Cadê minha paixão?

Corrêa
Corrêa
Nov 4 · 4 min read

Em 2013 eu estava no 8° ano do ensino fundamental. Minha professora de português se chamava Jarliane e foi em uma de suas aulas que eu me dei conta do quanto eu gostava de escrever. Parecia muito fácil pra mim, mesmo tendo ciência de que não era a melhor escritora, as palavras só saiam da minha mente e eram colocadas onde quer que fosse naturalmente.

Escrevi muitos contos nesse período e pelo menos dois livros inteiros. Eu amava Crepúsculo, Percy Jackson, Harry Potter… Foram minhas maiores inspirações. Perdi tudo isso, hoje em dia mal lembro dos nomes dos personagens que criei. Amava fanfics também, virava noites e noites lendo-as. Algumas dessas eu ainda tenho e volta e meia leio com o carinho de quem hoje em dia não conseguiria fazer a metade daquilo.

Em 2014 eu comecei a escrever pra um site de notícias. Basicamente traduzia de fontes inglesas e dava uma abrasileirada no conteúdo, usando da minha perspectiva latino-americana em assuntos totalmente americanizados. Nem sei se isso é permitido por lei, provavelmente não, mas eu amava a sensação de estar criando algo, de ter pessoas lendo o que eu escrevi. Nesse mesmo ano tive aulas de redação com uma professora chamada Julianny e novamente eu vi que poderia fazer aquilo. Aprendi de verdade a escrever, tecnicamente melhorei anos luz. Escrever sempre foi mais do que uma válvula de escape para mim onde eu me projetava nos personagens que eu criava, mas uma forma de me comunicar com as pessoas.

Sempre tive essa dificuldade. A comunicação é difícil quando você percebe que sua cabeça funciona de uma forma diferente. A personalidade não ajuda, a agressividade na fala também não… Por isso eu escrevia.

Mantive esse hábito até 2015 e ali foi quando as coisas começaram a desandar. Entrei no IFRN com muito esforço, mas quais cursos poderiam acentuar minha vontade de escrever? Nenhum. Escolhi eletrônica pelo hype. Naquele mesmo ano perdi a minha irmã e não consegui escrever uma palavra sequer sobre, não consegui falar sobre. Minha mãe chegou a me perguntar se eu tinha sentimentos, se estava triste, se sentia qualquer coisa. Sempre penso que uma grande parte de mim morreu naquele ano também. Não consigo me lembrar de quase nada. O que eu perdi foi muito mais do que consigo expressar hoje.

Minha adaptação ao ensino médio foi dolorosa. Sempre havia sido uma aluna acima da média, talvez porque era estimulada pelas professoras certas ou porque não havia tanto em jogo anteriormente, mas agora eu nem chegava a ser mediana. Conciliar meu luto, minha saúde mental e a expectativa que caiu sobre os meus ombros foi demais pra mim. Com muito esforço cheguei ao segundo ano, mas não consegui passar dali.

Lembro de ter crises de ansiedade assim que pisava no campus. Lembro de chorar manhãs inteiras. Lembro da enfermeira do IF que já havia se acostumado a me fazer chá de camomila e medir minha pressão todos os dias. Lembro de simplesmente não dormir, não comer. Foi uma bola de neve que me fez simplesmente abrir mão tanto de mim, quanto da minha paixão.

Decidi largar o ensino médio com 17 anos de idade. Nunca assisti uma aula de biologia na vida. Dei meu melhor, mas simplesmente não conseguia. Ter que focar em números, circuitos etc me tirou totalmente o foco do que eu realmente amava. 2017 foi o meu ano sabático. Costumo dizer que toda a merda de adolescente possível eu fiz nessa época, mas ao mesmo tempo foi revolucionário. Vez ou outra encontro pequenas anotações que eu costumava fazer como “O que eu gosto?” “O que eu não gosto?”. Ver hoje que eu simplesmente não sabia mais quem eu era me assusta. Imagina chegar ao ponto de simplesmente não saber mais os seus próprios gostos?

Com a maioridade em 2018 veio vários outros dilemas. Primeiro, como eu iria fazer o ENEM naquele ano se eu havia largado o ensino médio no início do ano anterior? Como eu conseguiria entrar na universidade depois de tantos anos mentalmente instável? O que danado eu iria cursar? Já não gostava muito de nada, não me sentia apaixonada por nada que não fosse estar politicamente envolvida com o movimento estudantil. Mas decidi tentar. Com a cabeça mais calma, dormindo melhor e com a ansiedade controlada, consegui voltar a ir pro IF todos os dias, não pra assistir aula, mas pra estudar por mim mesma.

Percebi que não é em toda sala de aula que eu gosto de estar, que por incrível que pareça, eu gosto de estudar sozinha. Descobri também que matemática não é tão difícil quanto eu achava. E principalmente, que haviam professores dispostos a me auxiliar mesmo depois de eu ser jubilada, que eu era bem vinda ali. Usei o IFRN ao meu favor pela primeira vez e não sei se foi pela maturidade ou pela saúde mental, mas eu fiz o que pude durante o ano todo.

Daí veio o ENEM e essa experiência foi interessante. Não me considero a pessoa mais espiritualizada do mundo (isso é papo pra outro dia), mas lembro de rezar demais. De tomar um banho de sal grosso nos dois dias, de pedir que meus guias abrissem meus caminhos e me auxiliassem da melhor maneira que pudessem. Sentia muito Oxalá comigo.

De alguma forma, depois de tudo isso, consegui entrar em Direito na UFRN. Meus pais choraram de felicidade e essa conquista significou mais pra mim intimamente. Lidei como se fosse um recomeço e de fato está sendo. Eu perdi tudo em 2015, mas passei cada dia seguinte tentando reconstruir e recuperar o que poderia ser reconstruído e recuperado. Fiz as pazes com muito do que me assombrava e esse trabalho foi DURO.

Hoje, a única coisa que me incomoda e me tira o sono é essa perda: a paixão pela escrita. Eu não sei se ainda sei escrever, não sei se ainda sou boa, não sei se minha criatividade ainda me permite criar histórias, ou se minha forma de comunicação consegue ser colocada em palavras, mas aqui fica minha primeira tentativa depois de anos.

Esse é provavelmente o recomeço mais difícil de todos porque sinto que jamais vou conseguir ser o que era em 2013 e 2014, mas nada impede que eu seja melhor.

Corrêa

Written by

Corrêa

porque eu sou sulamericana de sp infelizmente

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade