Illa Nebulim | Background: Aminah de Altaneiro

[Introduçao feita pela jogadora] Aminah de Altaneiro do clã vassalo da família Montebelo de Morrosverdes. Prestou juramento para servir a casa Dal Morav durante dez anos, como forma de compensar o erro do julgamento do pai.

Os Altaneiros de Morrosverdes são uma casa vassala famosa pela qualidade de sua lã, através da criação de carneiros. As cores que representam este clã menor são o ocre, muito próximo da cor da lã de seus preciosos carneiros.

Todas as crianças Altaneiras aprendem desde o cedo o ofício de sua casa, aprendendo todo o processo desde a criação dos animais até o envio da lã para o comércio local e para as demais terras.

Tradicionalmente, o chefe da casa também tem de cumprir com o posto de juiz perante o grande clã dos Montebelo. Desde que a primeira Altaneira teve o privilégio de forma esta casa vassala, sempre seguiu o principal herdeiro, tanto homem quanto mulher, assumindo esta função.

Aminah deveria seguir este passo, por ser a filha mais velha e a mais preparada dentro os irmãos. Exatamente por isso, deixou de lado seu direito como primeira filha e, para resguardar a família, assume o juramento perante dal Morav.

O risco disso é imenso, em vista do fato de que Montebelo e dal Morav serem inimigos praticamente declarados e Aminah, estando na posição de leal a casa rival, torna-se com este ato uma pária para seu povo.

Como a maioria dos habitantes de Morrosverdes, Aminah parece uma mistura entre o chamado povo das fadas e os sussanechs, com os longos cabelos castanhos avermelhados e olhos mel, de altura mediana. Sua pele, apesar de clara, porta um bronzeado de brilho dourado de estar constantemente trabalhando sob o sol.

Tendo sido colocada para fazer trabalho de reconhecimento dentre dal Morav, usa roupas masculinas, próprias para a tarefa e com as cores do clã: verde e castanho, próprios das florestas da região de Milquimera.

[Narrativa escrita pela jogadora]
Os ventos batiam no meu rosto, mas não adiantava o quanto eu não gostava daquela situação, eu não sairia dali. Minhas juntas já reclamavam o tempo na mesma posição. Ver o que estava a frente e aguardar pela chegada do mensageiro, essa era a missão do dia. Pela posição do sol, logo as cores da noite iriam se apossar do céu e quem quer que fosse que eu deveria buscar estava atrasado. Muito atrasado.

O sol avermelhado parecia se preparar para deitar ao poente, inundando de um alaranjado e arroxeado tudo a sua volta. Ao longe uma silhueta pareceu se delinear contra o momento vespertino. Ali estava o mensageiro afinal, ao que parecia. Vinha na direção certa, parecendo andar sem qualquer pressa. O momento parecia ser somente dele.

Aguardei a aproximação, haveria uma senha a ser passada por ele, se fosse quem eu deveria esperar. Apesar de já terem se passado cinco anos desde aquele dia, o amargo fazia parte da minha rotina e dessas pequenas tarefas que pareciam querer me empurrar.

— La vida do por el raki. No puedo dexarlo…

Não consigo compreender esse costume de usarem essas trovas bufônicas para esta tarefa, porém, irei cumprir com meu dever até o final e assim respondo:

— De bever nunca me harti, de tanto amarlo.

— Venha e apareça guardiã. Tenho pressa de chegar a caravana.

Não, não ele, por favor que meu cérebro esteja me pregando uma peça. De todas as pessoas que poderiam ter me ordenado de buscar, o mensageiro não podia ser aquele que quase provocara a ruína de minha casa. Apertei a capa que portava e segurei com minha mão direita o broche com as armas e cores da casa dal Morav, do qual ele era um dos possíveis herdeiros.

— Senhor Faruk, aqui estou para levá-lo. — Não tinha outro jeito. Aproximei-me dele e abaixei a cabeça, aguardando o seu assentimento. Por ser quem era, parecia que nada deveria ser reservado a minha pessoa e simplesmente seguiu a minha frente com passos largos em direção a ermo. — Se o senhor me aguardar, poderei lhe indicar o caminho correto.

Olhou-me com um estranho brilho, eu o surpreendera. Não me deixei levar por essa pequena satisfação, apenas virei-me de costas para ele e segui em frente. Ele não demorou a logo me seguir, pois pude ouvir um leve farfalhar vindo do solo atrás de mim.

