Sistema engessado

A correria começava às 4:30 da matina. Impreterivelmente teria de estar dentro do carro e saindo as 5:15 para chegar a tempo de recolher as assinaturas dos residentes e demonstrar extrema autoridade para que entendessem que a dedicação a qualquer propósito começa pela determinação e esta tem de ser conseguida diariamente, diria ,momento a momento. 
O dia se revestia de inúmeros e insondáveis desafios, a busca sempre pelo melhor para o paciente ali a frente de nós, aguardando o momento de se “ desligar” deste recinto inóspito que é uma sala cirúrgica. Começávamos pela sedação e a tranquilidade das palavras apropriadas ao instante. Precisávamos de um tempo para expor qual a melhor “ técnica” a ser utilizada ao “ caso clínico” ali , tempo para responder ou “ achar” respostas aos questionamentos de, no mínimo, quatro diversas personalidades, olhando para os meus olhos e nos deles eu podia depreender: busca ao conhecimento, desafio a professora, desconfiança se era o melhor a seguir ou o que leu na noite passada . Havia momentos em que se predominasse o tal “questionamento “ usávamos do imbatível lema: palavras suaves , argumentos fortes! — não tinha erro!
E assim se passaram 35 , 37 anos . Creio que se buscasse na memória , cada dia teria textos imensuráveis aqui.
- em um destes dias perdidos por aí neste tempo citado a enfermeira se dirigiu a mim dizendo: Dra. tem uma senhora, há horas , aguardando para falar com a senhora. Nesta correria acho que já lhe falamos mas creio que ainda lhe aguarda.
- Um piscar de olhos eu tinha diante de mim uma senhora de cerca de 70 anos , a face enrugada ,cabelos ralos grisalhos presos e as mãos ainda firmes segurando uma criança com cerca de 5 anos . Ao ser perguntada se era por mim que esperava ela com voz suave, com aquela humildade digna de almas imensuráveis disse que sim , que eu era a esperança maior dela em resolver a sua cirurgia. Ela contou brevemente a verdadeira “ via Crucis “ que uma pessoa dependente do SUS passa e estava passando para se submeter a uma cirurgia de vesícula. Disse que já fora chamada para vir mas sempre não fora possível por faltar o exame cardiológico que seria exigência “ minha” e que todas as vezes o exame demoraria meses e desta ultima vez o “ aparelho” quebrara. Ela então voltou a clínica e disseram que eu não aceitaria submetê-la a um ato anestésico cirúrgico sem o exame , e que por isto ela viera falar comigo devido às dores terem se tornado mais amiúdes nos últimos meses. Retornei meu olhar àquela senhora com sua bolsinha rôta , a ansiedade nos gestos, a pobreza em termos materiais mas a riqueza das intempéries de uma vida, ditas de forma sem censuras , sem rodeios, sem fantasias, ausente de sonhos, real . Após perguntas cruciais e que me guiaram clinicamente a dispensar o tal exame disse a ela que a esperava ainda aquela semana para a cirurgia. Voltei devagar para a rotina de minha vida não antes de permitir a mim mesma a revolta a um sistema que mudou de nome incontáveis vezes com certeza para justificar mais verbas , mais gastos para a saúde e absolutamente certo mais votos . Os nomes , inúmeros , não mudaram um sistema que nasceu de uma constituição dever do estado que o é mas que nasceu “ engessado” em manhas , artimanhas, engrenagens sutis ou não, corrupto , corruptível desde o porteiro do hospital aos “ mandatários” sentados em salas nababescas , cercados de mognos e serviçais regiamente pagos com total ignorância dos quilômetros percorridos por uma senhora de 70 anos responsável por uma neta porque a filha tem de trabalhar. Desconhecem os cerca de 6 quilômetros percorridos para levar a escola a criança -ela tem de estudar doutora” enquanto limpa a casa , cozinha , varre o quintal pequeno, sobe e desce para limpar a calha tosca que se as folhas caírem entra água “ doutora”. Desconhecem tudo sobre o que seria coordenar “ saúde pública”. Passam pelas cadeiras nababescas médicos cujo registro foi cassado -este é o correto- passam engenheiros!!!!!!!!( agora acho que sai algo “ concreto”)
- Ainda bem que existe, ainda , dentro de nós a jovem sonhadora de 22 anos com um diploma de médica debaixo do braço e que lutou e luta até o fim para não esmorecer diante de desmandos e mais desmandos , reformas e mais reformas de um sistema que reitero nasceu e continua engessado a serventia dos senhores feudais deste lindo país in natura.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.