiado e quando finalmente seu colega de trabalho me sugeriu um molho rosê ou algo a mais em meu prato, eu disse:

– Não, não. Só ao sugo mesmo. – Eu já havia pensado esse pedido em casa e até pesquisado a origem dos alimentos e havia descoberto que, nesse mesmo ano, o tal molho sugo do Spoleto havia se tornado vegano e tudo que eu mais precisava nesse dia era um prato de macarrão bem quentinho sem que eu precisasse prepará-lo, já que meu dia andava muito mal.

E foi nesse instante que ele percebeu e expressou o que pensava e ao entrecortar seu colega que iria dizer mais alguma coisa, ele perguntou:

_ Você não come carne, né?

Eu respondi bem seca que não. Mas em meus pensamentos eu estava muito grata pela atenção que eu havia recebido. Eu estava tão desacostumada a isso que estava por alguns minutos perdida no meu raciocínio. Mal percebi que a moça no caixa já me chamava pela terceira vez e quando notei que estava muito tempo parada olhando para ele, fingi que estava distraída em meus próprios pensamentos, tentando evitar que percebessem como uma simples pergunta havia me afetado. Aquele moço tão bonito prestou atenção, pelo menos o bastante para despertar nele alguma curiosidade sobre mim e isso confortou meu coração – que nesse dia em específico estava precisando de uma ajudinha extra para se acalmar – e recebeu mais do que uma macarronada.

Toda essa situação me trouxe reflexões que julgo importantes, como a percepção de que o que outras pessoas pensam ou expressam sobre mim tem uma influência enorme em como eu me sinto e isso é algo que tenho que trabalhar. Talvez tenha sido a carência que me levou de volta a uma paixão instantânea e efêmera, mas essa breve memória, ao menos, foi gostosa e renovadora.

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