Ao menos em relação aos demais, Faruk não brindou nossa caminhada com piadinhas sem sentido sobre minha fingida lealdade. Na verdade, a mim, passava a impressão de estar perdido em pensamentos com alguma coisa que lhe incomodava. Se eu tivesse que apostar, era algo que lhe tomava todos os pensamentos.

Isso não deveria trazer qualquer mudança em meu íntimo e era um alívio ver que estávamos chegando ao acampamento. Quando ele se deu conta disso, avançou como se eu não lhe acompanhasse e seguiu para a barraca principal, onde seu pai estaria com os outros.

Eu resolvi ir para os fundos do acampamento e ficar no meu posto, onde teria alguma tranquilidade e sair da confusão que começava a se instalar pelo início da noite. Puxei o capuz por sobre a minha cabeça e enrolei a capa por cima dos ombros, tentando escapar da friagem que começava a tomar conta.

A ceia noturna logo sairia, e o melhor que eu poderia fazer era ir tirar logo a minha parte e tratar de ficar no meu canto longe dos demais. Segui para onde estavam armadas as tendas dos cozinheiros e me servi de um pouco do ensopado que fora feito.

Recostei nos tonéis de vinho um tanto quanto escondida de todos para aproveitar aquele pouco tempo para os meus pensamentos. As imagens de meus pais e irmãos se formaram em meu íntimo. Mais de mil dias já se passaram sem estar com eles e a saudade de quem tinha o convívio diário me abatia de maneira dolorida. Não iria me deixar levar por este sentimento, pois não queria que me pegassem com as lágrimas soltas.

Pena que ainda não poderia dormir, viria bem a calhar nesse momento. Ainda tinha alguns momentos de descanso antes de assumir meu posto de vigia pelo próximo turno. Considerando isso, lembrei que não vira Raed lá a caminho daqui. Não era comum que ele fizesse isso.

Intui que pela vinda de Faruk, devem ter dado a parte dos soldados uma breve festa para animá-los. Podia ouvir as vozes de mulheres e homens cantando canções tradicionais ao estilo das terras de Milquimera. Já não me soavam estranhas, mas a cantoria parecia ficar cada vez mais barulhenta ao longe.

Tive meus pensamentos cortados por uma sombra que rapidamente contornava as tendas, parecendo estar direcionada para um local específico. Não gostei daquilo, ninguém ali era sorrateiro daquela forma. Deixei de lado o prato que portava e puxei o punhal de lâmina curva que levava a cintura.

Segui o caminho feito pela sombra, dando-me conta que ele seguia para a tenda principal. O brilho das fogueiras pelo qual ele passou, mostrou-me que suas roupas eram negras e sem qualquer vislumbre do azul marinho e verde Dal Morav. Não era ninguém do nosso grupo.

Antes que eu pudesse formar uma estratégia melhor me vi pulando em suas costas com o punhal na altura do pescoço. Não previra que devido ao tamanho dele, fosse tão forte. Ou eu que era fraca? Não queria matá-lo, porque de nada serviria para um possível interrogatório.

Alguém pareceu ouvir nossa luta. Distraída com esta percepção, o estranho conseguira me atingir com uma cotovelada em meu estômago. Ele se posicionou de frente para quem se aproximava de nós.

— Eu sabia que você me seguira. Saia daqui antes que seja tarde. Nada de bom conseguirá sair dessa sua aproximação.

O estranho olhou para mim e para Faruk, pareceu estar pensativo. Assentiu para o outro, fez uma pequena reverência e se foi. O quer que fosse, só esperava que essa responsabilidade não pesasse sobre minha cabeça.

O local atingido ainda doía um pouco, mas nada que eu não pudesse aguentar e me levantar. Já estava me direcionando ao meu posto, pois aquela pequena interseção não mudaria nada. Com meu orgulho de batedora levemente ferido ia seguindo, quando senti uma mão segurando meu braço.

— Peço que não comente com ninguém o que viu. Não faria bem a nenhum de nós.

Levantei meus olhos para Faruk. Acho que eu nunca estive tão próxima a ele. Aqueles olhos pareciam tão estranhos a mim, por não portarem a severidade que pareciam acompanhá-lo sempre. Eram profundamente negros como um céu sem luar e combinavam com o tom escuro acobreado da pele dele.

Por um momento, achei ter visto aquele mesmo brilho colérico de quando meu pai caiu em desgraça. A mão de Faruk ainda apertava meu braço e num assomo de medo, puxei para sair de perto dele.

