O Inter de 97 é melhor que o Barcelona

Dizem que eu só critico o Inter. Não é verdade. Eu sou difícil de impressionar, mas não tenho problema em elogiar quem merece.

Vejam o caso do Internacional de 1997. Analisando jogador a jogador, eu não tenho problemas em dizer que ele era melhor que o celebrado Barcelona de 2016.

Esse é o Inter de 1997, um time muito superior ao Barcelona de 2016.

CELSO ROTH É MELHOR QUE LUIS ENRIQUE. A comparação só parece despropositada: ambos começaram a sua carreira no clube rival; Luis Enrique é das Astúrias, uma espécie de Caxias desse grande Gauchão que é a Liga Espanhola; os dois são a contra-parte séria de um treinador mais faceiro (o que me lembra: ABEL BRAGA É MELHOR QUE GUARDIOLA).

A diferença entre os dois é que Roth ironizava jornalistas e pegava pesado com os seus jogadores do alto da autoridade moral que lhe conferia um dos mais épicos bigodes da história do futebol brasileiro. Luis Enrique, por outro lado, treinou a Roma (não o Brasil de Pelotas), é ciclista e usa óculos espelhados.

ANDRÉ É MELHOR QUE BRAVO. Nessas alturas do campeonato espanhol, Bravo levou cinco gols em sete jogos. É uma média parecida com a de André na primeira fase do Brasileirão de 1997: 21 gols em 25 jogos.

A diferença é que Bravo, goleiro de um time que tem um meio-campo empenhado em nos matar de tédio com passes laterais, fez apenas 20 defesas. André, por outro lado, tinha na sua frente uma zaga formada por um volante improvisado, Régis, Márcio Tigrão e Espíndola.

ENCISO IMPROVISADO É MELHOR QUE DANIEL ALVES. O volante Enciso improvisado na lateral é muito melhor que o lateral Daniel Alves improvisado no meio. Que diabos, Enciso improvisado na lateral é melhor que o Daniel Alves jogando de lateral: não é nem pelo seu histórico de decisões ortodoxas ao cortar o cabelo, é porque eu já vi ele acertando um cruzamento. Também já vi ele usando uma camiseta do Inter por baixo da do Olímpia em um jogo contra o Grêmio — Alves usaria a do seu verdadeiro time: Paco Rabane.

MÁRCIO TIGRÃO É MELHOR QUE MASCHERANO.

Na primeira metade de 1997, Márcio Tigrão parecia o Figueroa. Claro que, na segunda metade de 1997, a torcida colorada descobriria que, ao lado do Gamarra, qualquer zagueiro nota 2 viraria um nota 9. Ao lado de Régis, Márcio Tigrão voltaria a ser… Márcio Tigrão. Mas Mascherano, talvez por sempre jogar ao lado do Piqué, nunca pareceu o Figueroa.

RÉGIS É MELHOR QUE MATHIEU. Régis foi um pereba, é certo, mas Mathieu também é. Mas naquela época ninguém achava genial o treinador que improvisava um zagueiro na lateral. E a vantagem de Régis na lateral, além de atrapalhar menos, é que ele jogava bem perto da Coréia pra ser vaiado. E no Camp Nou a gente sabe que ninguém vaia ninguém.

GAMARRA É MELHOR QUE PIQUÉ

Permitam-me colocar isso em termos que até você, da Geração Playstation (™ ® Corneta Europa), única pessoa capaz de duvidar da superioridade de Gamarra sobre Piqué, é capaz de entender:Gamarra jogou uma Copa do Mundo inteira sem fazer uma falta, com uma oitava-de-final contra a França, dona da casa e futura campeã, que incluiu prorrogação e ombro deslocado. É o jogador que mais jogos fez pela seleção paraguaia. Gamarra se antecipava tão bem que se casou aos 15 anos de idade. Visita diariamente o santuário da Virgem de Caacupé. Questionado sobre como marcar Neymar, em 2011, respondeu: “Eu peguei a época de Robinho, a melhor época de Ronaldinho Gaúcho, é a mesma coisa, são sempre iguais. Ficam passando o pé por cima da bola. É só deixar ele fazer isso que dá certo. Só ficar olhando”.

