Eles discutiram política. Saíram às ruas exigindo mudanças. Gritaram “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz”. Defenderam a não redução da maioridade penal. Apoiaram greves. Reconhecem a UNE como a única entidade representativa dos estudantes e negam a existência da ANEL — Assembleia Nacional dos Estudantes Livre. No 54º Conune — Congresso da União Nacional dos Estudantes — estavam divididos por muitas temas, mas pelo menos num ponto houve acordo:

Nenhum centavo a menos para a educação

Texto, fotos e vídeos: Priscila dos Anjos

Das salas de aula de escolas e faculdades as mesas e cadeiras foram retiradas para abrigar barracas e colchões dos cerca de 10 mil participantes do 54º Congresso da UNE. Entre os dias 3 e 7 de junho o Setor Central , bairro de Goiânia que abriga prédios de duas instituições de ensino: Pontifícia Universidade Católica de Goiás e Universidade Federal de Goiás, recebeu estudantes de todos os cantos do País para o evento. Alguns enfrentaram 30 horas de viagem de ônibus com paradas para alimentação, outros demoraram 4 dias para chegar: a delegação de Alagoas, por exemplo, viajou com só um motorista que não dirigia após as 19h.

O dia começava cedo para os estudantes. Às 6h da manhã, no alojamento da chapa UNE é pra lutar, a voz grave e forte do SO (responsável pelo serviço de ordem da chapa) falava “vamos acordar pessoal, tem que tomar café da manhã”. Era preciso acordar nesse horário para enfrentar a primeira fila do dia, a do desjejum, e seguir para os mais de 40 debates e mesas de discussão do evento, nos auditórios da PUC ou da UFG. Com estudantes, pesquisadores, movimentos sociais, jornalistas e parlamentares foram debatidos temas como regulação da mídia, ajuste fiscal e o direito a cidade.

A Praça Universitária Honestino Guimarães localizada entre os prédios das faculdades era o ponto de encontro dos congressistas. Embaixo de tendas, estudantes sentados em cadeiras, na grama ou em pé mesmo explanaram e ouviram falas inflamadas sobre reforma política, racismo, universidade popular, feminismo, passe livre e maioridade penal. Em cada tenda ocorriam as plenárias internas — discussões de ideias dentro das chapas.

Eram representantes de Centros Acadêmicos, de Diretórios Centrais e até observadores que ao discusar começavam calmos, mas terminavam entoando frases aos berros com gestos fortes do braço seguidos de aplausos calorosos e palavras de ordem. Os discursos amplificados por megafones defendiam teses pré-preparadas pelos 17 movimentos estudantis presentes no evento.

Nos corredores formados entre uma tenda e outra, os estudantes que usavam a praça para alcançar algum destino eram parados constantemente por outros estudantes munidos de folders de 4 a 20 páginas. Eram as teses: ideias formuladas por cada movimento para serem votadas na plenária final, e que se aprovadas iriam definir os rumos da UNE para os dois anos seguintes. Apesar da participação de 17 movimentos, o congresso recebeu 23 teses nesta edição, pois é permitido que qualquer estudante do país envie suas opiniões e ideias para o debate.

Trecho de reportagem da revista Realidade de 1968

Plenárias finais: como funcionam as eleições no Conune

Depois de dois dias de debates e plenárias internas na Praça e nos alojamentos, os representantes de cada movimento participaram de uma reunião de sistematização, onde todas as 23 teses foram transformadas em resoluções. Primeiro é formada uma resolução consensual com as propostas comuns entre todos os movimentos. Neste ano foram aprovadas questões como: a criação de um Sistema Nacional de Transporte Público que permita tarifa zero nacional, a realização de campanhas contra trotes machistas, racistas e homofóbicos e a federalização das universidades privadas em crise.

Os militantes viram negociadores políticos nesta reunião. Enquanto a maioria dos movimentos aprovou a pauta contra os aumentos de juros, por exemplo, a Oposição de Esquerda, uma coligação de movimentos , tinha o posicionamento contrário aos juros em geral. Segundo um dos articuladores do Campo Popular , outra coligação, com o argumento de que “todo mundo é contra os juros em geral, mas uma coisa não excluí a outra” a proposta foi aprovada como consensual.

Como nem todas as propostas são consensuais, os movimentos formam coligações para formular resoluções entre outros campos que compartilham de ideias próximas, para que sejam votadas pelos delegados — estudantes escolhidos por votação em suas universidades.