Baixei meus olhos — as palavras de minha mãe voltavam a meus pensamentos, “jamais olhe um nobre das grandes casas nos olhos, minha filha, bem nenhum a ti fará” — e assenti para ele, indo embora.

— Parem, eu me apresento para resgatar a dívida.

— E como pensa em fazer isso, menina?

— Não sou menina, sou a herdeira da casa Altaneiro, Aminah de Altaneiro. E por isso, Senhor Rachid Dal Morav, presto meu juramento de lealdade e ponho minha vida a seu serviço.

— Confia nela, meu pai? O pai já não atraiu desgraça o suficiente? — um jovem rapaz fora calado com a mão levantada do mais velho.

— Se é assim que se coloca Senhora Aminah de Altaneiro, faremos então da maneira correta. Aguardo-a ao término deste dia, junto ao fogo do julgamento.

E o peso de sua decisão caiu por sobre a sua cabeça. Podia ver pela face da família. E o dia não tardaria a terminar, já que em mais algumas horas o poente se aproximaria. Eram os últimos momentos de ser quem era, de estar com seus e se sentir Altaneiro. Ao dormir esta noite, já não usaria mais as cores e os símbolos de sua casa.

Não podia chorar, não iria se deixar levar por estes sentimentos que bem nenhum lhe fariam. Era muito possível que levando-os consigo, apenas falharia no que tinha que fazer. E se havia entendido bem, o velho Dal Morav estava propondo o uso de um ritual que não era bem-visto pelos sacerdotes do novo culto.

Assim como ela, os Dal Morav vieram em peso para ocasião. Por isso resistiria, quando estivesse no seu canto, iria se preocupar com o que passava em seu íntimo. Procurou aproveitar o pouco tempo que restava com sua família e os outros que seguiram com eles. Guardar na memória cada um deles.

Próximo da hora vaticinada, sua mãe ajudou a prepará-la, separando a melhor roupa com as cores do clã Altaneiro e as poucas joias que tinha. Penteou seu cabelo, deixando o solto.

— A minha pequena, não tão pequena assim. — segurou meu rosto com suas mãos — Tenho orgulho de ti, jamais se esqueça disso. E seu pai também, é só o orgulho ferido que impede que lhe fale.

O rosto portava um olhar triste e perdido, mas ela não chorara. Passou a mão por sobre a minha cabeça.

— Vamos, não queremos deixá-los esperando.

Marchamos até o local, chegáramos antes, como deveria ser. Um vassalo jamais faz os grandes clãs esperarem, mesmo que não sejam servos ou camponeses. Todos da minha comitiva portavam as cores e armas da família Altaneiro, meu último momento de refúgio antes do porvir.

Não tivemos que esperar muito, pois os Dal Morav logo vieram com sua comitiva. Como nós, todos portavam as cores e as armas da família.

Aquele rapaz que parecia estar furioso mais cedo se aproximou e disse:

— Chamamos por aquele que irá prestar o juramento, que o fogo e os Deuses julguem se és digno do pedido que fez. Venha, aproxime-se e se apresente.

Respondi ao antigo comando, que nunca pensei que fosse usar, conforme as intrincadas fórmulas decoradas:

— Sou eu, Aminah da pequena casa dos Altaneiros que venho pedir pela graça de jurar lealdade a grande casa Dal Morav. Venho em nome do meu sangue e de minha casa reparar o mal injusto com meus anos de porvir. Que os Deuses me julguem se não vim com meu coração puro em busca de um bem maior.

O rapaz assentiu, como se não esperasse pelas respostas corretas do ritual.

— Abandone então tudo o que você é, Aminah dos Altaneiros e proponha o tempo de sua lealdade.

— Não sou mais Altaneiros, pois abandono minha casa, assim me despojo de tudo o que é deles e não meu. — tirei minhas roupas, minhas joias, minhas armas, ficando apenas com as vestes mais simples que portava abaixo. Cuidadosamente as arrumei e levei em direção a pira que ardia a minha frente.

Com coração pesado joguei tudo na fogueira. O rapaz estava ao meu lado observando e ofereceu a sua adaga.

— Abandono meu sangue — rasguei minha palma esquerda e deixei o sangue escorrer para o fogo — Abandono quem sou — cortei meus longos cabelos com a adaga — eu podia ver, com o canto do olho que minha mãe chorava abraçada a meu pai.

Virei-me para o velho Dal Morav, colocando-me de joelhos

— Venho e lhe peço a graça de te jurar lealdade durante vinte anos, Senhor.

