Ensaio sobre a insónia

Ter uma insónia é terrível. Mais terrível do que isso é ter várias insónias. Seguidas. Sendo uma vítima do segundo caso — não nestas últimas noites, mas em recentes; e noutras antes das recentes — dou-me ao luxo de ter a sensação de que tenho algo a dizer sobre o assunto.

A relação que estabelecemos com a insónia é muito complexa. A insónia é uma entidade particular. Por exemplo, desde logo por estar a considerá-la como uma entidade, com vida e vontades próprias; com uma personalidade vincada com que custa lidar. Não nos iludamos. É a insónia que manda. É ela que não nos deixa dormir quando queremos dormir. Aliás, quando o que mais queremos é dormir! Portanto, além de mandona, a insónia é ardilosa e não se deixa iludir facilmente. Não vai lá com cordeirinhos ou outras contagens, nem com um pouco mais de leitura, nem com um filme daqueles que se vêem para adormecer, nem com exercícios de respiração ou meditação, nem com uma dose mínima de valeriana. Fica ali a marcar a sua crescente presença. A encher tudo à volta. A grande e poderosa insónia!

Sendo assim, devemos sentir e mostrar respeito por quem nos tem nas mãos. Devemos aceitar a companhia e fazer com que não se vá embora abruptamente, porque ela assim não vai; quase nunca — tudo tem excepção. A insónia só se irá embora quando quiser. Mesmo que lhe chamemos nomes feios, ou roguemos daquelas pragas que só o desespero da falta de sono feito conhece. Porque entretanto há duas situações distintas: a insónia de estar sem sono e a insónia de estar com sono. Ou seja, o querer dormir porque o tempo está a passar e amanhã — que se torna num hoje — há que levantar cedo; e o querer dormir porque se está morto de fadiga e os olhos não colam. Qual delas a pior…

Devemos então aceitar a companhia que ela nos faz. Só assim conseguiremos aborrecê-la tanto de tédio que acabará por se ir embora. Não lhe devemos dar atenção, por mais que se imponha. E já que temos tempo, podemos afinal ler mais, ver mesmo um filme inteiro, ir beber um chá ou uma água ou fazer qualquer outra coisa. Não me estou a esquecer das dificuldades da inércia que bate forte, daquele leve atordoamento assente na esperança de que vamos conseguir adormecer a qualquer instante e que nos entorpecem, ainda mais. Mas é desta companhia desacompanhada que a insónia não gosta. Mais tarde ou mais cedo, ela desaparecerá. (É pior se for mais tarde, pois é.)

Ao pensar na insónia, penso que esta poderá ser susceptível a um sentimento de familiaridade. Já não é algo estranho que se apodera de nós; é, afinal, a insónia outra vez. Há qualquer coisa em ter uma insónia que nos move para uma categoria diferente, que mais não é do que a categoria dos que têm insónias: aqueles que percebem os horrores e as capacidades do fenómeno. E não adianta explicar a quem nunca sofreu de uma do que se trata, o alcance da ideia será limitado, apesar da suposta solidariedade.

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