A única diferença entre Piqué e Alex Silva é que um gosta de bandas indies e o outro de pagode. Cada vez que Piqué veste a camiseta da seleção espanhola, é vaiado. Só casou com a Shakira depois de 4 anos de indiretas através da imprensa. Vai no Sonar todo ano. Nunca terá a humildade de reconhecer, como Nilton Santos, que a sua carreira só existe porque ele joga no mesmo time que Messi e Neymar.

Gamarra é melhor que Piqué até no PES.

FERNANDO É MELHOR QUE BUSQUETS. Quando as pessoas falam de volantes europeus modernos, eu lembro de Busquets. Ele basicamente é titular do Barcelona há sete anos graças ao que por lá chamam “mala leche” — traduzindo, ele tem fama de mau no grande jardim de infância que é o futebol europeu.

Fernando, por outro lado, era um primeiro volante que sabia fazer lançamentos longos, o que coloca ele em um patamar moralmente superior aos demais volantes — principalmente a aqueles que, como Busquets, vivem de passe curto para o lado. Fora isso, ele encerrou a sua carreira aos 42 anos no próprio Beira-Rio, mas jogando pelo Santo André, o que é um destino mais digno que aquele ao qual Busquets está condenado. No caso, ser um fracasso no Arsenal antes de voltar a Barcelona na reserva de um catalão do momento.

ANDERSON É MELHOR QUE RAKITIC. Da Zero Hora, em dezembro de 97: “Está comprovada a tese de que a morfina encontrada no antidoping do jogador Anderson pode ser encontrada no pão com sementes de papoula. Três repórteres de ZH realizaram testes para verificar se a explicação do Inter tinha fundamento científico. Seis horas após comerem 100 gramas do pão, os repórteres se submeteram a um exame antidoping. (…) A quantidade de morfina encontrada foi cinco vezes maior que o mínimo para o resultado ser considerado positivo”.

Enquanto isso, que contribuição teve Rakitic para o MUNDO CIENTÍFICO? Além disso, só um deles apareceu em capa de jornal abraçado na mãe.

SANDOVAL É MELHOR QUE INIESTA. Sandoval, na verdade, ganha por WO: só calculando as competições principais do ano, em 1997 ele entrou em campo 57 vezes, marcando 9 gols. Em quase 15 anos de carreira, Iniesta somente atingiu essa marca uma vez: na temporada 2006/2007, quando participou de 56 jogos e fez 9 gols. Ele ultrapassaria a marca dos 50 jogos só uma outra vez (2013/2014, 3 gols).

Iniesta só é um representante da escola do catalão que passa pro lado (parecida com a escola do atacante brasileiro ciscador) e sempre estará à sombra de Xavi. Naquele meio Sandoval não estava a sombra de ninguém. Mas para efeitos simbólicos, esclareço: SANDOVAL É MELHOR DO QUE XAVI.

Ok, vamos admitir: MESSI É MELHOR QUE ARÍLSON.

Mas, que conste: Arílson pelo menos teve a decência de fugir da concentração da seleção brasileira e terminar com suas perspectivas em troca de uma noite de farra ao invés de ser convocado mil vezes para não fazer nada. [Nah, eu vou ser sincero: só escolhi o Messi porque ele nunca jogou no Grêmio]

CHRISTIAN É MELHOR QUE LUIS SUÁREZ. A camisa 9 somente pode ser dignamente vestida por dois tipos de jogadores: aqueles que são o Romário e aqueles contra os quais o zagueiro tem medo de trombar. E até o Chiellini não gostaria de trombar com Christian de 1997. Forte, rápido e goleador. Suárez, por outro lado, não é o Romário. E com essa história de que ele é um craque pelas “assistências” que dá, vou ser obrigado a dizer que OSÉIAS É MELHOR DO QUE LUIS SUÁREZ: pelo menos tinha a decência de dizer que FAZ PAREDE.