— Não sabes o que pede. Já será justo o suficiente que pague por dez desses anos. Levante-se. Aceito o seu juramento — a um sinal uma moça saiu do meio da comitiva Dal Morav e trouxe a roupa que eu deveria vestir. Assim que terminei, ele continuou — Está feito e acabado. Com a aprovação dos Deuses, vocês Altaneiros podem ir em paz.

E foi assim que eu vi minha família pela última vez. Esse dia ainda me dava pesadelos, mesmo passado cinco anos. Mesmo já acostumada a rotina.

As lembranças pareciam se mesclar aos sonhos. Meu sono não fora tranquilo e acabei por despertar inquieta. Podia ouvir a respiração entrecortada de Raed, seu semblante formava uma máscara pesada. Sabia que os pensamentos do companheiro estavam com o marido e os filhos.

Estranhamente, tinha um carinho fraternal por ele. Lembrava-lhe o caçula de seus irmãos, Násser. Raed era o único em quem podia falar, ainda que pouco, sobre algumas inquietações.

Mexeu-se um pouco. Podia sentir que o acampamento dormia. Achou melhor sair dali e espairecer — apesar de estar bom aquele quentinho junto ao amigo. Os demais também dormiam a sono solto. Afastou o tecido que guarnecia a tenda em que estava. Assim como lá dentro, parecia que toda a comitiva dormia.

Sabia onde os vigias estavam, mas sua saída ao alvorecer não seria surpresa. Já estavam acostumados com essa rotina. Olhou para o céu, pelos seus cálculos, podia aproveitar com certa tranquilidade as próximas horas só para si.

A medida que caminhava, podia ouvir o barulho do riacho que se aproximava. A friagem da manhã era enganosa. As brumas que se formavam era um indicativo da estação mais quente que se aproximava. Logo estaria na época das festas… não, os Dal Morav não costumavam mais comemorar as datas da velha tradição. O novo culto tinha força ali, muito mais do que se lembrava em comparação a sua casa.

Porém, o velho Rachid, deixava para a consciência de seus servidores o que praticavam ou não. O que as vozes dos corredores das catacumbas da antiga Casa Dal Morav sussurravam é que ele ainda participava de alguns poucos rituais, mesmo que seu irmão e cunhada condenassem quem os praticasse.

Ele não era aberto a prática, mas ao que parecia não tinha mais que prestar conta a ninguém. Sua esposa morrera já havia uns dois anos. Lembro pouco da Senhora Yasmin, contudo seu olhar justo sempre me acompanhou nas ocasiões em que lhe servi durante os acampamentos que participou.

Tentou dispersar esses pensamentos. O riacho estava a sua frente e tratou de começar a tirar a roupa. Estava acostumada ao frio seco das montanhas de sua terra, no entanto queria se acostumar àquela estranha friagem úmida daquele lugar.

Dispôs seus pertences as margens e entrou n’água. Se conseguisse molhar a cabeça àquela friagem, que sentia, passaria. Estava tão entretida com a oportunidade de se banhar que não estava prestando atenção a mais nada.

— Quem está aí? — a voz profunda de Faruk ressoou por entre os arbustos.

Virou-se na direção que o som parecia vir. Por que logo ele tinha que aparecer agora? Respirou fundo e respondeu ao comando:

— Senhor Faruk, sou apenas eu, Aminah.

Neste momento ele apareceu por entre suas árvores, mas tratou de virar-se de costas para ela.

— Desculpe, não sabia que estava nesta situação. Tire seu tempo e vista-se, irei aguardar-lhe, pois preciso falar contigo.

— Se é urgente, não me incomodo que o senhor me veja. Estou acostumada a camaradagem da caravana.

Ele parecia visivelmente desconfortável e rangia os dentes.

— Não! Faça como lhe falei. Já me basta as condenações dos sacerdotes e da minha tia sobre as maldições do porvir.

— Ah… então esse é o problema. Não imaginei que o senhor seria recatado em relação a isso. — falava muito sem pensar. Saíra d’água, esticando-se preguiçosamente. — estou acostumada a ter homens por companhia desde pequena. Não me importo. Não somos criados para nos importarmos com isso em minha família.

— Ainda assim, você é parte da baixa nobreza. Se minha tia e suas aias soubessem disso, muito provavelmente lhe trancariam em um convento desses novos tempos.

Ele parecia reprimir algo do qual ela não estava certa. Começou a se vestir, quando já estava com o uniforme completo o avisou que poderia se virar.

