Caso Snowden ainda têm repercussões

Repórter revela que têm mais arquivos da NSA guardados e vai publicá-los em breve I Lívia Rezende

Portal Cotidiano
Jul 30, 2015 · 6 min read

Glenn Greenwald é jornalista, advogado e mora no Rio de Janeiro há cerca de nove anos. Em entrevista ao Verax, revela as mudanças que os arquivos Snowden causaram em sua vida, no governo americano e na mídia global.

VERAX: Como foi para você conhecer o Snowden?
Glenn Greenwald:
Conversamos quase todos os dias, porque fizemos uma coisa juntos que foi muito intenso. Vamos ficar conectados por toda vida. Mas também porque ainda estamos fazendo o trabalho. Ainda estou escrevendo novas reportagens sobre o acontecido, e ele é minha fonte. Discutimos muito sobre os documentos que estou divulgando. Ele também é meu amigo agora, me importo sobre o que acontece com ele, não quero vê-lo na prisão ou com problemas.

Glenn criou o Intercept em busca de um novo jeito de fazer jornalismo

V: Como sua vida mudou depois de conhecer o Snowden?
GG:
Mudou completamente, porque o governo dos Estados Unidos está me ameaçando muito. Quando você está fazendo jornalismo contra o governo mais poderoso do mundo, muitas pessoas tentam te atacar e destruir sua credibilidade. Mas também aconteceram coisas boas: eu tive mais visibilidade para discutir assuntos que são muito importantes para mim, como a liberdade na internet. Então pra mim valeu muito a pena, mas claro teve seu custo.

V: Você acha que agora o governo americano vai parar com as espionagens?
GG:
Eles não vão parar, com certeza. Agora estou começando um debate no Congresso para dar limites ao que o NSA pode fazer. Mas mais importante do que isso é a pressão que pessoas de todo o mundo estão fazendo contra as grandes empresas, para que sua privacidade seja protegida e seus produtos criptografias. Assim, fica difícil para o governo americano continuar espionando.

V: Você se sente ameaçado depois de ter divulgado o caso?
GG:
Sim, sim. Os oficiais dos EUA estão me ameaçando publicamente — e em particular também — me pondo medo para parar com as reportagens. Se eu voltar aos EUA eles podem me prender. Mas se você é jornalista e essas ameaças te influenciam, você deve parar tudo e sair do jornalismo, porque não podemos ficar com medo daquilo que precisamos para trabalhar, para fazer reportagens, para contar a verdade.

“Se você é jornalista e essas ameaças te influenciam, você deve abandonar a profissão. Não podemos ficar com medo daquilo que precisamos para trabalhar, para fazer reportagens, para falar a verdade” — Glenn Greenwald

V: Como você acha que a mídia global mudou depois do caso?
GG:
É interessante, porque quando eu estive em Hong Kong com Snowden e a Srª Poitras, estávamos discutindo, claro que sobre espionagem também, mas mais do que isso, discutindo sobre jornalismo. Porque sabíamos que não ia ser o debate apenas sobre espionagem e privacidade, mas também sobre o jornalismo. Por isso quisemos trazer essa discussão de qual é o propósito do jornalismo na democracia e como o jornalista deve ter esse relacionamento contra pessoas mais poderosas. Então é de se esperar mudanças nesse sentido.

V: Como está seu projeto novo? Você saiu do The Guardian e agora está trabalhando por conta própria?
GG:
Agora tenho essa nova organização que estou criando, The Intercept, e tem acho que uns 35 jornalistas, mas ainda estamos crescendo. Mas é difícil porque estamos tentando criar alguma coisa nova, e quando você faz isso, você tenta experimentar coisas inusitadas, que nenhum outro jornal tentou. Eu acho importante criar coisas novas, porque eu posso trabalhar com o NYT, ou qualquer jornal convencional, mas para mim é mais gratificante criar essa organização, que está fazendo o jornalismo de um jeito diferente, e acho que está dando certo.