Nestes dois últimos dias de congresso, as atividades ocorreram na Arena Goiânia, localizada ao lado do estádio Serra Dourada. Mesmo sendo um evento estudantil as arquibancadas não deixaram de receber verdadeiras torcidas organizadas. Em alguns pontos estudantes formaram cordões humanos para evitar a passagem de militantes de outros movimentos. As resoluções apresentadas aos delegados e observadores foram lidas em meio a palavras de ordem, músicas do movimento estudantil e batuques de baterias.

No primeiro dia de plenária do 54º Conune, 7 resoluções foram votadas pelos 4.071 delegados. O método de avaliação do processo eleitoral é o contraste visual. Cada resolução é representada por um número, no momento da eleição o presidente da UNE fala um dos números e os delegados que concordam com as propostas da resolução levantam seus crachás para a avaliação da comissão eleitoral.

Há três categorias de resoluções: de conjuntura, de movimento estudantil e de educação. Além de outras lutas, nos próximos dois anos a UNE combaterá o corte de R$ 9 bilhões na educação anunciado pelo governo. Na resolução de conjuntura a entidade reivindica que o governo adote medidas como a taxação de grandes fortunas e de heranças para ampliar a arrecadação.

No segundo dia de plenária ocorreu a eleição para a nova mesa diretora da UNE. Neste ano cinco chapas concorreram: Movimento estudantil unificado contra o retrocesso em defesa da democracia e por mais direitos obteve 2.367 votos, Campo popular que vai botar a UNE pra lutar fez 724, Oposição de Esquerda alcançou 704, Contra os cortes, Coragem para luta recebeu 242 votos e Eu acredito que você vai gritar junto, 34 votos.

Saiba mais sobre as plenárias:

Quem representou os estudantes da UFSC?

A UNE pode ter comemorado a participação de 98% das universidades nas eleições de delegados, mas na UFSC nem 6% dos estudantes participaram desta escolha. As votações ocorreram nos dias 5 e 6 de maio deste ano. Três chapas concorreram as 36 vagas. Foram elas: Abre alas, Une: por uma universidade popular e Une é para lutar.

foto: Beatriz Santini

Cada delegado escolhido representa mil estudantes. Na UFSC dos 36.605 estudantes aptos a votar, 1.959 foram às urnas na universidade. A chapa Abre alas obteve 1.010 votos, a chapa Une: por um universidade popular 557 votos e a chapa Une é para lutar 392.

A pequena participação de estudantes nas eleições para o Conune não ocorreu somente na UFSC. Em São Paulo dos 150 mil universitários da Uninove, somente 9 mil votaram, ou seja, 6% da universidade escolheu os 150 delegados que representaram os estudantes no congresso.

O estudante de Direito da UNIFEOB, Adriano Sabino Barbosa, assinou a tese “A UNE para todos”, onde pediu a presença da entidade nas universidades: Mesmo estando na era da informação, muitos universitários ainda desconhecem a entidade, e cito como exemplo a minha universidade, onde a maioria esmagadora nunca nem ouviu falar dela. Acho que a UNE deveria formar equipes para visitar as universidades, para trazer esses alunos para juntos unirmos e nos tornar cada vez mais forte. Em resposta, a resolução de movimento estudantil aprovou a realização de campanhas permanentes de ampliação e organização da rede de entidades de base da UNE.

A ANEL: o racha da UNE

Enquanto em Goiás ocorria o Conune, em São Paulo acontecia o 3º Congresso Nacional da ANEL (Assembleia Nacional dos Estudantes Livre). Para os militantes da UNE a entidade é a única representativa do estudantes brasileiros. É difícil haver um militante que não conheça a paródia “Se você pensa que a ANEL existe, a ANEL não existe não. O que existe é um adesivo, uma camiseta e um bandeirão”.

Segundo o site da entidade, a ANEL surgiu em 2009, no 51º Conune, quando alguns estudantes insatisfeitos com a atuação da UNE resolveram propor a fundação de uma nova representatividade estudantil nacional. Para o movimento, a UNE é reprimida pelo governo federal por não ter independência financeira e política.

Trecho de reportagem da revista Realidade de 1968

Uma agenda de lutas

O congresso não tinha acabado e alguns estudantes já se retiravam da Arena. Odestino era Brasília, onde ocorreria o Ocupe Brasília. O ato faz parte de uma agenda de lutas e mobilizações aprovada no congresso.

A agenda também prevê calouradas unificadas, paralisações como parte da Jornada de Lutas de 11 de agosto e uma caravana a Brasília.

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