— Melhor assim — uma sombra passou por sua face. Ele subiu o olhar e parou nos cabelos molhados dela, que ainda estavam soltos. Parecia notar que não eram mais curtos, que o corte feito no juramento estava perdido há algum tempo. Fez menção de que ia tocá-los, quando algo o parou.

Antes que Raed aparecesse por detrás dos arbustos, abaixou a mão deixando os braços cruzados nas costas.

— Aguardo-a na tenda de meu pai após o desjejum — o olhar se tornara duro como os cristais que rompiam da terra.

Raed se aproximou dela. Ela estava com a respiração presa. Num assomo de susto, engasgou-se com o ar.

— O que foi isso? — Raed olhava-a intrigado.

— Não sei. Não sei. Mas vamos daqui. Pois, pelo que parece, sou esperada pelos Senhores Dal Morav.

Da tenda principal parecia ouvir risadas e uma conversa leve.

— Meu filho, foi um menino e voltou um homem. Estamos nos aproximando da época das fogueiras. Bom momento para comemorarmos afinal o seu rito de passagem.

Não conseguia ouvir a resposta da pessoa a quem o velho Dal Morav se dirigia, sabia que era Faruk. Também era um bom momento para pedir que me anunciassem para o quer que queriam de mim.

Eles estavam me esperando, não havia dúvida disso, o velho, no entanto, parecia rir de alguma piada particular. Faruk parecia não compartilhar desse espírito, pois permanecia quieto do outro lado da tenda olhando para algo em cima de grande mesa retangular disposta aos fundos.

Era engraçado ver a dinâmica entre pai e filho. Faruk era o mais velho entre os irmãos, não usava diretamente as cores da casa. Vestia um uniforme de campo que portava uma única cor, o azul escuro. Era tão escuro que quase poderia passar como preto, ressaltava ainda mais o tom escuro de sua pele. O pai parecia não se importar com isso, porém os outros filhos usavam o tradicional azul marinho e verde, nos mesmos tons que eu mesma portava agora.

— Senhores, conforme me chamaram aqui estou — baixei minha cabeça, pois ambos os Dal Morav estavam com seus olhares sobre a minha pessoa.

— Pode ficar à vontade, Aminah — disse o mais velho — venha sente-se a minha frente. — sentei na almofada que ele apontava — Isso, assim mesmo. Faruk, traga o mapa e venha para cá.

Depois de todo esse tempo de convivência, algumas coisas pareciam ter se incorporado de maneira automática a meus afazeres. Não achava mais estranhos os modos dos Dal Morav. Nem desconfortável o fato de que ainda usavam de antigos costumes trazidos pelos morins. Isso se refletia não só nos modos e tratos da família, vassalos e servos, mas na aparência geral de todos. Apesar de terem adições de outras etnias ao longo dos séculos, normalmente, possuíam a pele escura avermelhada.

Os dois eram assim, mas via-se que parte das feições de Faruk não eram de todo do seu pai. Ele me lembrava muito a Senhora Yasmin, ainda que ela tivesse um olhar gentil a todos, enquanto o filho continuava com seu semblante fechado.

— Então, podemos começar com o que temos aqui. Aminah, sua missão de hoje é algo que deverá ficar apenas nesta tenda. Acho que chegaste no nível de confiança que posso colocá-la em uma nova posição — estava atenta ao mais velho, pelo canto do olho podia ver que mais uma vez, Faruk olhava para o meu cabelo. Agora, estava trançado a moda que eu costumava usar em Altaneiros. Eu deveria fugir desse tipo de pensamento, deixá-los enterrados. E foi o que eu fiz.

Continuei atenta ao que o Senhor Rachid falava.

— Vês o mapa? — eu assenti — A caravana irá continuar com o caminho que costumamos fazer para voltar a Casa Dal Morav e terminar este período como todos os anos. Contudo, devido a algumas responsabilidades, Faruk deverá passar por outro caminho. E quero que você vá com ele.

Então ele assumiu a continuidade do comando no lugar do pai, apontando para o mapa e mostrando qual seria o caminho que seguiríamos.

— Aqui está o local que nós estamos e este é o caminho que deveremos seguir. O acampamento está se levantando agora, se alguém perguntar, deverá dizer que recebeu ordens para fazer toda a sua guarda no horário noturno. O que não vai deixar de ser verdade, já que quando começar o toque da noite, iremos te esperar aqui para terminarmos os preparativos e partirmos a alvorada.

Tudo o que eu podia dizer era:

— Sim, Senhor, estarei pronta.

