A batucada é das mina

Grupo Entre elas mostra que pagode não é só coisa de homem.

O garçom coloca uma torre de chope de 3,5 litros em cima da mesa redonda, em que três amigos conversam. Ele serve com cuidado um copo para um dos homens do grupo. Os quatro observam com atenção, para ter certeza que não será derramada nenhuma gota da bebida preciosa. O barulho do líquido entrando no copo de vidro produz uma melodia característica. O primeiro gole na bebida é o pontapé inicial para mais uma roda de samba, de mais um happy hour de uma quinta-feira à noite. O nome do bar logo revela seus frequentadores: o Bohêmio.

A iluminação é fraca e mal se consegue distinguir as feições das 50 pessoas que conversam e bebem nas pequenas mesas de madeira do bar de 108m². Amanda, 34 anos, uma mulher de visual despojado: jaqueta preta, cabelo pretos amarrados, piercing na sobrancelha e um colar em formato de rosário, arruma as mesas num semicírculo. Ela posiciona, delicadamente, os instrumentos -microfones, violão e mesa de som- para a roda de samba que está prestes a começar n’o Bohêmio.

O lugar da roda de samba é estrategicamente posicionado embaixo das duastelevisões de 55 polegadas. No televisor, passam os últimos minutos do jogo entre Brasil e Chile, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018. Jogando sem Neymar e fora de casa, a seleção perdia de 1x0 e não mostrava sinais de reação. A narração de Galvão Bueno ecoava no ambiente.

- Casagrande, ontem no jantar você dizia: “Vocês vão ficar surpresos, o Brasil vai jogar bem”. Olha o Chile… Alex Sanchez partiu pelo meeeeio. Vidal tocou… Gooooool. Do Chileeeee!

2x0. O grito de olé da torcida chilena irrompe no ambiente, abafando a música de pagode que saía de algum canto do bar. O Brasil perde de novo. A atenção das pessoas do bar, dos sete garçons e da garçonete está voltada para o jogo que se encerra. A expressão em seus rostos é de desânimo, mas não de surpresa por mais uma derrota da seleção brasileira.

O proprietário do bar, bate com o dedo indicador no relógio do pulso e olha para a mulher que arruma os instrumentos. É melhor começar o show, antes de as pessoas irem embora. O grupo que vai se apresentar terá uma responsabilidade a mais nesta quinta-feira chuvosa de 18ºC: animar o público que acaba de assistir uma partida desastrosa de futebol.

- Desce mais uma gelada! — pede um homem para o garçom.

Amanda coloca um dos microfones em cima da mesa redonda e se abaixa para falar no ouvido de Gi, 30 anos, uma mulher atlética de traços firmes. Ela abre um sorriso e interrompe a conversa com seu grupo de amigos. Gi se levanta, ostentando grandes argolas douradas na orelha, uma blusa preta com estampa de caveira e uma muleta na mão esquerda — devido a um problema no joelho. Ela dá a volta na mesa e se dirige ao local da roda de samba, posiciona um dos microfones e faz um teste. Em silêncio, ela observa Amanda e outras três mulheres: Manuela, Jéssica e Juliana, aproximarem-se. Vindo cada uma de um canto do bar, elas tomam seus lugares na roda. O grupo que irá se apresentar no bar o Bohêmio no happy hour é o Entre Elas, banda de pagode formada em 2006 e composta por mulheres. Apenas mulheres.

A banda surgiu de uma brincadeira num churrasco de domingo, quando nove amigas improvisaram instrumentos musicais com baldes e panelas e começaram a experimentar um samba. O passatempo foi se repetindo, até que elas passaram a tocar em pequenos bares da Lagoa da Conceição, em Florianópolis e em festas de amigos. O convite inusitado para uma apresentação na coluna de Cacau Menezes, no Jornal do Almoço, deu fim ao hobby e início à carreira do grupo.

O telefone não parou mais de tocar. O desejo pela profissionalização cresceu e algumas meninas preferiram se desligar da banda e seguir outra profissão. Amanda e Gi foram as únicas que permaneceram. A formação atual se consolidou em 2009, com as manezinhas Gi Guedes (vocalista), Manoela Pires (violão), Amanda Fernandes (tambor), a criciumense Jéssica Antunes (cavaco) e a paulista Juliana Medeiros (pandeiro).

O grupo costuma ensaiar cerca de três horas por semana. “É importante praticar sempre, para não fazer feio”, resume Amanda, mais conhecida como Neguinha. A agenda cheia para tocar em bares como Boteco da Ilha, Confraria, Canto do Noel e festas tradicionais de Florianópolis, como Fenaostra e Reveillon, comprovam que elas não fazem feio. Pelo contrário. A banda recebe convites para fazer shows em cidades como Laguna, Tubarão, Imbituba, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.

