Quando resistir é mais que preciso

Entrevista com o jornalista Vladimir Sacchetta, editor de pesquisa do livro “As Capas Desta História”


Texto: Amanda Casemiro (a.casemirof@gmail.com)
Fotos: Instituto Vladimir Herzog e Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp)


“Ao lançar uma publicação alternativa, de oposição, no exílio ou mesmo clandestina, o jornalista cria também um caldo de cultura fundamental para entender a história recente do Brasil, sem os filtros da análise mais tradicional.”

O trecho, retirado da apresentação escrita por Ricardo Carvalho, é uma síntese clara de “As Capas Desta História”.

O livro, publicado em 2011 pelo Instituto Vladimir Herzog, tem a organização de Ricardo Carvalho (coordenador), José Luiz Del Roio (editor de contexto), Vladimir Sachetta (editor de pesquisa) e José Maurício de Oliveira (editor de texto). Uma viagem ao tempo em que fazer jornalismo significava resistir — não só ao governo, mas também à edição seguinte. E “resistência” talvez seja a principal palavra da publicação.

Seguindo dois critérios básicos — o rigor histórico e a liberdade jornalística — , 340 imagens, entre capas e páginas de jornais, revistas, panfletos e fotografias, compõem os quatro capítulos da obra.

O “X” amarelo, presente na capa e na contracapa do livro, é um lembrete à censura

O primeiro, de nome “Precursores desta História”, é dedicado aos primeiros jornais e jornalistas à resistirem ao poder. Uma página inteira traz a capa do Correio Braziliense, editado em Londres por Hipólito José da Costa no ano de 1808. O primeiro jornal brasileiro e outros deixariam, de acordo com Carvalho, uma “espécie de herança maldita de coragem, força e desapego”.

Em “Imprensa Alternativa”, os periódicos que circularam entre 1964 e 1979 ilustram as práticas do jornalismo opinativo e do informalismo criativo — duas das principais marcas da imprensa da época, além do tom irreverente que permeou boa parte dos textos publicados. Chama a atenção não só o combate ao regime, mas quantidade de publicações voltadas à arte, às resenhas e os textos assinados por nomes como Paulo Leminski, Luís Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar. Destaque também para as publicações estudantis, como o Cineolho, de estudantes da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (USP), e a revista Movimento, uma das primeiras idealizadas pela União Nacional de Estudantes (UNE).

“Imprensa Clandestina” traz as publicações que tentavam driblar a censura e eram distribuídas de mão em mão, sem ouvir o outro lado — sob o eterno risco de não voltar da entrevista. O capítulo é marcado não só pelas capas das publicações, mas por fotografias dos atentados às redações de jornais como Opinião e A Hora do Povo, e dos corpos de Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, dirigentes do jornal A Classe Operária, na cena montada pela ditadura no chamado “massacre da Lapa”.

A cena montada do “Massacre na Lapa”, em que dois dos editores do jornal A Classe Operária foram assassinados pela repressão

A quarta e última parte, “A Imprensa no Exílio”, é um reconhecimento aos esforços dos exilados políticos em não só disseminar as atrocidades do regime, mas em criar uma identidade fora do país — uma forma de tentar apaziguar a saudade. Com o apoio de setores da Igreja Católica, comunistas e socialistas, algumas publicações eram resultado de redes de colaborações entre brasileiros, e impressas na língua do país. Em uma das páginas, há uma cópia de um dos milhares cartões-postais enviados por cidadãos italianos para Armando Falcão, ministro da Justiça do governo Geisel. O texto, em italiano, pedia respeito aos direitos humanos e basta à tortura e assassinato dos presos políticos.

Editado em formato grande, “As Capas desta História” é de um preciosismo histórico lúdico, que convida o leitor a explorar por conta as ampliações em grande escala e textos na íntegra. E, o melhor: poder ver a história contada sem intermédios além de contextualizações.