[Narradora] Você e Faruk cavalgam por dias pelos campos verdes e nublados de Illa Nebulim. O caminho, você logo vê em seus mapas, não leva a nenhuma grande cidade ou vila. Vai por entre o descampado entre dois territórios, e isso é estranho. O que o velho Dal Morav planejava, era difícil dizer.

Faruk é o que e esperaria de alguém da sua linhagem. Ao contrário dos Nebul e dos Sussanechs, os Morins tem a fama de serem calmos e ponderados. Chamam-lhes de fracos por isso, mas é tolice. O povo Morim já superou há muito a selvageria do sangue de fada dos Nebul.

Faruk é o arquetipo disso. Nem nas noites frias em que a fogueira se demora a acender, ele diz mais do que um suspiro entre os dentes. isso é Faruk frustrado e com raiva. Um suspiro entre os dentes, você ri ao pensar. É sério e contido, ponderado.

E uma companhia agradável. Seja lá onde ele esteve todos esses anos, sendo treinado e educado, ele sabe conversar e respeitar o silêncio. Há momentos em que vocês se perdem em reflexões profundas sobre este ou aquele reino, discutindo as ruínas na distância e os sinais de batalhas de poucas decadas. Há momentos em que só há o vento em suas cabeças e o solo em seus pés.

Depois de muitos dias, vocês chegam a um córrego fino. Seguem a trilha de pedras e o fio de água morro a cima. Lá, há um forte abandonado, uma fortaleza dos tempos das tribos e dos clãs que agora só resta em algumas paredes carcomidas.

— Aminah, não sei se conheceria este lugar. Estas não são nossas lendas, nem a história do nosso povo. Aqui foi chamado de Veio de Arcádia e Morro da Névoa. Nem todos mais sabem que este lugar é o tal, mas é. Aqui, diz a lenda deste povo, é onde o Príncipe do Povo Bom encontrou com a Rainha dos Homens… E depois, na época das tribos, foi onde a maga Morgana fez sua Torre de Vidro e criou o Principe Prometido para unir as tribos e os clãs.

A presença de vocês parece acordar o lugar. Insetos voam da grama, aves cantam onde parecia apenas haver o silêncio.

— Mas Aminah, confesso que não sei o que esperar. Eu temi lhe contar e pensar de mim um tolo, mas eu vim apenas por que meu Pai teve um sonho. Pelo ultimo ano todo, ele sonhou com este lugar, até que ele percebeu que no sonho era eu que andava por aqui. E mal me recebe e já me despacha para este lugar… Meu pai não é tolo, mas… Agora, eu me sinto um. Vir aqui atrás de sonhos confusos.

— Tantos homens perdem tanto tempo… — a voz que vocês escutam vem de uma das torres, e de lá sai essa figura. A pele morena, o corpo pequeno e magro, apesar de alto, envolto em mantas ocre e grossas de um monge. Vocês pensariam estar diante de uma fada, mas não. É apenas um homem. Ou uma dama? — … indo atrás de coisas mais tolas, lorde, do que um belo sonho com um belo lugar.

[Aminah] Eu não sabia o que dizer. Aqueles dias haviam sido estranhos. Como um tempo fora do tempo. Eu não era jurada aos Dal Morav e tampouco, parecia que Faruk era um nobre da casa. Por mais estranho que tenha sido aquela breve convivência, sentia que mudavamos.

Mas ao ouvir a estranha voz, pareceu ter acordado em mim o espírito que os Dal Morav foram cultivando durante aqueles meus primeiros anos de vassalagem. Automaticamente e sem um pensamento claro sobre isso, posicionei-me às costas de Faruk, pronta para o que viesse. Porém meus olhos não deixaram de acompanhar a sombra na torre.

[Narradora] A figura veio andando pelo gramado alto, um passo de cada vez, lânguida como um gato, assustadora como uma coruja. Nem o brilho cruel das lâminas poderia detê-la.

— Então, meu pai estava certo — Faruk disse.

— Não estava errado. Havia algo aqui, chamando por pessoas por todo o reino — a criatura féerica respondeu com um sorriso fino e afiada — mas agora não está mais. Alguém chegou primeiro e levou o sonho embora.

— E o que seria este algo, monge?

— Essa é a grande questão, não é? Qualquer missão que você veio realizar, eu temo, ficará sem solução… A não ser que…

Os olhos felinos se moveram de Faruk para Amina, como se estivesse vendo algo além de você. Algo dentro de você.