Petição para que o governo brasileiro conceda asilo ao ex-funcionário da NSA

David Miranda, cônjugue de Greenwald, foi preso e interrogado durante nove horas no aeroporto Heathrow, na Inglaterra, em 2013, sob a acusação de ameaça terrorista. Ele conta ao Verax sua opinião sobre o escândalo e o futuro incerto de Snowden.

VERAX: Você acha que o caso Snowden mudou de alguma forma a política externa do Brasil?
David Miranda:
De começo teve uma postura do governo em relação as publicações. Eu não vi até hoje nenhuma mudança considerável, a não ser o Marco da Internet, já que o Brasil foi um dos únicos países que teve realmente medidas que modificaram alguma coisa em relação a isso. Porém a postura do governo com relação aos EUA parece ter se suavizado agora, com as novas relações de Dilma com Mark Zuckerberg, do Facebook, e com o presidente Obama.

David e Glenn vivem juntos no Rio há nove anos

V: Você se sente ameaçado de alguma forma? Depois de tudo o que você passou na Inglaterra, por carregar arquivos da NSA?
DM:
Eu não voltaria na Inglaterra *risos*. Não tenho vontade nenhuma de voltar. Eu acho que depois do nível de exposição que teve, o governo da Inglaterra e o norte-americano não fariam a mesma coisa. Porém, temos visto pelos inúmeros documentos que a Laura e o Glenn publicaram no Intercept, que o governo realmente toma medidas muito extremas. De qualquer forma, isso não é uma coisa que fica na minha cabeça 24 horas por dia. Eu já viajei várias vezes pros EUA e Europa, e eles não me param. Ficou uma situação bem tranquila depois da Inglaterra.

V: Você realmente está fazendo uma petição para o Snowden vir para o Brasil, quando acabar o asilo dele?
DM:
Então, em 2013, fiz uma petição que teve 1,5 milhão de assinaturas. O Snowden agora, está com asilo de permanência de 2 anos lá. Estamos conversando com o governo brasileiro para ajudá-lo. Mas o governo está falando que ele não pediu asilo aqui, então estamos com uma barreira. Pretendo voltar com a campanha no final do ano, com ações de mais um conjunto de países. Então eu acho que vamos conseguir bastante força.


Desde o caso Snowden, Murtaza Hussain passou a utilizar a criptografia e toma cuidados com a vigilância do governo

Colunista político diz que EUA ainda espiona os jornalistas

Murtaza Hussain é jornalista, colunista político e trabalha com os direitos humanos, política externa e assuntos culturais no site The Intercept.

VERAX: Você acha que o caso Snowden mudou seu país? E a mídia global?
Murtaza Hussain:
Sim, eu acho. A vigilância se tornou uma questão muito importante nos EUA, como ela nunca foi antes. Mesmo recentes políticos como Rand Paul têm começado a pressionar o governo para dar fim ao estado de vigilância. Sem Snowden, nós nunca teríamos descoberto ou conseguido alguma prova sobre o que estava acontecendo no país.

V: Você acha que escrever no jornalismo agora é mais complicado? Porque talvez agora o governo observe mais as publicações, para que não ocorra outro escândalo.
MH:
Eu tento normalmente criptografar qualquer coisa sensível que tenha relação com a história de Snowden. Claro que eu sei que o governo está vigiando tudo que falo e faço e isso torna as coisas complicadas.

V: Você acha que os inimigos dos EUA descobriram os “segredos” dos americanos com a revelação desses arquivos?
MH:
Não acho. Não é nada que eles realmente não soubessem antes. Na minha opinião, eles não aprenderam nada, porque não havia nada de chocante sobre a espionagem no exterior. O que foi publicado foi exaustivamente analisado e a NSA teve a oportunidade de ir contra.

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    Portal de notícias do curso de Jornalismo da UFSC

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