O Inter do Gauchão de 2004 é melhor do que o Grêmio atual

Corneta Colorada
Jul 30, 2017 · 6 min read

“O atual time do Grêmio é o melhor do que o Inter dos anos 70”. Pode parecer uma fanfarronada de um tiozinho bêbado de boteco, mas é a grande polêmica do Rio Grande do Sul na última semana.

O assunto foi introduzido, aparentemente a sério, em letras de forma na coluna de Davi Coimbra na Zero Hora.

Não é de se estranhar que isso tenha acontecido.

O RS sempre está a um passo da grenalização. Essa não é nem a mais idiota que já surgiu.

Como, ao contrário da RBS, o Corneta Colorada se pauta pela honestidade, objetividade e razoabilidade na hora de entrar em polêmicas furadas, não vou me engajar na comparação proposta por Coimbra, a quem eu desejo apenas que siga sua carreira jornalística mantendo apenas o senso de realidade suficiente para não sair nu na rua.

No lugar disso, vou provar que o atual time do Grêmio é pior que o vistoso Inter do Gauchão de 2004.

O ÓBVIO

Lori Sandri era um treinador melhor do que Renato Gaúcho nas suas virtudes e nos seus defeitos.

A principal virtude que um treinador de futebol precisa ter é saber identificar o que é um pereba e o que é um bom jogador. Em 2004, Lori chegou ao Inter e identificou um pereba: Oséas. Para o seu lugar, indicou o que considerava um bom jogador: Fred, então uma jovem promessa do América-MG. Teve que se virar com Cidimar, Neto, Geílson, Dauri, Beto Cachoeira, além do próprio Oséas.

Em 2017, Renato identificou um pereba (Henrique Almeida) e indicou para o seu lugar o glorioso Jael. Teria que se virar com Jael se não tivessem jogado Lucas Barrios no seu colo.

Por outro lado, o principal defeito de Lori era a facilidade com que ele culpava os seus próprios jogadores pelas derrotas do time.

Isso até pode ser a verdade muitas vezes, mas é uma péssima política de administração de vestiário — como Renato sabe muito bem.

No entanto, no Inter do Gauchão de 2004, esse defeito se revelou uma virtude: a boca grande do Lori só serviu para acabar com a carreira de Tiago Saletti, o zagueiro que “se achava o Figueroa”, e levar à demissão do próprio treinador, que se inviabilizou depois de xingar meio time para defender a escalação de Fernando Miguel.

Pode parecer um exagero dizer que acabar com a carreira de um jogador e causar a sua própria demissão são acertos.

Mas o fato é que Lori se livrou de um zagueiro ruim em quatro meses, enquanto que Bressan está lá recebendo salário há quatro anos. Além disso, ser facilmente demitível, por si só, já é uma das maiores virtudes que um treinador pode ter.

Quando o Grêmio enfileirar duas eliminações seguidas, vai cair o presidente, o vice-presidente, o estádio e metade do grupo de jogadores.

Enquanto isso, Renato continuará lá, pronto para a terceira eliminação, até decidir voltar para o Rio e deixar um buraco negro no Humaitá.

Lori Sandri foi demitido depois de duas derrotas (uma delas para o Santos, na Vila Belmiro) e isso só virou uma crise duas semanas depois, quando anunciaram a contratação de Joel Santana.

MENOS ÓBVIO, MAS AINDA ASSIM FÁCIL

Clemer é melhor que Marcelo Grohe: ele podia tomar uns frangos e nos matar com os golpes de vista, mas crescia nos momentos decisivos e não precisou ficar esperando dez anos para ganhar algum título.

Bolívar é melhor do que Edílson: a carreira dele só deslanchou quando ele virou zagueiro, mas Edílson nunca vai virar zagueiro.

Chiquinho é melhor do que Cortez, Nilmar é melhor do que Pedro Rocha e, no duelo do 12º jogador, Rafael Sóbis é melhor do que Éverton: são afirmações tão pouco polêmicas que não causariam um bate-boca nem entre Kenny Braga e Paulo Sant’anna em um dia de amendoim liberado no Sala de Redação.

BASTA NÃO SER UM COMENTARISTA MODERNO

Wellington, Marabá e Cleiton Xavier são melhores do que Maicon, Michel, Artur e Ramiro

Os atuais idiotas da objetividade tem uma tara pelo que eles chamam de “volantes modernos”.

É o nome bonito que se encontrou para designar o volante que “sabe atacar e defender”. Aquela coisa maravilhosa que o resto do mundo chama de segundo volante, ou camisa oito.

É uma tara que tem dois, e apenas dois, fundamentos: permite que a sua escassez seja atribuída à “concepção de futebol” (outra de abstração adorada) retrógrada dos dirigentes de futebol, e não à dificuldade natural de se encontrar um jogador que saiba fazer duas coisas, e não só uma, e uma associação imaginária ao futebol europeu, como se esse fosse formado só por Xavis, Kroos, Modrics, Scholes e nenhum Busquets, Gravensen, Casemiro ou Carrick.