— Acalme-se, brava guerreira. Não há ninguém aqui além de nós e dos fantasmas.

Faruk pareceu alterado por aquelas meias respostas. Pela primeira vez, Amina viu sua calma se partir e sua voz ficar tensa.

— Não brinque conosco, monge…

— Não brinco, meu lorde. Se me der um momento poderei esclarecer tudo. Entenda, você e a dama me intrigam, porque este lugar deveria ser secreto, oculto por magia antiga. Ainda assim, cá estamos, e antes de nós houve mais alguém. Há séculos, apenas o Povo Bom anda por aqui. Agora, quatro humanos andaram pelo solo sagrado do Morro da Névoa. O que pensa disso, dama? Não é terrivelmente curioso?

E você sente os olhos de fada olhando fundo nos seus, atento apenas a ti, embora você seja a serva e não a mestre, embora Faruk esteja entre vocês. É de você que ele quer ouvir as palavras.

[Aminah] — Os velhos caminhos sempre estarão abertos para aqueles que sabem olhar — percebeu que respondera ao antigo chamado sem parar para pensar — ainda que seja eu, a serva, a responder, foi o desejo dele que nos trouxe aqui. E se os caminhos estivessem fechados a nós, não nos encontrariamos entre o sono e o despertar das nossas lembranças.

Aminah baixou os olhos, parecendo só naquele momento lembrar que era a serva e que servia de guarda a Faruk. Não eram iguais, mesmo que ele tivesse lhe tratado assim. Mesmo que ele lhe houvesse dispensando condições melhores do que seus outros irmãos.

— Senhor do reino das fadas, eu lhe ofereço minhas armas. — saiu da posição de defesa em que se encontrava, oferecendo sua espada e adaga.

[Narradora] — Huh — ele não segurou o som de diversão. Havia algo meio selvagem nele, na maneira como seus olhos reluziam, bem abertos — Guarde-as para si, por hora. Não sabe o que me oferece e a quem, então não se adiante a se mostrar humilde, dama. Sem me conhecer… pode estar oferecendo rendição a um monstro. Assim é o mundo dos humanos, não é?

Ele parou e passou a mão pelo queixo redondo, as unhas longas desenhando a carne. Continuou:

— Você vê muito, mesmo que o sangue do Povo Bom seja quase inexistente em vocês Morins do outro lado do mar… Agora, entenda a minha curiosidade. Eu não sei quem esteve aqui antes de mim, então seu álibi será sempre um mistério… Mas sei porque eu estou aqui e porque o véu se levantou para mim. Mas por quê vocês? Vocês cujo sangue quase não tem ligação com esta terra ou com os mistérios deste lugar…

E Faruk se adiantou para dizer algo, mas o monge ergueu a mão. E, incrivelmente, aquele plebeu fez o nobre se calar com apenas um gesto.

— Me diga, ó Dama dos olhos abertos… Qual sua teoria?

[Aminah] Um brilho de surpresa passou pelos olhos de Aminah, quando parou a observar o monge e Faruk.

— O que dizem sobre o velho Dal Morav é verdade, ele segue os velhos caminhos, mesmo que suas terras estejam infestadas pelos sacerdotes da nova fé, mesmo que sua casa já esteja sendo tomada de assalto. Ele não pode proteger seus irmãos, mas você… também crê no antigo conhecimento.

Continuou com a postura a esperar uma resposta de Faruk que a encarava com a mesma surpresa que a pouco ela mesma portara.

[Narradora] — Sim. Embora fosse perigoso dizer isso em voz alta em qualquer outro lugar, de fato, a velha fé é forte na minha casa. Em todas as casas. A nova fé encontra apoio dos Sussanechs para se estabelecer e aqueles nobres que desejam o apoio do império podem até encontrar o poder de impor suas palavras à força… Mas não em Dal Morav.

— E de fato, Dal Morav — o monge continuou — eu o vi chegar do alto da torre e em momento algum você se desviou do caminho secreto que o trouxe até este lugar, quando tantos outros chegam na orla e se perdem pelos suavez feitiços… você veio diretamente para cá. Sua informação foi precisa… Talvez… antes que isso termine, eu deva ver o velho Dal Morav. Que outros segredos ele deve ter por lá?

— E quem você pensa que é, monge? Nós respondemos a sua pergunta, então revele para nós por que você está aqui — Faruk disse, soando mais arrogante do que talvez pretendesse.

