Por uma vida sem lixo

Não produzir detritos até o fim desse ano é o objetivo da catarinense Cristal Muniz


Texto e arte: Amanda Ribeiro, Beatriz Santini e Paula Barbabela

Cristal Muniz tem 23 anos, é designer gráfica formada na Udesc e, há cerca de cinco meses, decidiu parar de contribuir com as coisas que critica e viver uma vida sem lixo. Desde dezembro do ano passado, ela vem reduzindo o desperdício de comida, parando de consumir embalagens, usando produtos naturais e artesanais e compartilhando suas experiências no Um Ano sem Lixo, blog que alimenta regularmente com histórias e dicas para quem também quer seguir esse caminho. A ideia é parar de produzir resíduos aos poucos e, até o fim do ano, viver completamente livre de detritos.

Cristal: há cinco meses tentando viver uma vida sem lixo

A designer conta que, ao contrário do que pensava, poucas coisas mudaram desde que passou a se preocupar em produzir menos lixo. A dieta vegetariana a base de verduras, frutas, cereais e grãos e o fato de ter sempre evitado comprar produtos processados ou em caixas já favoreceu para que o projeto caminhasse do jeito certo. Dos produtos de limpeza e os cosméticos, no entanto, foi mais difícil de se livrar: o que não conseguiu doar ela vem usando e eliminando aos poucos de sua rotina. “É engraçado porque eu achava que iria mudar muito, mas o que muda é o hábito. Tu faz a mesma coisa só que com o objeto diferente. É tipo começar a usar óculos ou parar de comer alguma coisa. No começo tu esquece, não se planeja, fica na roubada mas aos poucos tu se precave o suficiente e usando o menor esforço”.

O mais difícil de lidar, de acordo com Cristal, são as emergências: se comprometer a produzir menos lixo pode custar mais tempo e ser previnido é essencial. Hoje, a designer tem o hábito de sempre carregar na bolsa um guardanapo de pano, talheres, sacolinha e um copo. Quando não dá tempo de se organizar e é preciso comer fora, o jeito é procurar pelo restaurante que ofereça menos materiais descartáveis.

Olhando pelo lado econômico, o que ficou mais caro passou a compensar a longo prazo. Apesar de o senso comum afirmar que o que é natural e artesanal é caro, Cristal disse que nenhuma das mudanças de sua rotina apertou muito o orçamento. Apesar da compra de uma composteira (usado para abrigar material orgânico e transformá-lo em adubo) e de umcoletor menstrual ter saído por cerca de 200 reais e alguns cosméticos serem mais caros do que os usados anteriormente, Cristal afirma que, de maneira geral, a rotina não custa tão mais caro, principalmente em razão das coisas que parou de consumir em excesso. “É um exercício de consumir menos e desperdiçar menos em todas as esferas: comida, roupas, água, luz, energia, móveis, sapatos, eletrônicos etc. Roupas de 2ª mão são mais baratas, comprar só o que você come é mais barato, aproveitar tudo até a hora de realmente precisar trocar é mais barato. É uma troca de chave de pensamento”.

A ideia do Um Ano sem Lixo começou como um projeto pessoal e foi inspirada nos casos de duas americanas que já conseguiram se livrar dos detritos. A primeira é Lauren Singer, estudante de ciências ambientais da New York University (NYU) que decidiu reduzir a zero seu lixo quando percebeu que não cumpria o que pregava em termos de conservação do meio ambiente. O maior incentivo para o início do projeto foi o conselho de um dos professores da faculdade, que pediu que os estudantes vivessem de acordo com seus princípios.

Lauren Singer seguiu seus princípios de ambientalista e não produz lixo há dois anos

Para reduzir a produção de resíduos, a estudante passou a comprar roupas em brechós e reciclar as que não lhe serviam mais, substituiu o plástico por vidro, cerâmica e madeira, passou a comprar alimentos a granel, para evitar o desperdício de comida e aboliu o uso do carro. “Como moro em Nova York, vou andando a muitos lugares. E, quando tenho de ir mais longe, uso transporte público”, afirma ela no blog Trash is for Tossers (Lixo é para desperdiçadores tolos, em tradução livre), onde compartilha suas experiências.

Bea e sua família sentiram a necessidade de parar de consumir quando se mudaram do subúrbios para o centro

A segunda inspiração de Cristal começou a viver livre do lixo bem antes, em 2008: a americana Bea Johnson e sua família tiveram que reduzir o consumo e a produção de resíduos quando decidiram se mudar de uma casa espaçosa nos subúrbios para uma um pouco mais apertada no centro da cidade. A partir daí, perceberam que consumir menos não significava abdicar. “Nós descobrimos que o desperdício zero não é nada do que nós pensávamos que seria, não é bom apenas para o meio ambiente. De uma maneira geral ele também nos fez mais saudáveis e nos poupa uma quantidade incrível de tempo e de dinheiro!”. Bea compartilha suas experiências no blog Zero Waste Home e também publicou um livro com o mesmo nome. Atualmente, ela, seu marido e seu filho de seis anos produzem por ano uma quantidade de lixo que cabe dentro de um pote de um litro.

