O dia em que eu desisti dos meus cães
“Olha lá, Thiago, bate uma foto dela!”

Dia sim, dia não, frequentemente meu pai insistia que eu sacasse o celular ou pegasse a câmera para fotografar a Cléo, a gata vira-latas que tínhamos em casa. Uma gatinha pequenina, magra, charmosa e habilidosa para passar entre objetos frágeis e frestas sem encostar sequer a ponta dos seus pêlos macios.
Foram várias as vezes em que ignorei os pedidos do meu pai. “Ela já tem um monte”, “Ela sempre faz essa pose”. Enfim, ainda moro com meus pais e minha irmã, e não havia quem, aqui em casa, não se encantasse com a gatinha. Mesmo eu, que sempre preferi cães — nada contra gatos, pelo contrário, já que a Cléo convivia com mais dois no mesmo teto.
Infelizmente essa não é uma história que termina feliz. A nossa mimosa Cleozinha fora tirada de nós na manhã de um sábado. Num episódio inesperado, para não dizer cruel e inexplicável, que entre outras coisas me lembrou que a nossas buscas por razões e filosofias costuma ignorar que nossas vidas também são frágeis ao inexplicável.
Não foi por acaso que disse que a Cléo fora tirada de nós. Também não foi por acaso que disse que sempre preferi cães. Aqui em casa temos 3, um casal vira-latas e uma pastora alemã. A fêmea vira-latas em função da idade e pêlos curtos fica dentro de casa durante as noites frias. Até então, a pastora alemã sempre foi dócil, sempre brincalhona, pedindo carinho e querendo brincar com qualquer coisa. Inclusive os gatos. Mas sempre mirando no caçula da casa. A Cléo passava despercebida.
Mas a Cleozinha foi tirada de nós numa manhã de sábado. Da pior forma possível. Uma manhã em que acordei, desliguei o despertador, e voltei a cochilar. Sem imaginar que alguns minutos depois acordaria às pressas com os gritos do meu pai, tentando conter a cachorra. Ela e o vira-latas macho atacaram a gata.
A ficha não me caía naquele momento. A Cléo tinha um olhar aflito. Havia sangue na parede, mas ela não tinha ferimentos visíveis. Minha primeira reação foi tirá-la de lá e lavar. Ela miava estranho. Arfava. Lavamos ela, e conferindo que não tínhamos encontrado nenhum ferimento, mas ela não se mexia, fomos para o veterinário. Chegamos lá sem noção do que pudesse estar acontecendo. A veterinária a viu, começou o diagnóstico, e seu semblante mudou após a primeira checada do estetoscópio. Percebi os olhos arregalando. A injeção de adrenalina. as massagens na Cléo. Movimentos rápidos, checagens repetitivas. De repente, a notícia de que ela estava tendo parada cardíaca.
A doutora fez tudo o que pôde. Minha irmã segurava o choro. Para mim, a ficha ainda não caía. Mas então, em menos de uma hora que me levantei naquela manhã, vi a gatinha tão delicada e sutil engasgando nos seus últimos esforços. E assim a Cléo se foi. Diante dos meus olhos. A ficha não caía.
As lágrimas vieram. Quando se trata de um animal de estimação, sempre tive a impressão seria até infantil um luto pela passagem do bicho, até que perdi meus primeiros cães. Com a Cléo não foi diferente, mas foi pior. Percebi o desespero dela, talvez sem entender nossa falta de cuidado, nossa falta de conhecimento. Coisas que sussurram na minha cabeça que algo poderia ser feito, mesmo com o diagnóstico de hemorragia interna feito pela veterinária e a inevitabilidade do óbito.
Nossa princesinha descansou. O nó na garganta se manifesta com essas palavras. Inclusive meu pai, que mal chorou na morte de sua mãe, embargou a voz ao lembrar que a gatinha que ficava na sua cama em meio aos papéis de trabalho, não estará mais lá.
Não teremos a Cleozinha novamente se metendo entre nós e o computador. Entrando em armários e caixas. Até o momento, o que tenho são as lágrimas que se confundem entre a perda dela e a forma como aconteceu.
Sim. Conviver com os cães que a mataram não tem sido fácil desde que aconteceu. É latente a sensação de que eles não valem mais a ração que comem. Tentar ignorar a ideia de doar para alguma empresa de segurança a pastora. Morreu com a Cléozinha o afeto que eu tinha pelos dois envolvidos. E as oportunidades de fotografar seu charme. Devia ter escutado mais meu pai.