A saudade e outros lobos…

Me vejo enquanto dou adeus e viro as costas e saio de casa rumo à casa. Me vejo atando um nó na garganta e desfazendo outro no coração. Vejo as lágrimas que caem e as que não caem, acima de tudo, aprendi a guardar as minhas, mas sinto o peso delas em mim.
Me vejo enquanto despeço novamente de tudo, rituais solenes e inúteis. Me vejo dando adeus às árvores, espelho, montanha e rio, janelas e tábuas, paredes e vãos. Longe, me vejo aprendendo a viver longe. Longe de quem amo, enganando minha alma, inventando hierarquias de amor, estapafúrdias. Vejo, humilhado, pássaros em vôo e vejo minha casa sumindo, preenchida por tristeza e saudade e alguma indiferença.
Me vejo no escuro, arrependido, sem escolha, correndo de braços quase abertos e olhos bem fechados em direção ao Vazio. Me vejo, alcatéia de lobos negros, forma no escuro que me acompanha, que não permite que eu esqueça quem sou, de onde vim, pra onde vou e sinto todas minhas escolhas, sinto um corte na carne pra cada dia que não tenho mais junto do meu sangue.
Me vejo entregue à sorte, forjando uma certeza de que faço meu melhor. Me vejo mergulhando no lago turvo dos dias e mais dias e outros dias buscando por ouro, não achando, perdendo o ar.
Vejo quem fica para trás e nunca sei como me portar. Me vejo tropeçando nos próprios pés, caindo cada vez mais longe.
Gostaria que soubessem quanto amor sinto. Acho que nunca fui claro.
Me vejo e me flagro arrependido, no meio de lugar nenhum cercado pela noite e silhuetas e algum mato, amando em vão.