Diferente de outros grupos de pagode profissionais, elas não possuem um empresário que as agencie ou um assessor. “A gente se sente mais segura cuidando do nosso próprio negócio”, revela Gi. Esse foi um dos motivos de elas terem participado de toda a produção do segundo CD, lançado no começo de outubro. “A gente não se sentiu parte do primeiro CD. Nesse que foi lançado agora, foi muito mais prazeroso, pois tudo teve nosso toque pessoal”, conta Amanda. O lançamento do disco, no entanto, não foi o momento mais marcante da carreira delas. É uníssono que o ápice da trajetória da banda foi a gravação do DVD, em 2011, em comemoração aos cinco anos de estrada.

A batucada do tambor e o som do cavaco indicam que a primeira música está começando. Aos poucos as pessoas param de conversar e são seduzidas pelo samba.

- Boa noite, gente. Vamos’imbora fazer um sambinha ai?

Gi faz a saudação inicial em nome do grupo e logo começa a cantar. Apesar de a grande maioria das músicas de pagode serem cantadas por homens, ao entoar as letras das canções, Gi não fica atrás de nenhum cantor famoso. Sua voz é grave.

Afinada. Gostosa de ouvir. Ela é a vocalista desde que o grupo começou, há nove anos. “Eu aprendi a tocar violão sozinha. Tocava meu cavaco no carro. Quem não quer viver de música? Eu me achei aqui”. Ela desistiu da faculdade de Educação Física para se dedicar ao Entre Elas. Atrás da roda de samba, está sua muleta — fiel escudeira e apoio dos últimos dias, enquanto não realiza a cirurgia para reparar um dos ligamentos do joelho.

As mãos de Juliana, 27 anos, e o pandeiro que segura dançam juntos. Como se fossem um só. Ela está levemente maquiada, um batom vermelho, argolas douradas, cabelo solto, calça vermelha e casaco jeans. Natural de São Paulo, Juliana integrava outra banda da cidade. O Entre Elas a viu tocando e a convidaram para a banda. Juliana não pensou duas vezes. Mudou-se para Florianópolis com a mãe e a filha pequena. “Meu pai também é músico e eu sempre o acompanhava”. Para ela, é difícil ficar longe do resto da família, mas o apoio que recebe é fundamental para continuar seguindo seu sonho. “Claro que já sofri preconceito por ser mulher e tocar numa banda de pagode. Mas nada foi suficiente para que eu desistisse do que eu quero”.

Do outro lado do semicírculo, atrás de uma torre de chope, Manoela Pires, 21 anos, toca o violão e canta no backvocal. Ela tem feições delicadas e um sorriso jovial. Parece curtir cada nota musical que ecoa dos instrumentos. Manezinha da ilha, ela integra o Entre Elas desde os 14 anos. “Minha mãe sempre me apoiou, pois eu deixei muito claro que era isso que eu queria. Ela foi comigo nos cartórios para eu poder viajar com a banda”. Manoela chegou a tentar vestibular para Música quando terminou o ensino médio, mas não passou. “A gente tem um cuidado muito especial com ela, já que é a caçula do grupo. Nós vimos a Manu se tornar mulher, e isso é muito interessante”, complementa Amanda.

Ao lado de Manoela, Jéssica chama atenção com sua atitude confiante. De cabelos escuros, no estilo blackpower, um cachecol no pescoço e uma sensibilidade ao tocar as cordas do cavaco, ela aparenta estar à vontade com as 50 pessoas que a observam. “Eu comecei a tocar aos 15 anos, com meu pai, ele sempre gostou muito de samba”. Jéssica foi convidada pela vocalista, Gi, a fazer um show num final de semana com o grupo. “Depois disso, eu passei a morar em Floripa. Está valendo muito a pena, pois estou realizando um sonho que sempre quis”.

Na ponta do semicírculo, Amanda dá um gole na garrafa d’água. Ela para de tocar por um segundo e massageia uma duas mãos. A rotina de batucar o tambor machucam os dedos. “Eu faço parte do grupo desde que ele começou. Sempre levei muito a sério a banda e a carreira. Eu me sinto a mãe delas”. Ela solta um suspiro e volta a cantar — de segunda voz — uma composição da Turma do Pagode, uma das bandas mais famosas do gênero no Brasil. O público reconhece e se junta ao coro:

- Que calor, quanto amor! Me pede mais, muito mais. Pra te ver feliz eu vou além de mim…

O batuque das canções de samba e pagode possui uma característica singular, que identifica a música brasileira. O ritmo marcado por batidas fortes, violão, cuícas e letras que remetem ao estilo de vida carioca conquistaram o coração de 44% dos brasileiros em 2015 — de acordo com uma pesquisa realizada pelo Ibope, que revelou que o samba é o terceiro gênero musical mais ouvido no Brasil, perdendo para o sertanejo (1º) e a MPB (2º).

Na Ilha da Magia, o gênero ganha cada vez mais espaço, uma vez que o cenário ilhéu contribui para a vida boêmia. Atualmente, casas noturnas bem sucedidas já possuem em suas agendas, baladas dedicadas a tocar samba. Além disso, existem onze grupos de pagode formados em Florianópolis, como Atrevidos, Samba Aí, Em Cima da Hora, Apogeu e Teu Sorriso.

