A morte do cinegrafista e a história que não te contaram  


Essa é uma história de verdade que estão, não por acaso, te contando da maneira errada.

No dia 10/02/14, um pouco depois do meio-dia, tornou-se de conhecimento geral o falecimento do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, atingido por um rojão na última quinta-feira durante uma das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro. Uma vida inocente perdida de maneira brutal por um ato irresponsável de um manifestante. O país parece se comover com a dor e a tristeza da família de Santiago.

Mas — e sempre existe um “mas” — a população não ficou sensibilizada por si só. Houve por trás disso tudo um empenho absurdo da mídia (e entenda mídia por Rede…, ah, você já sabe) em explorar a morte desse homem. Diversos telejornais e boletins extraordinários narraram incansáveis vezes durante toda a tarde e noite do dia 10, e durante a manhã do dia 11, como Santiago morreu. Sem deixar de evidenciar, é claro, aonde ele estava quando foi atingido e por quem foi lançado o tal rojão. O Jornal Nacional encerrou sua edição desse mesmo dia em silêncio, exibindo a imagem do cinegrafista da emissora concorrente (pasmem) ao fundo.

A fatídica morte de Santiago serviu perfeitamente para o Estado e para aqueles que já tentam há tempos condenar as manifestações. Colocar a opinião pública contra os manifestantes, classificá-los como vândalos, assassinos e irresponsáveis e igualá-los a criminosos se tornou muito mais fácil depois que um homem inocente foi morto não intencionalmente por um deles (e que ainda assim representa uma parcela mínima dos manifestantes). Perfeito: a população a favor do Estado, quieta e inofensível, pagando três reais — e sabe Deus quanto mais — por um transporte de péssima qualidade e aceitando tudo o que lhe é imposto sem conseguir fazer coisa alguma.

Tudo isso poderia ser um sonho para os adoradores do país da Copa. A não ser por algo que eles deixaram escapar: outro homem também morreu naquela quinta-feira. Mas não pelas mãos dos manifestantes. O aposentado Tasman Amaral Accioly, de 72 anos, morreu atropelado por um ônibus na Avenida Presidente Vargas quando, assustado, tentava fugir das inúmeras bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia na Central do Brasil.

Inocente seria acreditar que a morte de Tasman não foi amplamente divulgada pela grande mídia, como a de Santiago, por simples descuido. Permitir que a população se revolte ainda mais com a Polícia Militar e consequentemente, com o Estado, não parece agora uma boa ideia. É melhor e mais inteligente negligenciar um assassinato e focar as atenções em outro, porque é assim que se faz quando se quer manipular a opinião de alguém.

Se condenamos a todo o tempo a violência apresentada por uma parcela dos manifestantes, devemos condenar de maneira igual a violência com que a polícia vem reprimindo as manifestações. Cada parte foi responsável por um tragédia de igual tamanho, e ninguém deve ser absolvido por isso. As manifestações precisam continuar — de maneira pacífica. E a polícia precisa entender que ela, mesmo sendo responsável pela manutenção da ordem, ainda assim faz parte do povo. E sofre absurdamente com o descaso e a corrupção de seus patrões.

E essa mídia que se dane.

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