O papel da contracultura na política
Emerson Gasperin, crítico musical, comenta sobre a influencia desse movimento na sociedade
Por Carlos Henrique Costa (carlos.henrique.costa.pro@gmail.com)
Levantando a bandeira de mobilização e contestação social o movimento de contracultura teve grande significado social, considerando as conquistas e avanços que influenciou. Com a consolidação do movimento hippie, no fim da década de 1960, se intensificou a tendência do cenário político que fazia com que a nova geração se manifestasse contra aquilo que representava o conservadorismo. O símbolo máximo foram as criticas do movimento à guerra do Vietnã.
Nas artes, essa inquietação cultural começou ainda antes, com o movimento beat e o clamor pela liberdade sexual na literatura de Allen Ginsberg, Neal Cassidy e Jack Kerouac. O crítico musical Emerson Gasperin, que já editou revistas de cultura e generalidades, como Frente, Bizze General, e atualmente é colunista de cultura do Diário Catarinense, explica essa associação:

“O pessoal do movimento beat foi precursor dos hippies, embora os beatnicks da gema meio que refutem isso. Eles têm grandes divergências com os hippies. E é engraçado que depois de um tempo, os beatnicks, embora refutassem, convenientemente adotaram esse ideário hippie, mas eu não acho que tenha sido tão automática assim essa ligação”
Numa conjuntura geral, o mundo vivia a bipolaridade ideológica da guerra fria (o liberalismo ocidental contra o comunismo internacional),o que foi usado como justificativa para o governo cometer atrocidades. Por isso, os hippies tinham “paz e amor” como lema. A partir daí, surgiram cada vez mais reivindicações sociais por justiça e igualdade. Com o sucesso do festival de Woodstock, a arte popular passou a refletir esse sentimento crescente entre os jovens da época.
O lançamento do disco Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band (foto abaixo), dos Beatles marcou de vez a entrada da psicodelia na cultura popular e ratificou seu valor perante setores conservadores da sociedade. Gasperin. também comenta a associação desse movimento com o uso de drogas psicodélicas com o objetivo de expansão da consciência:
“Aquela geração mostrou que havia outros caminhos de se retratar à realidade por mais delirante que tivesse o autor na hora que se propusesse a fazer esse retrato. Então, nesse sentido foi algo até meio libertador. Total quebra de paradigma numa época propensa a experiências, uma profunda liberação dos costumes, até por que vinha uma turma totalmente oprimida dos anos 50, os baby boomers ficam adultos e aí “despiroca” de vez”

Esse viés lisérgico e transcendentalista rendeu críticas dos setores mais conservadores, e inspirou perigosamente estilos de vida de mitos daquela época: Jim Morrison, do Doors, John Bonham, do Led Zeppelin e Duane Allman, do Allman Brothers Band, morreram de maneira prematura, por exemplo.
No entanto, suas partidas, independentemente de quaisquer razões, não apagam a genialidade de seus legados e nem os transformam em símbolos de uma geração perdida, como lembra Gasperin.
“A gente lembra desses doidões aí, mas tem um monte de caretas também que morreram de overdose. A Elis Regina, uma puta careta, morreu de overdose. Acho que são muito mais acasos que a história vai transformando em símbolos, mas eu me incomodo um pouco com essa coisa moralista. Tipo, “Ah, olha o que acontece com quem se entope de drogas”. Para cada Jim Morrison ou Syd Barrett que morreram ou piraram de vez com drogas, tem um Keith Richards que está vagando por aí até hoje desafiando a lógica”
Mais tarde, já no começo dos anos 1970, outro marco igualmente relevante aconteceu no mundo das artes: Bob Marley, que trouxe um gênero de uma cultura marginal ao mainstream da música. Além de cantar os problemas da Jamaica, como em Smile Jamaica (vídeo abaixo), Marley fez história ao se firmar como ícone da cultura sem ter nascido no Primeiro Mundo.
Além disso, o ativismo marcante na sua obra celebra o povo negro e suas raízes culturais, subjulgadas no ocidente. Essas e outras mensagens ainda hoje são relevantes. Basta ver o racismo velado nos Estados Unidos e a homofobia na Rússia. Por esses aspectos,Gasperin destaca o papel de Marley.
“Ele é um ponto total fora da curva, o único popstar do Terceiro Mundo até hoje. No meu ranking pessoal, só perde para os Beatles. A minha tese é que o reggae só não é world music por que é world music de verdade, transcendeu o rótulo e virou realmente música do mundo. E ao mesmo tempo fico pensando no estranhamento que deve ter causado a chegada dele ao mainstream. Falando um inglês que ninguém entendia direito, com um papo maluquíssimo de Babilônia e voltar pra África, o Pan-Africanismo, e que cultuava a maconha como uma erva sagrada. Então, nesse sentido, o Bob Marley talvez tenha despertado o consumidor normal de música para situações comuns ao Terceiro Mundo que ele relatava nas suas letras, mas a abrangência dele é muitíssimo maior do que isso aí”
Hoje em dia, as bandeiras levantadas pela contracultura ainda podem ser aplicadas e continuam a ser importantes no cenário político e cultural. O Brasil, por exemplo, atravessa um momento de profunda conturbação política com a tramitação de um processo de impeachment no Congresso Nacional contra a presidente Dilma Rousseff. Isso gerou uma bipolaridade política para a vida brasileira, dividida entre os que são contra ou a favor da saída da petista. A votação na Câmara dos Deputados registrou vitória dos defensores do afastamento de Rousseff, que muitas vezes justificam seu posicionamento pautados nas mesmas motivações conservadoras de outrora (sem contar argumentos tão absurdos que até renderam matéria do Economist), como a religião — apesar do laicismo do Estado. E é esse e outros aspectos que fazem Gasperin criticar alguns comportamentos contemporâneos: