Identidade e formação profissional do negro — Entrevista com Juarez Xavier durante o EECUN

Durante a primeira edição do Encontro de Estudantes e Coletivos Universitários Negros, o jornalista Juarez Xavier formado pela Pontifica Universidade Católica de São Paulo, palestrou na mesa sobre as suas múltiplas formas de genocídio da população negra, e a construção do Estado brasileiro. Além de atuar na área de comunicação, Xavier é pesquisador do Programa de Pós-graduação em integração da América Latina (PROLAM), pesquisa Cultura e Comunicação. Também é professor da Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho e coordenador executivo do Núcleo negro da Unesp para pesquisa e extensão (NUPE).

Cotidiano: O que é ser negro, negra?

Juarez Xavier: No Brasil você tem que levar em consideração a questão da condição histórica de ser negro no país. Tem a questão do fenótipo, genótipo e a questão social. A questão social é que os negros estão alocados nos locais mais pobres, mais degradados da sociedade brasileira. Na verdade você tem um combo que tem que ser levado em consideração. É isso que as organizações negras consideram quando montam o discurso da afrodescendência. O afrodescendente tem fenótipo, genótipo e aspectos político-sociais. No Brasil essas três questões são fundamentais para definir o ser negro.

C.: Qual é o papel do movimento negro na construção da identidade negra?

J. X. : Fundamental. Nós já passamos por um período de recuperação conceitual da palavra “negro e preto” nos avançamos pelo conceito de afrodescendente que é um conceito que acaba encapsulando os pretos e pardos e essa posição política tem sido fundamental para fazer a leitura sobre o racismo no Brasil, para pensar políticas públicas. Sem o Movimento Negro talvez não tivéssemos chegado a esse refinamento conceitual.

C.: A universidade de Brasília é uma das pioneiras na adesão às políticas de cotas. Porém, em 2016 ela ainda tem menos de 2% dos professores negros. Como o senhor explica isso?

J.X.: Pelo processo de segregação no Brasil. O ingresso do negro na universidade tem sido um processo doloroso e demorado. Se não entrar na universidade a formação é mais complicada ainda e então há um vazio… um gap muito grande entre a necessidade de professores negros na universidade e os professores formados. Acredito que com a política de cotas e os programas de incentivo, tenderemos a ter muito mais professores negros para assumir lugares nas universidades, em especial públicas, onde há possibilidade de desenvolvimento e continuidade de pesquisas.

C.: Como os professores negros da UNESP se articulam para que ingressem mais professores negros dentro da universidade?

J.X.: Nos temos o NUPE que é o Núcleo Negro UNESP para Pesquisa e Extensão, onde sou coordenador geral. Uma das questões que estamos iniciando é o mapeamento de professores, alunos e funcionários da universidade auto­declarados pretos. A partir daí pensamos numa política de recrutamento tanto de alunos, a partir da política de cotas, mas também de funcionários de alto escalão e professores tanto da graduação quanto da Pós-graduação.

C.: Qual seria o papel da justiça no processo de contratação de professores negros?

J.X.: Só a judicialização não basta, tem que ter a mobilização para que aquilo que está determinado na constituição possa ser executado, exercitado na prática. A judicialização ajuda a dar visibilidade a politicas que estão sendo desenvolvidas na universidade, professores, alunos e funcionários e ajuda também assegurar conceitos condicionais já consagrados. A Lei de Cotas, por exemplo, já foi definida como sendo instrumento legal pelo Supremo Tribunal Federal, não cabe discutir. Cabe aplicar a justiça. Quando favorece os aspectos políticos da luta do negro deve ser cobrada, exercitada e materializada no cotidiano das organizações. O Movimento Negro tem um papel fundamental, estratégico. O Movimento negro é decisivo para construção da identidade mas também das lutas das politicas públicas que nós alcançamos nesses últimos anos.

C.: Qual é a importância das cotas na contratação de professores?

J.X.: Fundamental. Você precisa criar uma ambiente favorável ao debate de uma universidade diferente.

C.: A forma que está sendo feito o processo de ingresso por cotas é eficaz, suficiente para o acesso de professores negros na universidade?

J.X.: Ainda não. Ainda não atende a demanda e a necessidade de avanços das discussões dentro da universidade e a gente tem que pensar novos mecanismos. Talvez pensar um mecanismo de ingressos que leve em consideração o tempo de formação do professor, mas acima de tudo, da aderência que ele tem à pesquisa que ele se propõe. Precisamos pensar em novas possibilidades, novos mecanismos para quando a universidade precisar contratar professores com aderência numa determinada área. Em alguns casos até já se pensou em desconsiderar a necessidade de ser doutor ou não. As universidades pode pensar em mecanismo específicos e dessa forma assegurar mais professores negros com aderências às pesquisas sobre a questão racial na universidade.

C.: Qual é, na opinião do senhor, o papel da (democratização da) mídia na luta contra o racismo?

J.X.: A democratização da mídia é fundamental para o debate político sobre a questão racial. Devemos considerar primeiro que a mídia no Brasil sempre foi um instrumento que alimentou e apoiou aquele que nós chamamos de “máquina de destruição de corpos não brancos” e de uma certa forma ela deu base ideológica pra isso, segundo a mídia nunca foi isenta na discussão sobre a questão das desigualdades e o papel que o Estado poderia cumprir na superação das violências, e terceiro a democratização da mídia permite trabalhar com os seguintes aspectos fundamentais: A regulamentação que visa a criação de mecanismos de controle dos abusos cometidos pelos donos da mídia, por exemplo monopolização e propriedade cruzada. Em seguida, uma melhor qualidade do conteúdo assegurando que o conteúdo possa corresponder à realidade política social brasileira e o último aspecto destina-se a criação de mecanismos para que talvez a sociedade possa pelo menos ter o direito de resposta. Entretanto, a questão da democratização está muito mais focada na possibilidade de criar mecanismo para que a população acêntrica, em especial a população negra, possa ter acesso ao sistema de captação, produção, distribuição e fluição de conteúdo jornalístico. A democratização não está apenas focada no aspecto legal jurídico. Ela precisa permitir o acesso às condições de produção de qualidade de conteúdo ás populações que hoje estão marginalizados. A democratização é fundamental, estratégica desde que ela atenda a pauta do movimento social e dos grupos sociais acêntricos lhes permitindo ter acesso às plataformas e a partir daí poder captar, capturar e editar, produzir, difundir e fluir informação como pressuposto fundamental da democratização da mídia e do acesso aos mecanismos de produção de conteúdo.

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