Um elogio ao mar

Carina Correia
Aug 22, 2017 · 2 min read

Estamos em Agosto, mês de férias, de relaxe, de empatias e amores. Os famosos amores de Verão. Muitos deles passageiros, outros verdadeiros tesouros descobertos em mergulhos de cortar a respiração. Estamos também num tempo de praia, para quem gosta, como se entende. Eu gosto. É a minha confissão de hoje.

A praia tem em mim um poder como quase nada tem. Gosto dos meus pés na areia, dos banhos no mar, do Sol a tocar-me, dos barulhos distantes e indistintos dos outros, dos finos na esplanada viva, da quietude que se sente no ar. Mas, para que não haja enganos, e para espantar a ideia de que afinal do que gosto mesmo é de férias, o que me alenta verdadeiramente é o mar, e o seu desfrute.

O mar é poderoso, todos sabemos. Provoca em cada um de nós sensações diferentes, é verdade, mas ninguém nega que a imensidão da água salgada tem um poder do caraças. E não é unicamente a grandeza por si só. É o seu movimento, mesmo quando em sossego, a sua ondulação variável, o seu cheiro, as suas cores, o barulho presente, como quem se quer fazer ouvir sempre.

Vejo o mar como vejo todas as outras coisas: depende dos meus olhos no momento. Ou me assusta, ou tranquiliza, ou oprime, ou me dá esperança. Muitas vezes, sim, dá-me esperança. Dá-me vontade de querer, de fazer, de sentir. Esta sensação de ser envolvida, ou invadida, por algo que mais não é do que o efeito do mar. Não sei dizer de outra forma.

A minha avó G. costumava dizer que «o mar puxa tudo». Referia-se, sempre acreditei, a façanhas do corpo: uma crise de sinusite que iria desabrochar, uma expectoração que iria dar em tosse, uns poros que se iriam abrir para limpar a pele, ou algo do género. Mas tudo por bem, tudo para nos curar. O que hoje percebo desta aparentemente simples afirmação, e que não sei se ela assim percebia, é que de facto o mar puxa por tudo. Por emoções também. Por uma espécie de nostalgia feliz. Por uma sensação de equilíbrio entre nós e o resto, que de resto não tem nada.

Talvez seja também por isso que gosto tanto de escritores ligados ao mar. Joseph Conrad, por exemplo. Sempre me fascinou o facto de pessoas que vivem ou viveram no mar, ou junto do mar, entenderem tão bem a natureza humana. Assim, num primeiro olhar, dir-se-ia que não. Mas é incerto, como muitos dos primeiros olhares sobre as coisas. Os pescadores são admiráveis conversadores, muitos deles sábios até. O mar dá-lhes a força que transmitem e a sensibilidade de entendimento do mundo que, instintivamente, têm.

Quem sabe o mar não é mesmo uma analogia com o Homem. Calmo e bravo; azul e cinzento; sociável e solitário; quieto e extrovertido; quente e frio; brincalhão e sisudo; bom e perigoso; verdadeiro e trapaceiro; cheio e vazio; atraente e repulsivo.

Avó, sabias disto afinal?

)

    Carina Correia

    Written by