Woodkid, The Golden Age

“Hoje eu vou lhe contar uma história sobre um homem que morreu afogado nas águas frias do oceano após perder quem amava. Esta é uma história sobre um homem que morreu duas vezes.”

Assim se rompe o silêncio do filme criado para a quinta faixa do álbum The Golden Age, “I Love You”, de Woodkid. Palácios suntuosos e simultaneamente sinistros são expostos enquanto a sobriedade vocal se encarrega de manter dinamismo e um aproveitamento melódico, no mínimo, louváveis. Um francês de lirismo inglês; isto não soa um debut, soa o auge de uma era de deuses acinzentados com escrúpulos completamente humanos, nulos. Dum pretérito glorioso, de guerras banhadas a sadismo e trens, citando o artista, trens longínquos abandonando ao léu o aroma de margaridas de sua amada donzela.

Capa do álbum

Existe no homem um natural fascínio pelo sombrio, ele se queda ébrio perante a grandiosidade do maligno. Monstros subterrâneos e heróis celtas; as grandes navegações, impérios milenares e cavaleiros esguios. A majestosa combinação do espetáculo ideológico, performances notórias e sonoridades épicas: isso é o que The Golden Age nos propõem. Acelerado, problemático, medieval e elegante, o debut de Woodkid de charme francês apresenta um neofolk de uso maestral da escala em tons de cinza que soam mais como prata desnuda. Faixas turbulentas e veemente classificação pífia duma América idiomática europeizada.

Woodkid é o projeto musical de Yoann Lemoine, um diretor de longa data e cinegrafista do mais altíssimo bom gosto (já foi pra Cannes, já foi pro Grammy). Uma das primeiras aparições significativas de Woodkid se dá no curta LIGHTS, encomendado por Vogue Italia & Asvoff Milano, na qual Yoann se dá a liberdade de compor uma trilha original e, com seu pseudônimo, lançá-la ao mundo juntamente com cinco minutos de exímia delicadeza visual e um roteiro que anunciava a temática de seus próximos trabalhos. Uma tragédia grega em alpes suíços; um bicolor épico.

Volcano ao vivo

A arte gráfica do disco e sua identidade visual constroem referências à arquitetura das grandes metrópoles industriais do início do séc. XX e à simbologia faraônica e japonesa. Muito de um romance Byroniano e o início do simbolismo francês ergue a poesia do álbum e junto a constantes preto e branco e epifanias grandiloquentes, Woodkid povoa seu imaginário sonoro. Tenebroso, colossal e macabro, ainda moderno. Coros monumentais e graves de metais berrantes, utilização brilhante da estrutura erudita dum quarteto de cordas adaptado à tenra estética contemporânea; dissonâncias sutis são empregada juntamente com percussões pontiagudas no decorrer da obra. O álbum é uma exaustiva inclinação musical a temas monumentais, o termo “baroque pop” soa aprazível em The Golden Age.

A combinação dos temas é natural, o requintado interlúdio “Shadows” invoca o soturno período de transição barroco-clássico, com aveludadas cordas, sagazes pinçadas e órgãos interpretados num sentimentalismo esnobe; logo se rompe, a robusta cantoria de Yoann Lemoine toma as rédeas da primeira voz e como que em poucos compassos, o axioma da poderosa faixa seguinte, “Stabat Mater”, é instaurado. Em “Run Boy Run” temos um thriller de apelo bestial à figura do infanticídio industrial aliado à grandeza psicológica do que é a fantasia em prol da sobrevivência psíquica da criança.

Em matéria de pesares, The Golden Age ainda contém resquícios de imaturidade. Vocais pouco imponentes destoam da mentalidade instrumental casta. Conquanto, Woodkid teve êxito de maneira geral em sua empreitada. A título de ilustração, a divisão masculina da grife francesa de alta costura Dior Homme lançou sua coleção outono-inverno de 2013 inspirada num trecho da poesia da faixa “Iron” intitulada “A Soldier On My Own”. Woodkid colabora num debut valioso aos novos ares de luxo à música global e propõe uma exatidão e perfeccionismo preciosos para os novos aspirantes a artistas da segunda década do séc. XXI.

Por fim, só peço que ouças isso:

Texto originalmente publicado para o blog You! Me! Dancing! da MTV Brasil em Agosto de 2013.

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