Tive um sonho ontem à tarde, dentro de um sonho de ontem à noite. Caminhava, como sempre caminhei, sozinho, como sempre estive, por lugares nos quais incansavelmente cansei de jamais estar. Os pássaros me assombravam, os pombos sobrevoavam o céu de paisagens sacras, defecando sutilmente, como todos os dias o sol se põe e deita nas silhuetas calmas do meu coração adoecido. Às vezes havia paredes. Às vezes minhas mãos tocavam uma madeira envelhecida, como nas casas de antigamente, e eu podia sentir a umidade que a tornava inchada. Podia sentir a areia fina e branca marcando o chão, as janelas frágeis e entreabertas. Coloniais. Casa sem forro. Sem portas. E o acalanto de se emocionar tão forte com os detalhes de uma arquitetura como aquela doía mais do que tudo, pois me era tão cara, mais cara do que toda a minha vida inteira, e ainda assim eu percebia que o malogro e a má sorte viriam em forma de nuvem, como havia sido profetizado pelos ventos. Pelas vozes das pessoas que sussurravam e, quando o faziam, soltavam no ar aquela voz perdida, a ermo e sem fim, sem jamais ter fim, que me entrava a casa, que me invadia os móveis, e deixava ali o seu cheiro de esquecimento, de desfalecimento. Mesmo assim eu não parava de andar. Passeava pelo quintal fresco e arejado, como num dia que prevê uma chuva, quando venta frio e forte, balançando tristemente aquelas roupas brancas que tanto lembram aqueles fantasmas, ou aqueles momentos em que de nada se lembra. Lá longe vinha uma nuvem, que dizia para mim e para todos, por meios e formas das quais não sei ou entendo, que uma peste iria se espalhar, que uma doença viria governar o mundo, que aquele lugar inteiro, aquela casa, com aquela varanda bonita e simples, iria presenciar, passando pela estradinha tinha que ficava na sua lateral, na qual passavam transeuntes e alguns automóveis, uma nuvem escura sem fim, lenta, ignorante, entediada, e as pessoas iriam gritar e chorar, sufocadas por inalar aquela atmosfera, asfixiadas e entaladas de completa solidão. A nuvem que se move. De onde será que ela vinha, que ares estranhos e anômalos a mim traziam tal coisa deselegante, invasiva e desconfortável para a morada das moradas, para as areias amontoadas das beiras de praia, do vapor quente que aquecia aos mãos tremidas? Mas eu sabia. Eu sempre soube, eu sempre soube. As coisas se repetiam e a existência de cada uma delas corroborava e afirmava a outra. Por isso enquanto caminhava pela praia, tendo saído pelo umbral dianteiro da casa, e alcançando assim a capela que havia na beira da água, eu me ajoelhei e rezei, implorando piedade aos deuses meteorológicos, chorando baixinho a carícia que vinha do vento marítimo. A água estava tão boa que poderia me matar de dor. Matar de adoecimento e pena de mim mesmo. Daquele lugar desmanchar e evaporar como a poeira preta que cai do carvão queimado. E tudo se apagar em cinzas, até que só sobre um único sentimento, a mais pura nostalgia. As pessoas corriam e choravam enquanto eu via, no horizonte que passava pelo topo da capela, a mancha escura se formar e se avolumar. Nada podia ser feito. Meu lugar não suportou tanta dor. Tanta espera. A nuvem era feita da espera e do que esta espera me fazia. Me dizia e alertava, como quem nasceu apenas para aquilo. Meu coração explodiu. Meu corpo infartou de desgosto. Eu acordei.