CO.R 100 MAIS ENTREVISTA

Lilian Liang— Saúde e longevidade

A Lilian é uma daquelas pessoas que você se apaixona nos primeiros minutos de conversa. A gente teve o enorme prazer de recebê-la na CO.R e saber mais sobre sua trajetória cheia de coragem e de encontro com o tema que ela ama: a saúde e suas implicações na longevidade.


“Meus pais são de Taiwan e sempre vivi uma cultura
de muita reverência ao idoso”.

Quem é a Lilian e sua história

Sou jornalista, mas sempre gostei muito de saúde e de estudar sobre o corpo humano. Até cheguei a entrar na faculdade de medicina, mas acabei optando por jornalismo porque gostava muito de escrever, conversar e ouvir histórias.

Depois da graduação em jornalismo, fiz meu mestrado nos EUA e fui selecionada para fazer parte do programa de treinamento de jovens jornalistas da Kaiser Family Foundation em um jornal chamado The South Florida Sun-Sentinel, baseado em Fort Lauderdale. O programa treinava repórteres na cobertura de saúde. Entendi que era possível conciliar a medicina e o jornalismo para abrir canais de comunicação e gerar mudanças.

Em 2003, conheci um outro lado da cobertura de saúde, à frente de uma revista chamada Universo Visual. Era uma revista científica, que fala sobre oftalmologia para oftalmologistas, ainda em circulação. Através dela, tive a oportunidade de participar de congressos médicos e aprendi a decifrar o jargão médico-acadêmico.

Depois de quatro anos, recebi uma proposta para trabalhar em Johannesburg, na África do Sul, numa agência de notícias ONU chamada PlusNews Português, especializada na cobertura de Aids nos países africanos de língua portuguesa (Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe). Foram dois anos de aprendizado e produção intensos, numa mistura de jornalismo e ativismo que se tornou o norte de todos os meus trabalhos desde então.

Voltei ao Brasil em 2009 e passei dois anos dedicada à cobertura da oncologia, mas de um aspecto estritamente científico. Sentia falta da variedade de temas que cobria na África e o impacto que as matérias tinham.

Acabei por encontrar o que procurava na geriatria. Depois de conversas com inúmeros médicos — e aqui destaco a dra. Marcela Cypel, o dr. João Toniolo Neto e a dra. Claudia Fló –, fui identificando o envelhecimento como um fenômeno inevitável, que vem acontecendo numa velocidade incrível. E, assim como a Aids, o envelhecimento traz consigo outras questões.

Porém, embora esteja acontecendo a olhos vistos, o envelhecimento ainda é pouco compreendido não só pelo público, mas pelos próprios profissionais de saúde. Foi para preencher a lacuna de conhecimento entre os profissionais que desenvolvemos o conceito da revista Aptare – Geriatria e Gerontologia para Especialidades Clínicas.

Aptare quer dizer “tornar apto”, em latim, e é esse o nosso objetivo: tornar o médico apto para cuidar melhor de seus pacientes, que vão viver cada vez mais, e, assim, tornar o paciente apto a usufruir dessa fase da melhor maneira possível.

Que mudanças precisamos conquistar como sociedade para habitar essa nova realidade coletiva, com pessoas vivendo mais de 100 anos?

Tudo começa individualmente. É preciso mudar os hábitos pessoais de alimentação, incorporar a atividade física na rotina e, claro, estar engajado na vida. Muitas vezes, o idoso acha que, porque tem uma determinada idade, ele não tem mais com o que colaborar, quando na verdade existem inúmeras atividades com as quais ele pode se engajar, tornando o envelhecimento uma fase produtiva também.

Mas acredito que, ainda mais importante do que os esforços individuais, é uma mudança no pensamento coletivo. A sociedade precisa se conscientizar de que o idoso tem um papel útil e importante. Enquanto ela não acolher esse idoso e der a ele o espaço necessário para que ele continue a crescer e a se desenvolver, os esforços individuais de cada um para um envelhecimento saudável e produtivo acaba perdendo seu impacto.

E quais são as mudanças que a área da saúde precisa conquistar?

Por muito tempo, o envelhecimento foi associado a doenças. Hoje essa percepção vem mudando e a associação já não acontece de maneira tão automática. Mas da mesma forma que é importante desvincular o envelhecimento da doença, como se fossem sinônimos, também é preciso tomar cuidado para não criar o mito do “superidoso”, que tem recebido bastante destaque na mídia.

O problema do “superidoso” é que ele passa uma outra ideia errada do envelhecimento: a de que um envelhecimento bom e saudável é aquele em o idoso pula de paraquedas e corre 15 maratonas por ano. Esses não são a maioria da população idosa no Brasil, embora tenhamos cada vez mais histórias como essas.

Quando saímos do pensamento de que envelhecer é sinônimo de doença e passamos para a ideia de que envelhecer bem é ser um superidoso, estamos indo para os extremos de um movimento pendular. Acredito que quando se fala sem saúde é essencial buscarmos uma visão de equilíbrio, porque é ele que, no longo prazo, vai trazer uma longevidade com qualidade de vida.