Apesar da maioria dos grupos de pagode serem compostos por integrantes homens, a voz que canta o “hino” de Florianópolis, lançado no começo de 2015, é feminina e pertence a Gi Mendes. O clipe da música foi exibido nos intervalos dos programas da RBS e trazia imagens que representavam os encantos da Ilha. “Aqui é o meu lugar” marca o amadurecimento musical da banda. Mais importante que isso, a canção foi considerada a Música do Ano, pelo Prêmio da Música Catarinense 2015.


Além do sucesso “Aqui é meu lugar”, o Entre Elas possui quatro músicas próprias lançadas em maio de 2008 no primeiro CD de divulgação do grupo: Corações Opostos, Quero tudo com Você, Uma chance e Deixa rolar, conta também com as músicas Preciso de Você, Quem Tem Razão e a nova música de trabalho Eu Tô Lá.

Os aplausos da plateia se confundem com o fim da música. Gi bebe um pouco de água e olha para as outras meninas, pedindo aprovação. Elas riem em acordo.

- Pode pedir música viu, gente?! Cada pedido é só dois reais…Hahaha. Quero lembrar que essa é a nossa última apresentação do mês aqui n’o Bohêmio. A gente vai passar uma temporada no Rio e dia 27 de novembro estamos de volta. E ah, não podemos esquecer de agradecer a parceria com o bar. Sempre uma honra tocar para vocês. Essa aqui todo mundo conhece, quero ouvir…. Lua vai. Iluminar os pensamentos dela…

Turnê no Rio de Janeiro é um assunto que coloca um sorriso no rosto de qualquer uma das integrantes do Entre Elas. As meninas estão organizando os últimos preparativos para passar dois meses na capital do samba. Esta será a quarta vez delas na cidade. “Eu adoro nossas idas ao Rio. Temos mais oportunidades de tocar em lugares e com pessoas que sempre admiramos”, destaca Juliana. “É uma honra para gente tocar no berço do samba”, completa Jéssica.

O próprio site da banda já revela um amor das meninas pelo Rio. O Cristo Redentor, cartão postal da cidade, é a capa do site. “Quando vamos para lá, nós damos entrevistas, as pessoas até reconhecem a gente no metrô”, brinca Manoela. “Fazer show aqui e no Rio é muito diferente”, confessa Amanda com uma risada irônica.

- Não tem nem comparação. Na ilha não existe o samba que a gente encontra no Rio. Esse samba do trabalhador. Aqui é um público mais velho que curte o samba. Florianópolis não possui uma cultura do samba.

Manoela balança a cabeça, em aprovação a fala de Amanda.

- Florianópolis precisa dar valor aos cantores daqui. É muita admiração para gente de fora. A gente só precisa do mesmo tratamento. Isso já criaria um precedente de valorização. O que os músicos de fora estão trazendo para cá, a gente já tentou fazer.

As pessoas mexem em seus celulares. Algumas espiam a televisão, que agora mostra um programa de surfe. Os garçons estão num baile eterno com a cozinha e as mesas, trazendo torres de chope, caipirinhas e aperitivos. O batuque do samba demora a cativar algumas pessoas. Mas ele não falha. Às 23h45, a maioria do público já está em pé e dançando. Se existia resistência ou dúvida de alguém em relação à banda Entre Elas, não existe mais. A euforia e bom humor das meninas devem ter conquistado até a pessoa mais crítica da plateia.

Uma coisa que se tornou consenso entre a banda é não dar espaço para que as pessoas julguem antes que elas comecem a tocar.

- Eu imagino que é algo que os grupos compostos por homens não sofrem tanto. Esse olhar torto. As pessoas veem um bando de patricinhas querendo tocar samba e não acreditam. Depois que a gente começa a tocar, eles olham para gente e dizem “vocês são f***”. Botam um monte de homem no chinelo! — declara Manoela.

O olhar de desconfiança ao que é novo sempre vai existir. Mas são assim que as coisas evoluem. Aquela mau encarada é o que faz o grupo querer se aperfeiçoar.

- O nosso trabalho é muito maior que qualquer preconceito. Isso vai se desconstruir. Alguns homens não acreditam muito na banda, pelo fato de ser mulher tocando. Mas nós conquistamos nosso espaço, é só a gente começar a tocar que eles já mudam de opinião. — diverte-se Jéssica.

O grupo volta a cantar mais uma música de seu repertório. Pouco importa qual. Elas tocam num sincronismo perfeito, como se um laço invisível as unisse. Elas provam, numa não tão simples melodia de samba, que não há nada mais sedutor e envolvente que uma batucada no final do dia. Sobretudo se for feito por elas.

Para elas.

Entre Elas.


Show your support

Clapping shows how much you appreciated Portal Cotidiano’s story.