Isso, além de uma prova de que os atuais idiotas da objetividade são mais idiotas e menos objetivos do que os idiotas da objetividade do passado, é um dos principais elogios que se faz ao atual time do Grêmio: Maicon, Michel, Artur e Ramiro são volantes modernos.

Pois bem: se o time do Grêmio é bom porque é moderno, o que dizer de um time que já fazia isso treze anos atrás, enquanto a maioria dos comentaristas modernos de hoje lidava com as complexidades de ir ao banheiro sozinho?

O Inter de 2004 era mais do que moderno: era visionário.

Mais ainda por ter sabido perceber que isso era uma faceirice: quando as fases iniciais do Gauchão acabaram (com Inter ganhando dois Grenais com esse meio-campo) e o Brasileirão começou, Lori Sandri foi lá e fechou a casinha com um volantão e mais um zagueiro.

NÃO TÃO ÓBVIO

Alexandre Lopes é melhor que Geromel; Oséas é melhor que Luan

Eu entendo o desespero. Em 2004, eu estava desesperado: o Inter não ganhava nenhum título há doze anos, e estava a dois de voltar a ganhar.

Naquela época, eu teria trocado por um título qualquer parte da história do Inter, com tal de que ele fosse imediato.

A vantagem em Grenais? Trocava por um Brasileirão. O campeonato invicto de 79? Trocava por uma Libertadores. Figueroa, Falcão, o Grenal do Século e o melhor estádio do RS? Fazia um pacote e trocava por uma Intercontinental.

O Oséas e o Alexandre Lopes eu teria trocado por um pacote de amendoim. Depois da troca, eu sairia correndo pra garantir que o pobre infeliz no qual eu passei a perna não pudesse se arrepender.

No entanto, separado daquela época por treze anos, duas Libertadores e um Mundial, eu pude contemplar o passado e compreender. O Inter sempre esteve atrás de um zagueiro grandalhão e técnico, com jeito de carioca: aquilo que nos fez ver em Alexandre Lopes um zagueiro marrento que se achava craque e era um naba. Ele, como Júnior Baiano ou Gonçalves antes dele, apenas não era o nome certo. No método de tentativa e erro, chegamos no nome certo dois anos depois: Fabiano Eller.

O Inter sempre esteve atrás de um centroavante trombador que soubesse cabecear e tabelar com o outro atacante: aquilo que nos fez apelidar Oséas de “centroavante pedreiro”, contratado para fazer parede. Ele, como Anderson Barbosa e Fernando Baiano antes dele, apenas não era o nome certo. Desesperado, eu não tinha como saber que o nome certo chegaria seis meses depois, graças ao contato do igualmente desprezado Marabá: Fernandão.

O futebol, no final das contas, não era apenas uma sucessão randômica de eventos. O sofrimento, as pequenas conquistas, os Duílios e os Gamarras, os Alexandre Rottweillers e os Gélsons, os Paulinhos McLaren e os Mahicon Librelatos faziam um sentido: eles apontavam para um caminho. Eu e a história estávamos sendo preparados. A proximidade e o desespero, no entanto, ocultavam as maquinações do Destino.

Nesses quinze anos sem títulos, o desespero do gremistas se transformou em uma visão moral para o futebol. Centroavante tem que ser caneleiro. Volante tem que dar pau. Zagueiro tem que ser argentino. Alguém tem que ter barba e a cara sangrando. Futebol de verdade acontece em um potreiro esfumaçado e se disputa com uma seleção de hunos.

Para um gremista, era melhor jogar bem do que ganhar: só que, na sua particular visão de mundo, jogador bem era jogar horrivelmente. Essa visão moralista do futebol era a base da empáfia gremista: o Grêmio, claro, não ganhava nada, mas é que a Libertadores não era mais um campeonato de sangue e glória como antes. Nunca antes na história um time atribuíra tanto sentido ao seu sofrimento e à ruindade: era a imortalidade, era “o nosso camisa dez é o cinco”, era o “treino é jogo, jogo é guerra”.

Noutras palavras: era exatamente o contrário do futebol de Luan, o craque desligado que joga através de toquinhos e não suja o calção. Era exatamente o contrário de Pedro Geromel, o capitão com cara de guri de apartamento que nunca jogou no futebol sulamericano. Era exatamente o contrário de abandonar um estádio cinquentenário para ir morar na beira da faixa em um estádio com banheiros de mármore.

Eu entendo: sei o que é estar desesperado. Eu teria trocado tudo por um título: os gremistas trocaram tudo por uma Copa do Brasil.

Corneta Colorada
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