Para o jornalista Vladimir Sacchetta, ainda existe imprensa alternativa no país

Vladimir Sacchetta atendeu ao telefone quase no fim de uma manhã de sexta-feira para conversar sobre o passado e o presente do jornalismo. Vencedor de um prêmio Jabuti, com nove livros lançados em co-autoria, é especialista em Monteiro Lobato e formado em direito pela USP e em jornalismo pela Cásper Líbero. É dele o texto de abertura do capítulo “Imprensa Alternativa” do livro “As Capas Desta História”.

A entrevista abaixo foi concedida ao Jornal Mural Insurgente, trabalho final da disciplina Edição.


INSURGENTE: O livro, editado em formato grande, inova em sua composição. Qual foi o objetivo ao dar prioridade às imagens em relação aos textos?

VLADIMIR SACHETTA: Queríamos mostrar os jornais de uma forma que pudessem ser lidos. A ideia é trazer a publicação para o leitor como se ele estivesse (risos) recebendo um exemplar original naquela hora.


I: Dentro dos acervos, qual foi a capa mais difícil de ser recuperada?

VS: É uma pergunta difícil de responder (risos), porque a nossa maior dificuldade diante da riqueza dos acervos foi justamente fazer uma seleção do que fosse realmente significativo. Não há exatamente a capa mais difícil. Todas foram difíceis (risos) e fáceis na medida em que tínhamos acesso ao conjunto de documentos que está depositado no Centro de Documentação e Memória da Unesp.


I: Qual a importância de expor aos leitores fotografias como a do “massacre da Lapa”?

VS: Mostrar que até dezembro de 1976, quando ocorre a chacina da Lapa, a ditadura, embora estivesse num processo da chamada “abertura lenta, gradual e segura [para eles]”, continuava assassinando. Mostrar a crueldade do que foi o regime e colocar por terra essa tese da “ditabranda”, quando comparam equivocadamente a ditadura militar brasileira com a chilena e a argentina, por exemplo — onde o número de desaparecimentos foi bem maior. Isso não torna nossa menos cruel ou violenta. Então são imagens para chocar.


I: Você acredita que ainda se conserva a “herança maldita de coragem, força e desapego” que mostravam os jornais da ditadura?

VS: Olha, conserva num outro nível, em outras plataformas. Hoje a gente vive um estado de direita, uma democracia. Existe uma produção jornalística que aparece muito mais nas redes sociais. É uma prática do jornalismo de denúncia, que está todo segmentado, mas essa escola fez discípulos, sim. Especialmente a moçada que pratica esse jornalismo. Hoje não há necessidade de você produzir uma imprensa clandestina. A situação é outra. Primeiro, a facilidade de produzir a informação eletrônica, digital. E mais: de difundir através das redes sociais. Então, os tempos, as tecnologias e as plataformas mudam, e esse trabalho de formiguinha, como a gente chama, continua. E ainda bem que continua.


I: O modelo [de jornalismo] mordaz, com humor e de opinião deixou de existir com o fim do regime ou ainda nos resta algum exemplo?

VS: Aqui e ali, sim. Não existe mais um Pasquim, infelizmente, que foi dos alternativos o mais longevo. Mas acho que esse humor não acaba nunca. Ele está nas páginas dois e três da Folha de São Paulo até nas redes [sociais]. Essa mordacidade está aí. Se você olhar o jornal Brasil de Fato, do Movimento Sem Terra, ele traz esse humor mordaz também. Claro que hoje a mensagem é outra. Lá na ditadura, às vezes esse humor se manifestava através da metáfora. Hoje a coisa é mais direta.


I: A imprensa alternativa foi marcada pela prática opinativa, e o livro afirma que o jornalismo de opinião é uma marca da cultura brasileira. Mas, nos dias de hoje, se fala muito em isenção jornalística. O que se perde quando se deixa de expor o lado opinativo?

VS: Hoje, esse lado opinativo existe na forma dos colunistas, para o bem ou para o mal. Existem os colunistas de alto nível, e os colunistas hidrófobos, que estão fazendo uma campanha horrorosa dentro desta disputa política. São nada mais do que megafones dos donos de jornais. Vão passar como exemplos bizarros do mau jornalismo.

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