A criatura de robes de monge riu, dançou de um pé ao outro. Agora, você pode ver que há uma bolsa em suas costas, o que era de se esperar de um viajante, mas há também o alaúde, brilhando como novo, mais valioso que todo o resto que ele carregava.

— Se precisa de alguma palavra para me chamar, sou Myrlim (MEIR-li). Se precisa de uma explicação para se permitir estar em paz em minha presença, saiba que eu tenho um dever sagrado com esse lugar… e com as coisas que haviam aqui. Por muitos anos eu servi em silêncio, até que o chamado veio. O mesmo chamado que trouxe vocês. Não desejam descobrir por que?

Ele deu um sorriso fino e apontou as trevas da passagem.

[Aminah] Aminah olhou diretamente para Faruk.

— Eu sou serva de sua casa e estou aqui para guiá-lo e protegê-lo. O que o senhor achar que deve ser feito, eu o seguirei. — parou, aguardando pela resposta dele, sem baixar os olhos. Porém continuou como se apenas Faruk estivesse ali e não houvesse qualquer diferença entre eles — Mas tenho um pressentimento que devemos seguir em frente, afinal é para isso que viemos aqui.

[Narradora] Faruk para por muito tempo olhando em seus olhos, como se o interesse de Myrlim em suas palavras revelasse algo sobre você que ele não tinha visto ainda. Ele hesita, mas não por medo. Parece que demora a tecer suas conclusões.

Vocês seguem o monge/bardo para a escuridão. A torre destruída tem uma escada que desce e desce, como nas lendas da Nova Fé sobre o buraco de fogo que existe no centro da terra para onde todos os humanos maus e profanos vão.

Em momento algum a criatura feérica precisa de luz. Vocês acabam acendendo as lanternas. O monge desapareceu na frente e vocês só se localizam pelo som dos passos. Há um labirinto de corredores escuros lá em baixo.

— Não toquem em nada! — a voz de Mylim ecoa nas paredes — aqui é o tesouro da Torre de Vidro, pertencente às fadas apenas. Ninguém pode tirar nada deste lugar sem permissão.

E de fato, vocês passam pelas portas e vêem o brilho de objetos… de ouro, talvez? Há tantas portas e tantas sombras. O rosto de Faruk está fantasmagórico. Os olhos abertos fitam tudo com ansiedade.

— Quando viemos para cá — Myrlim grita à frente — foi ouvindo o mesmo chamado que seu pai, jovem Dal Morav. Acreditei por algum tempo que esse chamado era apenas para mim, mas que os espíritos os enviaram a todas as direções para que eu pudesse ser encontrado de alguma maneira. Infelizmente, o sangue mágico também é ralo em mim. Mal sou digno do meu titulo! — e ele/ela ri, alto — Mas encontrei alguém que me ajudou a ouvir as palavras certas.

Vocês chegam ao final daquele labirinto, num arco decorado de flores e espinhos. Faruk hesita na porta. A luz da lanterna cria um halo que revela lentamente o altar… A estátua da Dama Escura, a antiga divindade da fortuna e das águas. Aos seus pés, um cadáver? Não, aquela dama está adormecida. Tem as vestes de uma noviça de um convento qualquer. Seu rosto sereno enquanto ela se deita sobre peles e palha, respirando lentamente. Myrlim está ajoelhado ao seu lado.

— Ela está tentando ver o que foi roubado. Aqui, a camada entre nosso mundo e o mundo deles é muito fina…Nós falhamos, apesar de tudo. Chegamos tarde demais…

[Aminah] Aminah está intrigada. Ela não sonhou. Não recebera qualquer chamado. E, tampouco, Faruk. Da mesma forma não entendia a relutância que ele parecia apresentar.

— Por que nós dois a virmos para cá se foi seu pai que sonhou? — fala diretamente para Faruk. — Isso não faz sentido, ou faz?

[Narradora] Faruk estava estranho. Mudo. Algo dentro dele estava despreparado para ouvir tudo aquilo.

— Seu pai não pôde vir… — Myrlin disse — Então ele ofereceu outro no lugar dele. Outra pessoa para agarrar o fio do destino tecido daqui. Temo, meus caros, que onde quer que esse mistério nos leve, não haverá escapatória para vocês. Uma vez na estrada das fadas, não há como deixá-la.

[Aminah] Aminah se cala diante da falta de respostas de Faruk. Silenciosamente coloca-se atrás dele, retornando a sua posição de serva para protegê-lo. Seu rosto, outrora aberto e receptivo para com seu senhor, voltou a portar a mesma máscara de impassividade que ostentava diante dos outros.

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