Que preguiça dos gurus.

Aqueles que te dizem para parar tudo o que está fazendo e prestar atenção neles. Aqueles que dizem que a sua vida vai mudar completamente depois que você ouvir o que eles têm para dizer.

Eles parecem estar em patamares que você nunca vai alcançar por conta própria. Eles parecem ter meditado tanto que atingiram o Nirvana. Eles parecem ter conquistado tudo o que você sequer imaginava sonhar profissionalmente.

Mas gurus não são assim. Gurus têm o frenesi por interromper seu fluxo porque isso é o ganha-pão deles. Gurus mudam a vida deles completamente porque receberam ou construíram uma base para alicerçar seu sucesso trabalhando duro como você faz hoje. Gurus conquistaram o sucesso profissional deles aceitando rotinas de trabalho sem uma remuneração adequada — não precisando ser uma financeira, mas qualquer tipo de apoio.

Eles fizeram isso tudo para cair num esquecimento daqui a cinco anos. Virão outros gurus. Inspirados neles. Erguidos através do conhecimento deles. E isso pode ser uma ferramenta de transformação social fascinante. Mas e aí? Os gurus te disseram como se sentem infelizes por não ter o tempo que queriam com seus filhos? Como o medo de atingir o fim do ápice — se ainda não os atingiram — acaba com eles?

Lembro de uma designer que ministrava um workshop do qual participei há alguns anos. Num momento da aula, ela disse que era necessário que o profissional se especializasse no seu nicho — e ela tanto se especializou que não sabia a diferença entre Helvetica e Arial. Talvez isso seja como um padeiro não saber te descrever a diferença entre pão cervejinha e pão francês.

Existe o discurso de que o pato nada mas não é um mergulhador, voa mas não é uma águia, etc etc. Viva a especialização sobre o perfil médio! E quem te disse que ser mediano é ruim? Se fosse assim, porque há 105 anos o Maillot Jaune, a camisa amarela entregue ao líder e celebrado vencedor do Tour de France, a mais famosa Grande Volta ciclística e o maior evento esportivo do mundo, é o atleta que, com um desempenho mediano nas etapas planas, contrarrelógio e escaladas, consegue completar a prova de 21 dias no menor tempo total?

Gurus são bons, são inspiradores, são um coringa no efeito borboleta natural que tange nossas vidas nas esferas sociais, profissionais, sociais, mas você já parou para pensar como às vezes endeusamos quem no fundo apenas quer conquistar seu espaço e viver em paz? Como idolatramos, num certo gesto de gratidão, gente que vem de uma cadeia que produz a si mesma mercantilizando o altruísmo?