O Um Ano sem Lixo pode até ter nascido como experiência isolada, mas agora, cinco meses depois, os 950 seguidores da página do projeto dizem o contrário. O que era para ser um desafio pessoal se tornou uma inspiração para quem conhece e para quem não conhece Cristal, que vem formando parcerias com outras pessoas interessadas no assunto e estudando design focado na área. “O Um Ano sem Lixo mudou completamente o jeito que eu encaro o mundo, minha casa e minhas ações”.

Mas será que um projeto desses seria viável a outros brasileiros, que descartam cerca de 400 quilos de lixo por ano? “Completamente! Todo mundo pode carregar um guardanapo de pano na bolsa. Todo mundo pode trocar a sacolinha plástica por uma de pano. Todo mundo pode ter uma composteira em casa (e num apartamento) e parar de contaminar lixo reciclável com lixo orgânico. Não tem nada que seja incrivelmente difícil ou absurdo no que eu faço e decidi fazer. É uma questão simples de problematizar o hábito que carregamos e mudarmos a forma como pensamos”.


Outros casos

Além dos projetos de redução de resíduos de Cristal, Lauren e Bea, outras pessoas vem tentando mudar sua relação com o lixo. Um movimento que vem ganhando força nos últimos anos é o do freeganismo: como forma de se dissociar do capitalismo e do consumo exagerado dos tempos atuais, os adeptos da ideologia se alimentam da comida descartada nas lixeiras da cidade. O nome vem da união dos termos “free” (em inglês, grátis, livre) e “vegan”, grupo de pessoas que adota um estilo de vida que evita o uso e o consumo de qualquer coisa de origem animal. O movimento, começou em Nova York, mas já tem adeptos em várias partes do mundo, como França, Noruega e Grécia. Apesar de ter surgido principalmente para se opor ao excesso de consumo imposto pelo sistema capitalista, o movimento também tem como uma de suas principais bandeiras diminuir a produção de lixo.

Os adeptos do freeganismo se alimentam de comida descartada para protestar contra o consumismo

A outra iniciativa é brasileira e tem como objetivo ajudar moradores de rua e evitar o desperdício. O projeto Feed Truck é uma parceria da ONG Make Them Smile com a Agência África, uma empresa de food trucks e chefes voluntários, e produz, dentro dos caminhões de comida de rua que se popularizaram tanto nos últimos anos, refeições grátis para quem precisa com alimentos que seriam jogados fora. De acordo com dados do próprio projeto, comida é o que não falta, já que os restaurantes do Rio de Janeiro desperdiçam cerca de 16 toneladas por mês, 80% dela em perfeito estado de conservação. Em um mês de funcionamento, o projeto aproveitou cerca de uma tonelada de alimentos, produzindo duas mil refeições, que beneficiaram em torno de 400 moradores de rua.


Situação no Brasil

Tudo o que fazemos gera lixo. Mas essa produção nem sempre é acompanhada de um descarte adequado e nas mesmas proporções. De acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), 37,5% dos 64 milhões de toneladas de resíduos produzidos pela população foram enviados para destinos inadequados no ano de 2012. O problema é que o descarte inadequado desse lixo é prejudicial a saúde dos homens e do planeta.

Com o intuito de melhorar essa situação no Brasil, no ano passado foi criada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que incentiva o consumo sustentável, a reciclagem, a reutilização dos resíduos sólidos e a destinação adequada dos dejetos. A PNRS desenvolve um conceito de “Responsabilidade Compartilhada”. Assim, tanto os fabricantes, importadores, distribuidores, como o Estado e o cidadãos são responsáveis pela minimização do volume de resíduos sólidos .

Em Florianópolis, a coleta de resíduos sólidos é feita pela Comcap. São, em média, 14,5 mil toneladas de lixo todos os meses. Desses, cerca de de mil toneladas são materiais recicláveis, que a população separa para a coleta seletiva e são encaminhados para a Associação de Coletores de Materiais Recicláveis (ACMR) e Associação Recicladores Esperança (Aresp). O que nao é reciclável é encaminhado para do Centro de Transferência de Resíduos Sólidos (CTReS) no Itacorubi, e depois para o aterro sanitário de Forquilhinhas, em Biguaçu.

Mas nem sempre foi assim. Já houve época em que, determinado por lei, o destino final do lixo eram os mares. Confira a história do lixo em Florianópolis:


Curiosidades

  • A produção de resíduos na Capital é de 35 quilos por habitante/mês.
  • Museu do lixo em Florianópolis: todo o acervo produzido com base na reutilização de materiais provenientes da coleta de Lixo.
  • Lixo de banheiro não é reciclável e deve ser descartado junto com o lixo comum
  • Óleo de cozinha não deve ir no lixo comum, pois pode ser reciclado. Confira os pontos de entrega
  • O lixo reciclável deve ser limpo. Portanto lave as embalagens plásticas antes de descartá-las.
  • Saiba o que pode ser separado para a coleta seletiva.
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