FABIANO É MELHOR QUE NEYMAR. No dia 24 de agosto de 1997, Fabiano, então com 22 anos, recebeu um lançamento perfeito de Enciso. O espaço que havia a sua frente vai ser ocupado, em um futuro próximo, por quatro dos oito blocos da COHAB que a OAS vai construir no terreno do Estádio Olímpico. Fabiano não correu: na verdade, ele até diminuiu a própria velocidade. Foi alcançado por um lateral-esquerdo que, apavorado, só conseguia andar para trás. Ainda mais devagar, chutou a bola com o lado de dentro do pé, como se fizesse um passe para a trave esquerda do goleiro juvenil adversário. A lentidão, a postura, o capricho: tudo era reflexo de uma mente que pensava “FAZ ISSO DIREITINHO”.

Com a bola no fundo das redes, saiu correndo em direção à linha lateral. Sem saber se rezava ou se caia no chão, parecia um maluco. Foi o terceiro gol do Inter, o segundo de Fabiano (que ainda deu o passe para outros dois gols), em uma vitória de 5x2 sobre o Grêmio.

Em 26 de outubro de 2002, Fabiano tinha 27 anos. Fora de forma, com problemas nos dois joelhos e carregando o apelido de Fabiano Cachaça, era um ex-jogador: iniciaria no ano seguinte no Mogi Mirim e terminaria no Acadêmica de Portugal. Começou o Grenal disputado naquele dia no banco, um em que Celso Roth estava de volta pela vigésima vez. No final do segundo tempo, derrotado, torcida colorada só tinha uma coisa na qual se abraçar: a mística. O estádio foi tomado pelo grito de “Uh, Fabiano!”. Daquela vez, não adiantou.

Em 28 de outubro de 2008, eu estava no pátio do Beira Rio, em frente ao falecido Gato do Alemão, horas antes de um Grenal no Brasileirão. Começou a se ouvir uma gritaria ao longe. Andando sozinho no meio da multidão, sem fones de ouvidos ou óculos escuros, vinha Fabiano Cachaça.

Ele andava da maneira como uma lenda viva anda: flutuando centímetros acima do chão. Em determinado momento, os torcedores decidiram carregar ele sobre os ombros. Alguém deu um copo de cerveja para o homem, prontamente derramado. Quando deixaram Fabiano em frente à entrada dos camarotes, porque o Inter é sempre o Inter e não deixa de ser o Inter para ninguém, ídolo ou não, uma voz gritou na multidão: — “Mas e essa camisa azul Cachaça? Tira essa camisa azul!”.

Fabiano se virou uma vez mais para a multidão, tirou a camisa azul bebê que estava usando, atirou ela no meio da multidão e entrou seminu pela porta de vidro. O Inter ganhou 4x1 aquele Grenal. Outros jogadores chutaram a bola para as redes, mas eu comemorei quatro gols do Uh! Fabiano.

Enquanto isso, alguns dias atrás, Neymar, 23 anos, recebeu um cruzamento de Luis Suárez na entrada da grande área. Com um toque, deu um chapéu em um zagueiro morto de amarelo e uma volta sobre o próprio corpo. Quase no ponto de pênalti, chutou a bola sem deixá-la encostar no chão. Trotando na direção da câmera e girando os dedos ao redor da cabeça, comemorava o golaço pensando no inevitável prêmio Puskas que lhe aguarda no momento oportuno.

Daqui cinco anos, ninguém se lembrará que Neymar fez um golaço contra um time de morto qualquer e que veste amarelo. Daqui trinta anos, a torcida do Inter, se encontrar Fabiano Cachaça na frente do estádio, ainda o carregará nos ombros até a porta dos camarotes.