Autor relata suas experiências durante terror da repressão militar

Audálio denunciou o crime contra Herzog e organizou homenagem

Por: Roberta Bucheler


Com 82 anos de idade e assessorado pela sua companheira Vanira, Audálio está com sua agenda cheia de atividades. Após contato por e-mail, aceitou responder minhas perguntas através do aplicativo de celular Whatsapp, por conta da falta de tempo pelas inúmeras palestras que está ministrando. Por áudio através do aplicativo, Audálio contou um pouco da sua carreira como jornalista e sobre o período da ditadura no Brasil.

O REPRESENTANTE: Como escolheu a profissão de jornalista?

Audálio Dantas: De certa forma ela veio por acaso na minha vida. Eu tinha a mania de ler. E essa mania de ler me levou a adquirir outra que foi a de escrever. Ninguém escreve direito se não ler direito também. Ainda na juventude, descobri uma importante em termos de literatura brasileira que é Graciliano Ramos e aí a identificação foi grande. Em meados dos anos 50 comecei no jornalismo fazendo reportagem, eu fiz pouca notícia, fiz pouco dia a dia do jornal, mas fiz o suficiente para entender que é uma profissão que tem compromisso com a sociedade.

Audálio, 1971, na Favela do Canindé entrevistando Carolina Maria de Jesus, personagem da sua famosa reportagem Diário de uma favelada / Foto: arquivo Ruth de Souza

O.R: Consegue escolher uma das reportagens do livro “Tempo de Reportagem” como sua favorita?

A.D: Destaco O povo caranguejo. Foi um grande desafio no sentido de como contar aquela história, poderia cair em vários lugares comuns. Aliás, uma coisa da qual eu sempre fugi que nem o diabo da cruz. Eu fiz o que se chama subversão dos princípios estabelecidos do jornalismo ao não contar a coisa preocupado com a piramide invertida, contei a história de uma forma teatral de narração. E cometi a ousadia de considerar dois personagens importantes, o caçador e a caça. E não me arrependo até hoje do resultado.

O.R: Você sempre pensava em uma forma diferente de abordar uma notícia “comum”. Era difícil?

A.D: Era difícil sim, porque na verdade a tentação é contar da forma mais fácil. E há jornalistas que se preocupam mais com o tempo da escrita do que com a qualidade da escrita. E uma das técnicas, se assim de pode dizer, que eu sempre usei nas minhas reportagens para fugir do comum, foi a preocupação em descrever a cena me aprofundando no sentido que ela pode ter e cada situação.

O.R: No próprio livro “Tempo de Reportagem” você comenta que algumas pessoas consideram seu jornalismo literário. Como você recebia a crítica de escritor?

A.D: Quando algumas pessoas disseram que eu fazia o tal de jornalismo literário, eu não me preocupei muito porque eu tinha consciência de que eu não tava procurando fazer literatura com o jornalismo, mas contando bem as histórias, do jeito que eu fui capaz de contar e isso para mim bastava. Mas é evidente que o texto jornalístico ao ser produzido com a preocupação de qualidade e não preso as normas usuais, isso significa que ele escapa do comum. E ao escapar do comum as pessoas começam a rotular.

O.R: Como jornalista sofreu diretamente algum caso de censura por parte do governo na época da ditadura?

A.D: Sofrer a censura foi comum a todos os jornalistas no período da ditadura militar. Se não havia um censor na redação havia o censor da empresa que era o sujeito que pegava as matérias e levava para a aprovação da polícia federal em Brasília. Consequentemente você escrevia sempre sob o peso da possível censura e com isso você terminava fazendo a autocensura que é a pior das censuras. Então eu não posso dizer que não tenha sofrido uma das matérias que fiz para a revista Realidade era sobre o aborto e a questão era um tabu naquela época. Escrevi com 25 dedos com medo de botar a perder a matéria.

Audálio Dantas, Ruy Garrido e Theobaldo de Oliveira Lyrio em 1976, quando Audálio foi presidente do Sindicato de Jornalistas de São Paulo / Foto: arquivo biblioteca da Câmara Municipal de Marília

O.R: Como surgiu a questão de ser líder do Sindicato de Jornalistas de São Paulo?

A.D: Surgiu o movimento de fortalecimento do sindicato e foram me buscar como candidato a presidente, eu relutei porque achava que ali iria encerrar minha carreira de repórter, mas ao mesmo tempo julguei que era um dever político e assumi a presidência do sindicato consciente de que não iria fazer uma carreira sindical, mas iria sim participar de uma ação política que significava lutar contra a censura e contra a opressão do regime militar. E foi nesse contexto que aconteceu o caso do assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

O.R: Como ficou sabendo da morte de Vladimir Herzog? E como era sua relação com ele?

A.D: Não era uma relação estreita, era um colega que eu admirava pelo trabalho. Era mais um jornalista e mais um cidadão brasileiro vítima da ditadura. E a minha reação de indignação foi por saber que estava havendo uma farsa que pretendia se passar por suicídio e eu pessoalmente e a diretoria do sindicato em nenhum momento aceitamos essa versão e já no dia seguinte o sindicato se pronunciava de maneira clara em condenação ao assassinato. O caso Herzog foi emblemático, ele marcou um momento da história recente do país que você pode claramente dizer que a ditadura civil militar que oprimia o país se dividiu em dois momentos: antes e depois de Vladimir Herzog.

O.R: O culto na Sé ficou conhecido como um ato que deu voz à oposição do governo da época. Como foi organizar esse ato? Esperava que tantas pessoas comparecessem?

A.D: O sindicato convidou a população a participar do ato porque as vítimas da ditadura eram enterradas em silêncio e isso começou a ser quebrado com a nota do sindicato e com a presença dessas pessoas no cemitério. A presença de 8 mil pessoas no culto foi uma surpresa porque havia uma ação repressiva muito forte que sitiou a cidade de São Paulo com mais de 380 barreiras policiais para evitar o acesso à catedral. Havia a expectativa de um banho de sangue que não ocorreu. Nesse sentido que o culto ecumênico teve a função de um marco inicial que terminou com a ditadura militar.

Jornalista recebeu prêmio de Intelectual de 2012 / Foto: arquivo Negócios da comunicação

O.R: Hoje existe liberdade de imprensa, mas a maioria dos jornalistas não possuem o hábito de apurar nas ruas. Acha que esses estão perdendo oportunidades?

A.D: Nunca o país desfrutou de tanta liberdade de expressão, que por sua vez foi conquistada pelo povo brasileiro que custou muito sangue, suor e lágrimas. Os jornalistas hoje fazem a autocensura, não apuram a verdade dos fatos, mas isso é gerado dentro do núcleo de poder das grandes empresas de comunicação que não respeitam essa liberdade e fazem o exercício da sua própria liberdade. Em muitos casos a omissão de informação é o que está acontecendo e quando se fala no acirramento de pontos de vista na internet pelas redes sociais em que há uma intolerância muito grande, essa intolerância foi ensinada por muitos meios de comunicação que estão atendendo exclusivamente seus próprios interesses e não aos interesses da sociedade como um todo.