Que oportunidades você vê na área da saúde nesse contexto?

Acho que cada vez mais migraremos do modelo de medicina ultra-especializada para um movimento que vê a saúde como um modelo multi e interdisciplinar. Com essa junção de saberes, creio que surgirão novas oportunidades e modelos de saúde. Já existem profissionais repensando suas formas de atendimento e consultório. O paciente idoso é extremamente peculiar, porque geralmente tem múltiplas condições que precisam ser abordadas por uma equipe de profissionais.

Por causa disso, acredito que a tendência é que os serviços que trabalham com esse público terão que oferecer uma gama de atendimentos diferentes em uma única localização. Ganha o paciente, mas ganham também os profissionais com essa troca de conhecimento e experiência.

Felizmente, estamos saindo de um modelo superespecializado, em que o paciente é muitas vezes visto apenas como um órgão, para enxergar o paciente como um todo, como alguém que tem necessidades fisiológicas, psicológicas, sociais que devem ser abordadas também.

Qual é o papel do Estado na mudança de consciência coletiva?

Muita gente diz que precisamos de mais leis que trabalhem a questão do idoso. O Brasil já tem boas leis específicas para isso — o Estatuto do Idoso completa 12 anos em 1o de outubro — mas o que falta é implementá-las de uma maneira mais sistemática. O problema é que o idoso não é prioridade entre tantas questões que são urgentes para o governo e, por isso, o envelhecimento acaba indo para o final da lista. Mas isso é algo que o Estado terá de repensar, tendo em mente que a população de idosos no Brasil só vai crescer. Já existem muitas iniciativas interessantes acontecendo, mas elas são pontuais e com um efeito pequeno diante da necessidade que temos hoje e teremos no futuro. Para que sejam criadas soluções de impacto e de longo prazo, bem como uma mudança na forma como que se encara o idoso, é preciso que o próprio governo entenda essa população como uma prioridade.

Que mudanças precisamos conquistar como sociedade para habitar esse nov realidade coletiva com pessoas vivendo mais de 100 anos?

Precisamos começar as mudanças de hábitos físicos, alimentação, fazer exercicio, etc. E é claro,e estar engajado na vida, porque muitas vezes o idoso acha que chegou numa determinada idade e não tem mais nada para colaborar. Na verdade, existem muitas coisas e atividades que ele pode se engajar e tornar o envelhecimento uma fase produtiva também.

Mas acho que mais importante que os esforços individuais, é haver uma mudança no pensamento coletivo. a SOCIEDADE precisa se conscientizar de que o idoso tem um papel na sociedade e um papel útil e importante.

E quais são as mudanças que a área da Saúde precisa conquistar?

Por muito tempo, associamos o envelhecimento à doenças. E hoje não existe essa associação tão automática, mas uma coisa que precisamos tomar cuidado também é o enfoque da mídia no envelhecimento do superidoso.

O superidoso é o idoso criado pela mídia: “Um envelhecimento bom e saudável é o idoso que pula de paraquedas e corre 15 maratonas por ano, dessa forma estamos indo para os extremos do pêndulo. Esse não é idoso que vemos como grosso da população idosa”.

A gente precisa ir menos para os extremos do pêndulo quando se fala em saúde e acredito que precisamos buscar uma visão de equilibrio, porque é ele que em longo prazo vai trazer a longevidade com qualidade de vida.

Que oportunidades você vê na área da saúde dentro desse contexto?

Acho que cada vez mais vamos sair do modelo de medicina ultra-especializada para um movimento que ve a saúde como um modelo multidisciplinar. Com essa junção de saberes, acho que vão surgir novas oportunidades e modelos de saúde. A gente já vê médicos repensando os modelos de atendimento e escritorio. Pricnpalmente na questão do envelhecimento, teremos uma gama de serviços que ajuda no cuidado do idoso. Acho que o modelo será cada vez mais multi/interdsiciplinar.

Tudo acontece num movimento pendular. Viemos muito na questão do médico especializado naquela área especifica do pé e agora a gente vem para o outro lado que é ve o paciente como um todo e não só como um pé. Alguem que tem necessidades fisiologicas, psicológicas, sociais que devem ser abordadas também.

Qual é o papel do Estado na mudança de consciência coletiva?

Uma das coisas que discutimos em congresso é a questão das leis. Acredito que temos boas leis, o Estatuto do Idoso, por exemplo. As leis existem, o que falta é coloca-las em pratica. A questão é que o idoso não é uma prioridade entre tantas questões que são urgentes. Ele acaba indo pro final da lista. Essa é uma questão que acredito que o Estado precisa repensar tendo em mente que a população de idosos só vai crescer. Apesar de vermos muitas iniciativas interessantes, elas ainda são pontuais com efeito pequenos, sendo que precisaremos cada vez mais de soluções grandes.