O problema oculto do Inter

Estranhos rituais noturnos.

Só existia uma forma de se acompanhar o Inter x Paraná de forma coerente com o absurdo da atual situação colorada: através da Rádio Grenal.

Para os seus ouvintes mais despertos (ou apenas despertos), já ficou claro que a Rádio Grenal é, na verdade, um experimento sobre a natureza enigmática do real e das limitações de tentar compreender o mundo pelo prisma da razão.

A conclusão se tornou dolorosamente óbvia durante o jogo da última terça-feira, no qual o comentarista da Rádio Grenal atribuiu, repetidas vezes, algo que todos podiam enxergar (o Inter é um time horrível) a problemas que “nós não estamos vendo”.

Sim: o homem que trabalha em uma rádio que se dedica a cobrir a dupla Grenal 24 horas por dia atribuiu os problemas do Inter a forças ocultas.

Ao afirmar a impossibilidade do compreensão racional do Inter, a Rádio Grenal tropeçou involuntariamente em uma verdade: o problema do Inter não é evidente, como se poderia pensar analisando o amontoado de jogadores pornográficos que passa pela sua escalação, mas oculto.

Quando disse “coisas que nós não estamos vendo”, o comentarista da Rádio Grenal estava falando, é claro, de atrasos no pagamento de salários e rixas no vestiário.

Ou seja, estava falando da ilusão materialista que a sua mente primitiva criou para reduzir o verdadeiro problema do Inter à escala de sua compreensão.

A verdade que salva e liberta é que o problema oculto do Inter é o ocultismo.

Não há mais hipérbole quando as pessoas chamam o Beira-Rio de templo.

O estádio se tornou um lugar em que se celebram sacrifícios ritualísticos, enquanto o público entoa mantras malditos (“coloca o Cláudio Winck”, “demite o Zago”).

O sacrifício ritual dos inocentes é encenado pela Popular, na qual jovens são martirizados em meio a longas litanias sem significado e com rimas ruins.

Enquanto se flagela com a visão do Internacional jogando futebol, o torcedor aguarda os próximos passos do ritual: o pacto, o pensar jogo a jogo e a entrega de todas esperanças ao messias salvador de turno.

É uma conclusão fácil de se alcançar para os colorados que sobreviveram aos anos 90.

Não é apenas porque eles já passaram por isso, com uma pequena, mas importante, diferença: os zumbis invocados nos rituais modernos não encontram no Portão 8 o vórtex para retornar a sua dimensão.

Diante desses fatos, você, jovem leitor racionalista utópico, poderia concluir que a solução dos problemas do Inter consiste na iluminação: a torcida colorada precisa ser esclarecida sobre a verdadeira natureza de suas dificuldades e afastar-se da influência do nefasto.

Isso também é uma ilusão: a ilusão de que os problemas do Inter, um time que escala regularmente Junio, Léo Ortiz, Danilo Silva, Uendel, Fabinho, Marcelo Cirino, Nico López e Brenner, e que procura respostas em Cláudio Winck, podem ser solucionados.

No final, nada mais nos resta. Oremos.